Tem noites em que a memória me traz rostos de pessoas da minha meninice e infância. Familiares, amigos que perfumaram a minha vida, mas que já partiram deste mundo. É como se as vozes desses a quem não devemos perturbar o sono eterno, depois de cumprido o luto, viessem ao meu encontro apesar de todo o tempo que já passou sobre a suas ausências. Não quero pronunciar os seus nomes, porque é preciso que o descanso do espírito se eleve nos céus, livre e feliz. Porém, permito ao coração e à mente, divagar pelo jardim onde cresci e fui feliz com eles.

Foram meus irmãos de sangue, companheiros, os donos das perguntas que não tinham resposta, os príncipes dos recreios infinitos durante os anos e dias que viveram.

Um dia, partiram para o lugar de onde não há regresso físico, levaram-nos para longe dos nossos montes, do nosso rio, do cheiro a terra molhada, das flores do rosmaninho, do alecrim, da urze, da carqueja e dos tojos.

As suas ausências foram espaços vagos, no banco de pedra da vida. Suas despedidas não foram apenas de mim, foram de um pequeno rio que os viu nascer e crescer, das fontes, dos montes que ecoaram os seus sonhos, das flores que colhemos à beira do rio, em tempos que tinham o sabor a eternidade. Foram da própria vida que os habitava, um adeus ruminado, suave e terrível, como quem entrega à terra um segredo demasiado pesado, mas sempre com um sorriso na já palidez dos seus rostos.

Partiram pouco a pouco, e o último adeus não foi dado com palavras, mas com a noite inteira a assistir ao colapso das suas vidas, ao sol que depois beijou a terra da cova, ao vento que sussurrou nas folhas novas das árvores e nas flores que teimosamente romperam a dor, para cobri-los de beleza uma última vez.

Não partiram, transformaram-se no brilho do rio ao entardecer, na quietude dos montes, no aroma das flores que insistem em renascer. Exatamente no mesmo lugar de sempre, no chão que eles pisavam.

E agora, sempre que Novembro chega, eu sei que são eles que voltam já sem dor, à velha casa da curva, para me lembrar que alguns laços nem a própria vida consegue desatar.

E então, magoado pela sua ausência, peço ao rio e aos ventos que me levem serenamente ao lugar onde repousam em paz.

Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do DouroDouro Inteiro;  Douro LindoA Ninfa do DouroPalavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook;  Amanhecer; Barcos de PapelCasa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.

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