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Seios

Seios

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1.
O seio não se confunde com a mama
O seio é elegante discreto e sensível
A mama é uma palavra feia

2.
Ninguém faz uma cirurgia plástica a um seio. Porque o seio é em si mesmo prefeito. Basta ser pronunciado para exibir todo o seu esplendor e beleza. Ninguém pode ferir o seio. O seio só é suscetível de ser tocado com os olhos, as mãos e os lábios. Nunca pelo bisturi.

3.
O seio está sempre saudável, ao contrário da mama. Por isso, nunca se ouviu dizer que uma mulher tinha cancro do seio, mas sim cancro da mama.

OS SEIOS DA T-SHIRT MOLHADA

Os seios sem soutien que se adivinham por detrás de uma t-shirt molhada são e não são seios. Na parte em que não se colam à t-shirt, não chegam a ser seios: parecem apenas uma massa disforme. Mas, quando aderem à t-shirt encharcada, também não são seios. Apenas se insinuam como tal. Por instantes, julgamos vê-los no seu esplendor, mas logo se revelam numa simples mancha na t-shirt. São uns dissimulados.

O SEIO EM TOPLESS

O seio em topless é o seio mais rebelde que se conhece. É um seio inconformado, independente, corajoso, criativo e impulsivo. O seu desejo é desafiar as convenções. Por isso, é muito odiado pelos outros seios que gostariam de ser como ele, mas que, por vergonha, o olham com desdém, à espera que passe depressa.

O seio em topless atinge a máxima felicidade quando corre na praia e entra pelo mar dentro. Nesse momento, é um seio verdadeiramente rebelde. É o único seio que tem a oportunidade de ser acariciado pelas mãos macias, refrescantes e salgadas do mar. É a liberdade suprema de se ser seio.

OS SEIOS DA PROFESSORA PRIMÁRIA

Estes seios não existem nem nunca existiram. O facto de a professora ser mulher, e as mulheres terem seios, não quer dizer que a professora tivesse seios. Efetivamente, ninguém alguma vez viu ou sequer vislumbrou o seio da professora primária. Da secundária admite-se, mas da primária não. É que não havia olhos para ver os seios da professora primária. Só havia olhos para ver os lábios pintados, os dentes grandes e brancos, os olhos rasgados, as pestanas compridas e o cabelo ondulado. Quando nos tratava bem era um autêntico anjo; quando nos batia com a régua, era um diabo. Em qualquer dos casos, nunca tinha seios.

SEIOS WONDERBRA

É a maior invenção humana. Aliás, uma exigência presente em todas as cartas constitucionais: o direito à igualdade da beleza e da sedução. Todas as mulheres têm direito a ter seios belos e sedutores. O Wonderbra limita-se a realçar e a levantar os seios, dando-lhes uma aparência mais volumosa e tornando-os semelhantes entre si. É verdade que aumenta artificialmente a aparência dos seios, mas não deixa de os tornar sedutores enquanto os sustenta — mesmo que, depois, possam ser uma desilusão. Por momentos, os seios são todos maravilhosos — e isso é bom para a mulher e para a humanidade.

OS SEIOS DO MANEQUIM

Os seios do manequim só por acaso se veem. É nas alturas de remodelação da montra que ficam despidos para o público os poder apreciar. Até então, o manequim não tinha seios: tinha roupa bonita, ou assim-assim. Quando fica despido, ficamos admirados por ter seios. São seios tímidos, que quase pedem desculpa por existirem. No fundo, são duas pequenas sobrelevações, para fazer de conta que existem.

Para vermos aquilo, mais valia que os donos da loja os encobrissem e deixassem a nossa imaginação trabalhar, até nos cansarmos e mudarmos de montra.

Os seios do manequim nem sequer são de plástico: é plástico a imitar seios, o que é mais grave.

PML

*

OS QUE QUERIAM QUE EU OS APANHASSE

Aqueles seios vinham até mim, estendiam-me as mãos como uma criança de peito a fugir do colo da mãe.
Eles queriam, mas ela continha-os, dissuadia-os; esteve em luta com eles até se ir embora.
Seria má ou no seu coração não havia lugar para certas palavras?
A verdade é que ambos vimos e notámos perfeitamente a vontade deles e, no entanto, com uma grande dureza de madrasta, ela impedia-os de virem ter comigo, de saltarem para os meus braços abertos, de receberem o alegre acolhimento que merecem as meninas que gostam de nós.

Ramón Gómez de la Serna, in Seios, Edições Antígona, 2000, tradução de José Colaço Barreiros, página 44

*

OS SEIOS POSTIÇOS

Aquela mulher despiu-se de costas voltadas, como quem tira roupas um tanto sujas, e depois mostrou-se.
Como é que ela, que seduzira com o seu busto esplêndido, podia ser tão descarnada? Ah! Não tinha os seios que aparentava. Era uma mentira.
Por isso assumiu uma atitude compungida e temerosa de ir ser rejeitada. No entanto, apesar de tudo, a descoberta do seu subterfúgio para atrair na rua e fazer alguém passar o seu portal apertado, o escamoteamento que fizera dos seus seios falsos — de cartão? de borracha? de bexiga? — deu-lhe um valor impensado, como se fossem uma provocação mais subtil os seus seios imaginários.

Ramón Gómez de la Serna, in Seios, Edições Antígona, 2000, tradução de José Colaço Barreiros, página 105

*

SEIOS

Sei os teus seios.
Sei-os de cor.

*

Para a frente, para cima,
despontam, alegres, os teus seios.

*

Vitoriosos já,
mas não ainda triunfais.

*

Quem comparou os seios que são teus
(banal imagem) a colinas!

*

Com donaire avançam os teus seios,
ó minha embarcação!

*

Por que não há
padarias que em vez de pão nos dêem seios
logo p’la manhã?

*

Quantas vezes
interrogaste, ao espelho, os seios?

*

Tão tolos os teus seios! Toda a noite
com inveja um do outro, toda a santa
noite!

*

Quantos seios ficaram por amar?

*

Seios pasmados, seios lorpas, seios
como barrigas de glutões!

*

Seios decrépitos e no entanto belos
como o que já viveu e fez viver!

*

Seios inacessíveis e tão altos
como o orgulho que há-de rebentar
em desesperadas, quarentonas lágrimas…

*

Seios fortes como os da Liberdade
– Delacroix – guiando o Povo.

*

Seios que vão à escola p’ra de lá saírem
direitinhos para casa…

*

Seios que deram o bom leite da vida
a vorazes filhos alheios.!

*

Diz-se rijo dum seio que, vencido,
acaba por vencer…

*

O amor excessivo dum poeta:
«E hei-de mandar fazer um almanaque
na pele encadernado do teu seio!»

(Gomes Leal)

*

Retirar-me para uns seios que me esperam
há tantos anos, fielmente, na província!

*

Arrulho de pequenos seios
no peitoril de uma janela
aberta sobre a vida.

*

Botas, botifarras
pisando tudo, até os seios
em que o amor se exalta e robustece!

*

Seios adivinhados, entrevistos,
jamais possuídos, sempre desejados!

*

«Oculta, pois, oculta esses objectos,
altares onde fazem sacrifícios
quantos os vêem com olhos indiscretos»

(Abade de Jazente)

*

Raparigas dos limões a oferecerem
fruta mais atrevida: inesperados seios…

*

Uma roda de velhos seios despeitados,
rabujando,
a pretexto de chá…

*

Engolfo-me num seio até perder
memória de quem sou…

*

Quantos seios devorou a guerra, quantos,
depressa ou devagar, roubou à vida,
à alegria, ao amor e às gulosas
bocas dos miúdos!

*

Pouso a cabeça no teu seio
e nenhum desejo me estremece a carne.

*

Vejo os teus seios, absortos
sobre um pequeno ser.

Alexandre O’Neill in Poesias completas & dispersos [No Reino da Dinamarca], Assírio & Alvim, março 2017, página 85

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