As Fisgas tinham ficado para trás. Deixei-as escorrerem-se languidamente observando os mesmos turistas num miradouro recente. O rio tropeçava-se e ainda que a filosofia não o inste a percorrer-se repetidamente sob a mesma ponte, teimosamente completava o seu ciclo hídrico num vaivém aquoso irregular longe da soberania humana.

De cajado na mão, a disforme imagem feminina faz-me sinal que julgo ser em aviso de rebanho na estrada. A insistência do levantar do braço leva-me, por consciência, a parar e abrir o vidro do passageiro. À janela, o rosto assustado em permanência, talvez questionando-se o que é o mundo além do redil ou para lá do Monte Farinha, o olhar esbugalhado de um azul-celeste inocente, as frases monocórdicas e sem sentido de uma criança em corpo de adulto. A boca sem dentes abria a fala que eu me esforçava em perceber. As cabras, castanhas, pretas, polvilhavam o asfalto quebrado de pequenos excrementos. À minha paragem a seu lado, coloca os braços cobertos pela camisola de lã esburacada no parapeito móvel da janela aberta. O suor escorre-lhe pela fronte, colando cabelos em consistência de torga à testa enrugada. Aponta para a frente, na direcção da estrada e diz-me que é dali de cima, da aldeia.

– Tenho muito medo dos ladrões. ­– Fala em jeito de saudação.

E eu, sem saber muito bem o que responder, dizia que sim, que era preciso ter cuidado com quem não se conhece. Como iria eu explicar que ela fizera paragem a um desconhecido, no meio de uma estrada deserta, ladeada de pinheiros com uns castanheiros aqui e ali, podendo muito bem ser eu um, digamos, ladrão?

– Você num tem aí água fresca? Deram-me uma garrafa, mas está choca.

Deixamos-lhe uma garrafa, pequena, de água fresca que, por acaso, trouxéramos para o passeio. Embraio o carro e preparo-me para arrancar. A mulher pastora ali fica a olhar assustada para o mundo, a boca aberta num espanto permanente exibindo a ausência de dentes. As vestes disformes, desbotadas, o cajado a suster um vulto que parece solto de uma fraga. Atrás, uma cabra bale, como chamando-a à razão pastorícia do seu matutino feriado de início de Maio; e de todos os dias, imagino.

À falta de melhor preparação para a vida, esta, a existencial, toma conta dos seus filhos mais despreparados cobrindo-os com a candura e inocência de uma manhã de feriado, guardados pelos animais que velam o vulto exógeno num presépio do tamanho da serra do Alvão. Ainda há espaço para o são.

Arranco, por fim, deixando na estrada uma fraga em forma de corpo que vai diminuindo no meu espelho retrovisor. Vi-a colocar o cajado debaixo do braço, abrir a garrafa de água que deixámos e, depois de beberricar e verter alguma água na mão e partilhar com a cabra, na mesma sobriedade solene e inocente, reenroscar a tampa e afagar a cabeça do animal. Não há espaço na inocência para o mal.

Miguel Gomes nasceu no Porto em 1975, reside desde essa altura em Cête, freguesia do concelho de Paredes. Estudou engenharia informática e tem pautado a actividade profissional entre o ramo industrial da informática, gestão administrativa, ensino e formação. É co-autor do livro “Alma Tua” (2019, Guerra e Paz) subordinado ao Vale do Tua e da exposição de fotografia e poesia “Rota do Românico: Caminho de Encanto“, subordinada à Rota do Românico. Publicou crónicas na revista online “Bird Magazine” e, actualmente, no Correio do Porto e Canal N. Publica igualmente os seus textos no blogue “Serenismo”.

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