ARTE POÉTICA
Acontece às vezes num poema
quando a névoa se dissipa
leva consigo a montanha
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ARTE POÉTICA
Retire a tampa e introduza
duas pilhas AA (não incluídas)
no compartimento das pilhas
Preste atenção às marcas de
polaridade correctas
Certifique-se de que as
pilhas estão íntegras e
em seguida volte a colocar
a tampa pressionando-a
até ela encaixar
As pilhas gastas devem ser
removidas e eliminadas
de forma adequada
Também pode fazer tudo
ao contrário sem obedecer
a ordem nenhuma
Jorge Sousa Braga in A flor cadáver e outros poemas, Assírio & Alvim, setembro 2024, página 50
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ARTE POÉTICA
O poema não é uma decisão,
não é a cláusula manhosa
camuflada no contrato por objectivos
Também não é a extremidade
sequiosa, último anzol na raiz
de uma árvore incauta
Mais facilmente seria a panóplia
de aprestos que um homem leva
para a vida no mar
Mas se sentires que é uma decisão,
toma-a
até à última gota
Luís Pedroso in Importunar o tempo à fisga, Língua Morta, maio 2018, página 38
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POEMA
Vais por um deserto.
Ouves um pássaro a cantar.
Por mais impossível que seja um pássaro no deserto,
vês-te obrigada a fazer-lhe uma árvore.
É o poema.
kiki Dimoulá in A Grécia de que falas…, Antologia de poetas gregos modernos, tradução de Manuel Resende, Língua Morta, fevereiro de 2021, página 169
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ARTE POÉTICA
Entre tantos ofícios exerço este que não é meu,
como um mestre implacável
obriga-me a trabalhar de dia, de noite,
com dor, com amor,
à chuva, na catástrofe,
quando se abrem os braços da ternura ou da alma,
quando a doença deforma as mãos.
Obrigam-me a este trabalho as dores alheias,
as lágrimas, os lenços de saudação,
as promessas no meio do outono ou do fogo,
os beijos do encontro, os beijos de despedida,
tudo me obriga a trabalhar com as palavras, com o sangue.
Nunca fui dono das minhas cinzas, dos meus versos,
escrevem-nos rostos obscuros de como disparar contra a morte.
Juan Gelman, tradução de Jorge Sousa Braga
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ARS POETICA
Escreve cada um dos teus poemas
como se fosse o último.
Neste século, saturado de estrôncio,
acusado de terrorismo,
voando a uma velocidade supersónica,
a morte chega com uma rapidez assustadora.
Envia cada uma das tuas palavras
como se fossem uma última carta antes da execução,
um pedido esculpido na parede da prisão.
Tu não tens o direito de mentir,
o direito de fazer joguinhos.
Simplesmente não terás tempo
para corrigires os teus erros.
Escreve cada um dos teus poemas,
concisa, impiedosamente,
com sangue – como se fosse o último.
Blaga Dimitrova, tradução de Jorge Sousa Braga
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ARTE POÉTICA
Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer
Adília Lopes in Um Jogo Bastante Perigoso
Olhar o rio que é de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.
Sentir que a vigília é outro sono
Que sonha não sonhar e que a morte
Que teme a nossa carne é essa morte
De cada noite, que se chama sono.
Ver no dia ou até no ano um símbolo
Quer dos dias do homem quer dos anos,
Converter a perseguição dos anos
Numa música, um rumor e um símbolo,
Ver só na morte o sono, no ocaso
Um triste ouro, assim é a poesia
Que é imortal e pobre. A poesia
Volta como a aurora e o ocaso.
Às vezes certas tardes uma cara
Olha-nos do mais fundo dum espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.
Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao divisar a Ítaca
Verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade e não prodígios.
Também é como o rio interminável
Quem passa e fica e é cristal dum mesmo
Heraclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.
Jorge Luis Borges in Poemas Escolhidos, Selecção feita pelo autor, tradutor, Ruy Belo, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Outubro de 1971


















