31.
Sem erros de paralaxe
De anjo só tinha a cara;
as asas, quando as abria,
pareciam de ave rara,
uma ave que subia
e descia quase a pique
e com tal velocidade,
mais veloz que o Sputnik,
essa outrora novidade
das que atravessam os céus
e percorrem os espaços
(sem serem anjos nem deuses),
mas que desdobram os braços
em busca doutras galáxias,
sem erros de paralaxe. →
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30.
Futurou Fernando Pessoa
em Durban ou em Lisboa
que os ossos dos seus heterónimos
seriam depositados nos Jerónimos? →
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29.
Senhora da pós-verdade,
dizei-me, porque mentis
com a naturalidade
dum Pinóquio sem nariz →
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27.
O seu umbigo é o centro
do mundo do universo
visto por fora ou por dentro
do direito ou do avesso: →
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26.
Não sei como dizê-lo, mas se vejo
naquela indiferença um não sei quê →
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25.
Vira a noite
do avesso: a insónia
desalmada esmiúça →
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24.
O offshore da minha rua é o mais secreto offshore da minha aldeia, →
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23.
Dissesse do Natal o muito que
se olha sem se ver, aquando e onde
o outro é transparente, como se
fosse um corpo invisível que se esconde, →
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22.
Onde se lê passado, deve ler-se presente.
Onde se lê presente, deve ler-se futuro. →
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21.
Arrastado na fuga para a vala
comum que aprofunda a crueldade →
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20.
Desaba o sol, o silêncio,
a dor no coração da terra
comovida; na levada →
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19.
Ofício de verão –
a sede abrasa o canto
insurrecto das cigarras →
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18.
Perdi a veia, ou melhor, se a tive,
alguma vez teria de a perder →
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17.
Mesmo sem fé o coração se deita
a sondar o além, o que há-de vir
na época precisa da colheita →
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16.
Acendeste o silêncio,
esse silêncio feito
de terra e cal, de erva →
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15.
Usarei a palavra que me resta,
por muito que indicie algum desgaste, →
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14.
Colho as flores negras do tempo
que murcharam no jardim; →
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13.
Por tardia que seja, é sempre cedo
que se faz a viagem sem regresso, →
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12.
Oiro da noite
pó das estrelas
chuva de cinzas →
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11.
A voz que te nomeia
a boca que te chama
a língua que se ateia
não segreda – clama →
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10.
Olhar as rugas, ver
as cicatrizes que o rosto
desenrola sulco a sulco: →
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9.
Poema para não ler
pois que a cegueira o cobre
com a nudez a valer
e mesmo nu se desdobra →
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8.
Engolir cobras, lagartos,
elefantes, crocodilos,
e calar, mesmo que fartos
de bramidos e sibilos →
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7.
Não acodem as palavras
tão afastadas de mim →
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6.
Quando dizes
que sim, que não,
que talvez,
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5.
não sentes
a língua a dobrar-se,
não vês? →
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4.
Não vou somar aquilo que perdi,
sequer subtrair o que ganhei →
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3.
Vós que suportais a miséria imposta
por estes que outras coisas prometeram →
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2.
Dado o dito por não dito
(irrevogável questão),
que pensar do sobredito
e do seu golpe de mão? →
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1.
Este pov’assim
Aguenta tudo
Debita o banqueiro
E dobra o ministro
Um com ar cimeiro
Outro d’ar sinistro →
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Domingos da Mota nasceu a 15 de Dezembro de 1946, em Cedrim, Sever do Vouga. Licenciou-se em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Trabalhou num laboratório da indústria farmacêutica. Reside em V. N. de Gaia. Tem poemas dispersos por colectâneas, revistas, jornais, e em diversos sítios do ciberespaço. Actualiza com mais frequência o blogue http://fogomaduro.blogspot.com .
Sito in http://domingosmota.blogspot.pt/






















