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Nuno Higino (1960)

Nuno Higino (1960)

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5.
O médico sem saber por onde começar: se
pelo corpo se pelo pensamento, indeciso
na sua ciência de trevas, as mãos a procurar
na minha penúria alívio para a sua ignorância; 

4.
A alegria a descarnar, febril, a entupir a garganta,
a fazer bater portas
e janelas, a rouquidão das palavras a comprimir 

3.
Um dia cheguei a casa e vi que tinha sombras
espalhadas no corpo,
cogumelos escuros de luar, sem saber se era
veneno o que eu tinha na pele 

2.
Comecei a sentir o corpo muito distante do
pensamento; o relógio do corpo
descompassado com o mundo, o pensamento 

1.
As mães sobem uma escada até ao céu,
sobem e descem a escada longa dos filhos;
as mães olham para cima, firmam as mãos na escada
e pensam com os olhos. Ficam de pé ―morrem de pé
se for preciso― a pensar as estrelas. Cada uma delas
é um pulmão jovem, um alvéolo inviolável.
As mães crescem com os anos, tornam-se ramos
a baloiçar na escada: são perenes, persistentes
e mansas. As mães abrigam os pássaros no olhar,
tomam-nos nas mãos como oferta sagrada
e soltam-nos do alto da escada: voam, voam,
crescem contra as nuvens e são água, espuma,
exílio azul. Os filhos são os olhos das mães, aflitos
e saudáveis, à espera que floresça a flor fria
da amendoeira. Olhos que partem para regressar a si.

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