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SÃO 23:32 e a capicua, o frio, o regresso a casa depois de vários passos pelo frio, junto com o barulho abafado do açúcar a cair na cevada traz-me a súmula de dias que, idos, de mim paridos, fazem-me sentir mais velho, acumulado no final de uma labuta que, quase nos finados, me relembra que quem apazigua não se pode dar à luta.

Distraidamente, o céu permitiu-se a um momento de apaziguamento, quando se despregava o Sol pela parede do firmamento e o céu adquiria uma tonalidade rasgada em cor-de-laranja do lado do litoral e, lá para bandas dos montes e deles detrás, já noite, uma Lua grande, cheia, requeijada, com estrelas a cintilarem.

Estes momentos, aliás, todos os momentos, mesmos os mais petrificados na eternidade passam rápido, amanhã o Sol fará o mesmo trajecto e eu, com os pés noutros solos, a solo, a cabeça, a soldo, no mesmo sítio, onde as nuvens são sorrisos claros, límpidos e puros, impolutos e eternos porque não existem, o mesmo que alguns poetas chamam de sonhos.

A vantagem das aldeias, e talvez do mundo, é que para onde quer que vá encontro pessoas conhecidas. Um amigo de infância parou na estrada quando eu caminhava, a meu lado, baixou o vidro e perguntou-me se queria boleia. Ri-me. Recusei o convite apesar do embaciado vidro fazer prever que lá dentro estaria bem mais quente, disse que estava a caminhar para a barriga, rimo-nos.

O grupo folclórico ensaiava e o frio espesso transportava por centenas de metros, no ar, ao desafio, por entre a neblina que se começava a acumular no ribeiro, os cantares a serem ensaiados para que, entre socos e viras, no dia da colecta de aplausos tudo saia um brinco.

A noite adquiriu outro colorido, na velha escola primária a banda de música solfeja e golpeia frequências de diferentes naipes, tão sublimemente ritmados que até os meus passos na noite sulcavam mar, calados.

A casa aproximava-se num instante, comigo a procurar os poucos locais com terra para caminhar, de forma a fugir àqueles pedregulhos disformes que compõe o piso e me descompõe as costas, quando o encontrei no monte, vagueando por entre os agora raros pinheiros, calcando a caruma, folhas e ramos que ficaram da última limpeza e não foram, ainda queimados.

Fui atrás dele, enterrei-me nesta manta morta, molhada, chamei-o

– Ei!

Perguntou-me se os sonhos andavam longe e eu, que já os vi vagos e difusos, menti e disse

– Não, estão perto – e voltou as costas, correndo contente, desaparecendo do meu olhar semicerrado pelo frio que começa a apertar. Felizmente estou quase a chegar.

Nem todos escolhem o caminho, há alguns que o próprio caminho escolhe, tal como os rios nesta viagem pelos empedrados da vida, vendo quem se preocupe com o barco, enquanto outros se preocupam com a maré.

SOBRE O AUTOR: Miguel Gomes nasceu no Porto em 1975, reside desde essa altura em Cête, freguesia do concelho de Paredes. Estudou engenharia informática e tem pautado a actividade profissional entre o ramo industrial da informática, gestão administrativa, ensino e formação. Apaixonado por Trás-os-Montes e Açores em geral e pela vida em particular, é co-autor das exposições de fotografia e poesia “Alma Tua“, subordinada ao vale do Tua, e “Rota do Românico: Caminho de Encanto“, subordina à Rota do Românico, publica igualmente os seus textos no blogue “Serenismo“. Publica regularmente crónicas na revista online “Bird Magazine” e começou a colaborar com o Correio do Porto em 2016.

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