1.
No telhado do prédio em frente
um macho corteja uma fêmea
Enche o papo e abana a cabeça
para cima e para baixo
enquanto gira sobre si mesmo
A fêmea foge altiva
mas ele insiste
até que os dois voam
para longe da tua vista
2.
Na columbofilia
aprende-se
geografia
PML
3.
POMBA
Pomba, morta na sua neve.
Ian Hamilton Finlayin Animal Animal, Assírio & Alvim, fevereiro 2005, página 146, tradução de Jorge Sousa Braga
4.
COMUNHÃO
Uma pomba catando a
outra numa janela do sétimo
andar do hospital. Nada
as perturba. Nem o ruído
das escavadoras no túnel
em construção. Uma pomba
catando a outra num gesto
de ternura. Os olhos são
a única impureza no meio
de tanta brancura
Jorge Sousa Braga in O poeta nu [poesia reunida], Assírio & Alvim, 2.ª edição, abril de 2014, página 270.
5.
De mãos atrás das costas é que os pombos passeiam no jardim.
António Lobo Antunes, in Livro de Poemas, Dom Quixote, junho de 2026
NOTA DO EDITOR:
Nesta frase de António Lobo Antunes, o efeito de surpresa surge demasiado cedo. Quando chego a “os pombos”, o meu cérebro já começa a construir a imagem e deixa de precisar do resto da frase para a completar. Se fosse eu a escrevê-la, diria: “Os pombos passeiam no jardim de mãos atrás das costas.” Assim, a imagem só se revelaria por completo na última expressão. É esse o tipo de construção que mais aprecio, próximo do princípio de Gustave Flaubert de não deixar a frase cair antes do fim.


















