Sopra o vento sobre as águas do Mundo. Nos lares, onde as paredes guardam histórias em tons desgastados, os idosos habitam quartos onde ecoam pesados silêncios. O vento sopra com voz do passado, arrastando folhas secas e memórias. A chuva cai nas calhas como um relógio que não se cansa de marcar horas, numa sinfonia melancólica composta pelo tempo, o mesmo que lhes tatuou rugas, encurvou as costas e embranqueceu os cabelos.

Sentam-se à janela a olhar o infinito. O vento, a soprar sobre a água, traz fragmentos do passado: risos de crianças que já são adultas, tardes de sol em campos asfaltados, mãos que seguraram as suas com um calor que o frio da idade não apagou. A chuva lava o presente, revelando a crueza de uma rotina de medicamentos, refeições frias e visitas demasiado breves.

Os corredores são rios quietos. Os idosos não são apenas espectadores do clima, são filósofos involuntários. Sabem que o vento varreu as suas juventudes e que a chuva lavará as suas pegadas. Mas, no silêncio entre rajadas, há uma resistência tranquila de quem ainda encontra beleza no cair das gotas.

Envelhecer, afinal, talvez seja aprender a ouvir os sons mais nítidos da natureza. A chuva não tem pressa, o vento não pede perdão. Nos lares, o tempo não passa: dilata-se. A chuva não cai, escreve. Cada gota é uma letra no vidro, compondo poemas efémeros sobre o que ficou para trás: colheitas, amores, noites de lua cheia.

Há uma crítica silenciosa, mas permanente. Os lares são ilhas de esquecimento, onde a sociedade esconde o que não quer ver. O vento e a chuva, ao contrário, não discriminam. Visitam igualmente jardins floridos e muros descascados. Por isso os idosos os escutam com devoção, na natureza encontram uma testemunha que não julga, não apressa, não reduz as suas histórias a números num apontamento médico.

Por tudo isso, a chuva deixa ficar um apelo:
Que os lares não sejam depósitos de corpos à espera do fim, mas santuários onde ela e o vento, e quem os ouve, sejam tratados com a reverência que merecem. Porque cada idoso à janela é um universo inteiro prestes a ser engolido pelo silêncio.

Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do DouroDouro Inteiro;  Douro LindoA Ninfa do DouroPalavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook;  Amanhecer; Barcos de PapelCasa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.

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