E, ao ouvir-lhe a tosse seca e fina,
Eu julgo ouvir numa oficina
Tábua do seu caixão pregar!
— António Nobre
No hotel,
ouço alguém tossir convulsamente
no quarto do lado,
uma tosse sonora que preenche o espaço
e se assemelha aos extremos da agonia.
A pessoa que tosse
tem aninhada dentro de si a razão
da intransitiva tosse e essa razão
pode não ser uma coisa agradável de se ter.
Ou então é essa mesma pessoa que está
dentro da tosse
e tão agarrada às paredes da tosse
que a tosse quer expeli-la e não consegue.
in A partilha do lume, Assírio & Alvim, outubro 2025
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NOTA DO EDITOR: Gosto deste poema pela imagem inédita que transmite, uma imagem que nunca me ocorrera. Mas mais interessante é o fenómeno que acontece com os poemas bem conseguidos: antes de terminar a leitura, já sinto uma explosão mental e começo a sorrir (como foi o caso). Parece que o meu pensamento se adianta à leitura e reage antes de eu acabar de ler o poema. Nos poemas “assim-assim”, na parte final, sinto um desânimo, mesmo sem os ter lido por completo. E se pressentir que o poeta está a fingir, a forçar a rima ou a exibir-se, às vezes nem chego a ler o poema até ao fim.


















