Uma festa que começa a ferver logo na tarde do dia 23, quando o ar já cheira a manjerico, sardinhas e pimentos assados, misturados com o leve vapor do álcool. As ruas do centro histórico, sobretudo na Ribeira do Porto e na marginal de Gaia, enchem-se até transbordar. A multidão, feita de todas as nacionalidades, veste-se de verão, empunha martelinhos de plástico e alhos-porros de imitação, pronta para a brincadeira. Vai haver bailaricos por toda a cidade e arredores.

À noite, o céu transforma-se num imenso painel luminoso, acende fogueiras improvisadas com móveis velhos e tralha, aquecendo as vielas mais antigas.

Mas o grande momento chega à meia-noite, com o fogo de artifício sobre o Douro, um espetáculo sincronizado que ilumina a ponte D. Luís e se reflecte na água do Douro, enquanto milhares de balões de papel sobem lentos como pequenos sóis alaranjados no escuro.

Até alta madrugada, a música ecoa por todo o lado: pimba, rock, marchas populares. Desfilam bombos, acordeões e concertinas, e não faltam os manjericos com quadras que os rapazes oferecem às raparigas. A festa só abranda com o nascer do sol, já no dia 24, quando ainda há quem salte fogueiras ou mergulhe nas fontes à procura de sorte. Uma mistura de paganismo e devoção, que só o Porto sabe celebrar.

Mas, acima de tudo, é a noite em que a cidade se entrega de peito aberto ao amor.

O ar não cheira apenas a sardinha e manjerico, cheira a beijos, abraços, promessas e pele quente de verão, sacudida pelo desejo.

Ao cair da noite, as escadas da Ribeira e das Fontainhas tornam-se bancadas de um teatro vivo, onde cada par encena o seu próprio romance. Do outro lado do rio, Gaia pisca luzes como um olhar cúmplice. Caminha-se de mãos dadas, trocam-se marteladas que são apenas pretextos para um toque, um sorriso, um “olá” que, naquela noite, ganha outro peso, outro perfume.

Quando a meia-noite explode em cor, há beijos que acontecem pela primeira vez ao som dos foguetes. Os balões sobem, levando desejos dobrados em papel, nomes, encontros, saudades. Alguém escreve:

“Se chegar longe, é porque eras mesmo para mim”.

E depois, já de madrugada, quando as fogueiras são apenas brasas e o cansaço começa a pesar, há quem fique abraçado junto ao rio, a ouvir o bater das ondas, à espera que o sol nasça cor-de-rosa por trás das caves do vinho do Porto.

Porque o São João não termina quando a festa acaba; termina quando dois olhares se reencontram no dia seguinte e sorriem.

Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do DouroDouro Inteiro;  Douro LindoA Ninfa do DouroPalavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook;  Amanhecer; Barcos de PapelCasa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.

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