21
0
COMPARTILHAR
Inicio Do outro mundo O trabalho da...

O trabalho da quinta por Carlos Oliveira

O trabalho da quinta por Carlos Oliveira

0
21

O trabalho da quinta era feito com enxadas, a uva esmagada sem prensas, o milho escarolado à mão. A aguardente de Corrocovo corria ainda do tosco alambique, como nos tempos do Velho Paulo. A compra da grande máquina destiladora fora sempre adiada. Os homens continuariam a calcar os cachos, o bagaço, a escarolar as espigas. Desceriam ao fundo das dornas onde o mosto fervia. Um cheiro doce e perigoso entontecia-os, sufocava-os. Teriam de vir à superfície encher o peito de ar.

Na quinta, tudo nascia da sua paciência. Se aparecessem as prensas, a destiladora, os escaroladores mecânicos, os homens seriam despedidos. Uma máquina faz o trabalho de cem braços. A oferta de mão-de-obra aumentaria em Corrocovo, as levas dos emigrantes e dos ganhões engrossariam e o povo das terras areentas debandaria em massa. Ao fim da caminhada, a gente de gândara encontraria os esteiros do Tejo, os valados lodosos, as febres do arroz. Ou o chão alheio dum novo continente.

in Casa na duna, Assírio & Alvim, outubro de 2004, página 35

Partilha

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here