Foi nos primeiros dias de um Abril distante.

A primavera mal tinha aberto os olhos, e já a atmosfera parecia outra. As árvores ensaiavam o verde, as flores surgiam como segredos revelados com azáfama e até o sol, ainda tímido, trazia um calor novo, como se também ele tivesse renascido.

À beira do rio, em frente a Cancelos, durante a faina da pesca sazonal, todos esperavam Lídia e, de certo modo, esperavam também abril.

Nessa madrugada, o rio, o Rio Douro, corria manso, como se soubesse o que iria acontecer. As águas deslizavam sem pressa, guardando um silêncio antigo, cúmplice. Havia qualquer coisa no ar que não se dizia, mas que tudo parecia entender.

Quando Lídia nasceu, o mundo não fez qualquer ruído, acolheu-a.

Dona Lurdes, com mãos sábias de tantos nascimentos, envolveu a menina com o cuidado de quem já viu o mistério muitas vezes, mas nunca o suficiente para deixar de o respeitar. Maria, exausta e luminosa, segurava a filha como quem segura o próprio sentido da vida. E Jerónimo, ali ao lado, entre o assombro e a ternura, descobria um Amor que não sabia que existia dentro de si. Já tinha três rapazes e agora nascia uma menina.

Depois, veio a água numa escudela simples de madeira, aquela concha com que se escoam os barcos, e onde trazido do Rio, repousava o primeiro banho. Água morna, viva, cheia de caminho. Talvez tenha sido o Rio o primeiro a chegar, oferecendo-se em silêncio, como quem participa sem pedir licença.

E quando a água tocou a pele de Lídia, algo aconteceu. Ninguém sabe, nem a Dona Lurdes, nem Maria, nem Jerónimo, mas houve um instante suspenso, quase invisível, em que a Menina pareceu sorrir. Um gesto breve, leve como um sopro, mas suficiente para ficar a pairar no espaço da tenda.

Talvez fosse apenas um reflexo … ou talvez não.

Talvez, naquele toque entre a água e a vida, ela tenha reconhecido algo que os outros apenas pressentiam. Talvez tenha visto, por um segundo sem tempo, aquilo que os olhos crescidos já não alcançam com facilidade:

Deus.

Não longe, não oculto, mas entre a primeira luz da madrugada e o murmúrio distante do Douro, onde havia agora mais do que uma criança. Havia um começo.

E, como todos os verdadeiros começos, trazia consigo uma presença tão plena que quase dispensava perguntas.

Talvez também houvesse, naquele instante, mais um lugar onde Deus podia habitar. Entre o sopro e o abraço, entre o espanto e o repouso, no coração recém-nascido de uma menina chamada Lídia.

Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do DouroDouro Inteiro;  Douro LindoA Ninfa do DouroPalavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook;  Amanhecer; Barcos de PapelCasa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.

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