A mesquita de Fez não tem
um de fora, uma casca;
as tendas que se apoiam nela
é que lhe são fachada.
É impossível a quem de fora
não só apreendê-la
ou antecipá-la, mas saber
onde mesmo começa.
Tem de entrá-la, pois só de dentro
inteira se revela
essa arquitetura que existe
só pela face interna.
Como em nenhuma, o seu dentro
consegue se fundar
sem seu de fora, e mais: esquecer
que o de fora é bazar.
João Cabral de Melo Neto in Museu de tudo, Alfaguara, outubro 2009, página 81
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NOTA DO EDITOR:
Não me canso de reler este poema. A sensação é sempre a mesma: um pingue-pongue de imagens com remate perfeito. É uma sucessão de evidências tão agradável ao pensamento que este fica excitado com o próprio exercício de pensar.
Apesar de não haver rima no fim do verso, que criaria eco, existe uma melodia interna que, pela sua naturalidade, não rouba atenção à inteligibilidade da mensagem.
No fim, ficamos gratificados pela sucessão de imagens, sem que a leitura seja perturbada por combinações sonoras.
Não me canso de reler este poema. E agora compreendo o fascínio de Alexandre O’Neill por Cabral de Melo Neto.
É a música da inteligência!


















