1.
TEM CALMA
Durante a noite
o telefone tocou.
Acordo, aterrorizada.
– Alguma coisa grave
aconteceu ao pai.
Tem calma – diz a minha filha.
O avô está bem.
Afinal, ele morreu
há um mês.
tradução PML
2.
AMANHÃ, VOU SER OPERADA
A morte veio e ficou ao meu lado.
Eu disse: estou pronta.
Estou deitada numa cama da Clínica Cirúrgica de Cracóvia.
Amanhã
vou ser operada.
Há muita força em mim. Posso viver,
posso correr, dançar e cantar.
Tudo isso está em mim, mas se for necessário,
partirei.
Hoje
faço contas à minha vida.
Eu era uma pecadora,
batia com a cabeça contra a terra,
implorava à terra e ao céu
que me perdoassem.
Eu era bonita e feia,
sábia e estúpida,
muito feliz e muito infeliz,
frequentemente tinha asas
e flutuava no ar.
Percorri mil caminhos ao sol e na neve,
dancei com o meu amigo sob as estrelas.
Eu vi amor
em muitos olhos humanos.
Comi com prazer
a minha fatia de felicidade.
Agora estou deitada numa cama da Clínica Cirúrgica de Cracóvia.
Ela está comigo.
Amanhã
vão-me operar.
Pela janela as árvores de maio, lindas como a vida,
e em mim, humildade, medo e paz.
(escrito enquanto estava no leito da morte), versão de Jorge Sousa Braga
JSB
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Anna Świr (ou Anna Świrszczyńska) (1909–1984) foi uma poetisa polaca conhecida pela sua escrita intensa, sensível e corajosa, que abordou temas como o corpo feminino, a maternidade, a sexualidade, a guerra e a condição humana. Viveu a ocupação nazi em Varsóvia e trabalhou como enfermeira durante a Revolta de 1944, experiência que marcou profundamente a sua poesia. Publicou tanto para adultos como para crianças, mas foi sobretudo com os seus poemas diretos e despidos de artifício que se destacou. A sua obra ganhou reconhecimento internacional, especialmente através das traduções feitas por Czesław Miłosz e Leonard Nathan.


















