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Prisão de sonhos

Prisão de sonhos

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FIZ seis anos no dia seis de Outubro e logo na manhã seguinte contra a minha vontade, meteram-me na escola. Levava sobre as costas a tiracolo, uma saca de serapilheira com um livro de leitura, uma lasca rectangular de ardósia encaixilhada em quatro ripas de madeira e um lápis de pedra. Fiquei surpreendido com aquilo, nunca tinha visto semelhantes coisas e desconhecia em absoluto qual o fim para que serviam estes apetrechos. Os meus colegas, rapazes e raparigas, levavam também numa saca igual ou parecida, as mesmas ferramentas e, como eu, interrogavam-se sobre a utilidade a dar aqueles objectos estranhos. Todos seguíamos descalços pelo empedrado caminho abaixo. A minha mãe não me foi levar nesse primeiro dia, tinha de trabalhar e cuidar dos meus irmãos pequeninos, ainda fora da idade de internamento forçado. Era uma algazarra medonha, falava-se de tudo o que poderia acontecer quando finalmente entrássemos pelo portão de ferro da velha escola primária na rua do Remoinho que tinha cravada numa das ombreiras de granito, uma placa em mármore esbranquiçado que, segundo alguém nos informou, dizia ser propriedade do Estado. Chorei, eu e os outros, aquilo aterrorizou-nos, entrar numa casa de que o Estado é dono e senhor, era coisa de tal solenidade que nos deixou a todos silenciosos não fosse a nação não gostar da barulheira que tínhamos feito ao descer a rua. O prédio já era velho nesse tempo, acho que nunca deve ter sido novo, sempre o conhecia desnudado de cales e pinturas, com falta de bocados de estuque que davam a ideia de que estava a sofrer de grave doença de pele. As portas eram velhas, as janelas também e, em algumas delas, os vidros tinham desaparecido partidos talvez por pedradas arrimadas em protesto pelos nossos antecessores. Ao cimo das escadas estava a professora quieta, petrificada com um papel numa mão dobrada sobre a outra encostadas à barriga. Procedente dela chegava-nos um perfume novo, uma fragrância desconhecida que se espalhava por todo o recinto e suavizava e adocicava o nosso olfacto imaculado como se fosse um jardim de rosas a aromatizar a atmosfera carregada de maus odores em que vivíamos, apenas cheirosa na primavera quando os campos se cobriam de flores de malmequeres, alecrins e os montes se enfeitavam com o amarelo vivo das flores dos tojos e o violeta quase púrpura das urzes. Esperou alguns minutos nessa posição e quando o sino de uma igreja do outro lado do rio bateu as nove horas, começou a ler os nossos nomes escritos nesse documento. Chamou pelo primeiro nome e ninguém respondeu. Então como quem já está habituada a situações desse tipo, autoritariamente disse em voz alta:

– Quando eu chamar pelo vosso nome, digam presente! Assim foi, aquela turba irrequieta fez silêncio absoluto e as vozes que respondiam à chamada, pareciam vir de muito longe, tímidas e abafadas pela tosse persistente de alguns, até chegar à minha vez. A ordem era alfabética, portanto fui dos últimos a ser intimado:

– Presente, respondi mentindo com quantos dentes tinha na boca. Presente implicava estar ali de corpo e alma, cheio de vontade de apreender as primeiras letras do abecedário; ora eu, estaria em todos os lugares que conhecia, no ribeiro a pescar, no poço de baixo a tomar banho ou nas bordas do grande rio a guardar a minha cabra. Ali, frente à professora é que eu não estava de certeza absoluta e nem queria estar e duvido que, nesse momento aflitivo e de incerteza, todos os meus colegas na fantasia das suas mentes, também não andassem a percorrer os caminhos da minha terra em brincadeiras alegres, livres e despreocupadas, cujo dono do prédio chamado Estado, acabava de proibir condenando-nos a todos à prisão por muitos anos.

A incerteza do futuro amedrontou-nos, a perspectiva do novo fez-nos tremer de medo. O que foi que eu fiz para me meterem numa jaula com um quadro preto dependurado na parede rabiscado com letras brancas que nenhum de nós sabia decifrar. Que crime terei praticado para me sentarem numa carteira em que já faltavam algumas tábuas menos a de cima que tinha dois tinteiros de cerâmica branca enfiados em dois buracos? Devo ter deixado a cabra ir ao saco do milho do senhor Viana, pensei. E os outros que nem cabra tinham? Que asneiras terão feito para serem, como eu, encerrados numa sala com ratos a passear acompanhados por pulgas e piolhos? As pessoas grandes não gostam mesmo de nós, voltei a matutar. Porque é que só fazem isto à canalha que não faz mal nenhum a ninguém? E os grandes, onde estão as raparigas já com peitos e os rapazes com barba na cara? Por que é que não se vê nenhum aqui e a professora não chamou pelo nome de alguns deles? Vi-os sentados nas pedras do largo quando há bocado passava por lá, riam-se como tolos a olhar para nós figuras simplórias e inocentes. Decerto já sabiam o que nos esperava, o fim da liberdade, a terrível caminhada para o degredo onde todas as luzes da nossa infantil felicidade se apagavam lentamente.

Nunca hei-de esquecer esse dia em que entrei pela primeira vez na casa do Estado porque foi o momento em que ele me agarrou para sempre. Ainda hoje sinto o seu braço injusto e cruel a arrastar-me pela calçada do remoinho para me enjaular nos escombros que restam da escola primária propriedade que ele faz questão em deixar apodrecer.

A manhã foi passando, a professora esforçava-se para manter o silêncio dentro daquelas quatro paredes, o perfume dela a despertar-me a imaginação enquanto olhava pela janela o rio que passava e não me levava com ele até às mãos salgadas do mar que nunca tinha visto mas imaginava lindo. Rio que se mantinha indiferente apesar dos apelos que os meus olhos lhe faziam:

– Tira-me daqui, diziam no silêncio da manhã estas vistas que ainda pouco ou nada tinham visto do mundo que se desenrolava à nossa frente. O mar tão longe e tão perto da minha vida, o oceano imenso que silencioso ouviu os meus apelos de criança e muitos anos depois me veio buscar para junto dele:

– Vais aprender a ler e a contar, tinha-me dito a minha mãe no dia anterior. Não disse nada, mergulhado em sombrios pensamentos só me apeteceu perguntar-lhe para que queria eu saber ler e contar se nada havia nada para ler nem para contar nesse tempo. Mas quem era eu para contestar a minha mãe, como poderia alguma vez nessa altura e sempre desrespeitar a sua vontade. Fiquei a olhar para o rio, a ver passar os barcos, a pensar que um dia haveria de ser grande como o meu pai e então ninguém poderia encerrar-me numa prisão como aquela.

Os dias passaram, na escola aprendi a fazer números e letras na lousa. Os primeiros riscos que plasmei na pedra negra, podiam bem ser o desenho rudimentar do barco saveiro do ti Vicente a navegar no rio ou a água do ribeiro a cair na levada com amieiros tombados sobre o poço a chorar a nossa ausência. Nesse precário ensino, aperfeiçoei a escrita, tornei-me num menino instruído cujas redacções impressionavam as próprias professoras. Quando terminei o ensino primário, conhecia e sabia muito mais que metade das pessoas da minha aldeia.

A velha escola continua lá partida em bocados, silvas e árvores crescem no recreio abandonado no local onde antes se situava a sala de aulas. Os telhados abateram e as heras agarram-se às pedras que restam a desafiar a decadência. Nenhum som se ouve vindo do interior do espaço de risos e brincadeiras do passado nem a professora se vê ao cimo das escadas a perfumar o ambiente e com um papel na mão a chamar pelos nossos nomes. Se chamasse já seriam muito poucos a dizer presente. Alguns porque já faleceram outros por terem tomado direcções diferentes nas suas vidas. Eu seria um deles, agora por razões muito distintas das que me agoniavam nesses dias. Desde esse tempo de criança de escola nunca mais me perguntaram se eu estava presente fosse para o que fosse. Desinteressaram-se de mim e dos outros, entregaram-nos ao mundo que fez de nós gato-sapato sem nunca nos terem perguntado se queríamos ser felizes e se era dessa forma que queríamos viver.

Tenho de subir a calçada, aqui já não há sítio onde eu possa enterrar tantas lembranças e já não se vê o barco do ti Vicente a cruzar o rio de uma banda para a outra a transportar passageiros. Vou visitar a nova escola que não tem vidros partidos nas janelas nem ratos a passear acompanhados com piolhos e pulgas, onde não faltam tábuas nas carteiras e tudo brilha como novo. Vou observar o futuro que do passado só resto eu e um punhado de homens e mulheres obstinados em proporcionar às crianças de hoje um espaço de liberdade e de aprendizagem digno que nunca retroceda às carências e indiferença dos meus tempos de menino e por via disso, se transforme numa prisão de sonhos.

Já lá vão as crianças de mochila às costas sorridentes. Alguns nem por isso, choram agarrados aos regaços das mães, outros nem mochila levam, numa mão um bolo embrulhado num guardanapo de papel, debaixo do braço uns cadernos a brilhar como novos. Quem sou eu deles o que me lembra a minha meninice? Sou aquele que ninguém vê, que leva uma saca de serapilheira a tiracolo, que vai descalço e olha espantado em seu redor. Sou esse de cabelo espetado, de ranho no nariz, em calções onde já falta uma tira sobre um ombro e camisa branca sem metade dos botões. Sou um passarinho que caiu do ninho e desesperado chama pelos seus pais que não o foram levar pela mão à escola. Olhem todos, eu sou aquele a contar do último para a direita, não sou ninguém depois de ter aprendido a escrever, a ler, a contar, a descrever todos os afluentes dos rios, todas as estações e apeadeiros das linhas de comboio e a fazer todas as contas possíveis e imaginárias. Sou esse que transformou os sarrabiscos feitos num rectângulo de ardósia encaixilhado em quatro ripas de madeira, escrevendo com um lápis de pedra, em livros que contam histórias do seu povo. Sou também o menino sem mochila às costas, com um bolo embrulhado num guardanapo de papel, aquele acolá que chora agarrado às saias da mãe porque pela primeira vez na sua curta existência vai ter de deixar por algumas horas, o amor e o carinho dela para ser entregue ao desconhecido que o assusta e amedronta. Sou esse e os outros todos, revejo-me em cada um deles pedra bruta que rejeita ser modelada, um ser que se confronta com o saber e treme de medo por causa disso. Sou outra vez criança, sinto-me parte deles todos, comungo as mesmas angústias e preocupações deste importante momento, sofro no coração que aperta cada vez mais porque vim de um mundo onde só havia amor e liberdade, beijos e abraços, cantigas ao adormecer, sorrisos sim, sorrisos de ternura e carinhos, tudo coisas que me faziam lembrar o céu, o paraíso onde julguei ir viver para sempre e agora sinto-me desamparado, sozinho no meio de muitas crianças como eu. Como a velha escola a desmoronar-se sobre o rio, eu sou tudo e não sou nada, mas consigo retroceder e avançar no tempo sempre que é necessário e encontrar-me puro nas lágrimas e nos sorrisos das crianças de hoje

Publicado originalmente no livro Fado Falado

SOBRE O AUTOR: Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do Douro; Douro Inteiro;  Douro Lindo; A Ninfa do Douro; Palavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook e Amanhecer (Poesia). Colabora com o Correio do Porto desde junho de 2016.

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