– Vai haver Natal, mãe?
– perguntou o Francisco a esfregar as mãos geladas e a pensar nas iguarias desse dia em que as famílias se reúnem em volta da mesa da ceia.
– Não sei, filho, os homens andam às turras uns com os outros, não há maneira de se entenderem. Mas vai haver sempre caldo e pão, meu filho, depois vem o Menino Jesus e traz o resto. Não te preocupes, Francisco! – disse a mãe com a mão direita a afagar a cabeça do miúdo.
Francisco ficou quieto, a sentir o peso suave da mão da mãe no seu cabelo. O “não sei” dela doía mais do que o frio da manhã, mas o caldo e o pão aqueciam-lhe qualquer coisa por dentro.
Nessa noite, a casa cheirou a lenha queimada e a cebola picada. Não havia peru, nem sequer bacalhau com todos. Mas havia uma panela de ferro negra a fumegar no lume, com batatas, couves e um osso de presunto com alguma carne agarrada, que a vizinha trouxera.
A mãe cantarolava baixo uma cantiga de Natal tão antiga, que parecia feita de silêncio e de memórias. Francisco observava-a, nos seus movimentos calmos, a forma como ela arrumava o pão em fatias na mesa de pinho, como se cada uma fosse um pedaço de ouro fino.
“O Menino Jesus traz o resto”, ela dissera.
Francisco não sabia bem o que isso queria dizer, mas confiava. Confiava como confiava que o sol nascia todos os dias, mesmo por detrás do nevoeiro cerrado.
De repente, ouviu-se uma batida na porta.
Não era um estrondo, era um toque hesitante, quase um pedido de licença à noite escura.
A mãe parou de cantar. Os seus olhos cruzaram-se com os do filho, num relance de surpresa e cautela. Ninguém batia àquela hora, naquela estrada esquecida por todas as festas do Mundo.
Ela limpou as mãos no avental, caminhou até à entrada e pousou os dedos no trinco.
Francisco segurou a respiração.
Do lado de fora não estava o vento.
Era um homem, com um chapéu na mão e um saco pousado aos pés.
“Boa noite”!
– disse a voz, rouca de frio e cansaço. “Perdi o último comboio para Régua. Vi a luz…”
A mãe não abriu a porta por completo, mas abriu o suficiente para a claridade que o lume fazia iluminar o rosto do desconhecido. Ele não parecia perigoso. Parecia apenas perdido.
– Não temos muito!
– disse ela, num fio de voz.
“Eu também não”!
– respondeu ele. “Só preciso de um lugar para me aquecer.”
Francisco viu a mãe hesitar por um instante que pareceu uma eternidade. Depois, afastou-se da porta:
– Entre. Há caldo.
O homem entrou, trazendo o inverno consigo nas roupas e no rosto. Sentou-se ao canto do banco, junto à lareira, e ficou em silêncio de mãos estendidas para o calor.
A mãe encheu uma tigela de barro com o caldo quente e deu-lhe, com uma fatia de pão.
Ele agradeceu com um aceno de cabeça, e comeu devagar, como se cada colher fosse uma oração.
Francisco observava-o, fascinado. Aquele homem não era o Pai Natal, nem um anjo, era apenas um homem. Mas naquela noite, naquela cozinha pobre onde não havia presentes, a sua presença parecia fazer parte de um milagre silencioso.
Antes de adormecer, já deitado no seu quarto, Francisco disse baixinho para a mãe:
– Mãe… o Menino Jesus trouxe!
Ela olhou para ele, e pela primeira vez naquela semana, sorriu.
– Trouxe, filho. Trouxe!
E do lado de fora, começou a cair uma neve fina, cobrindo a terra dura de brandura, como se o céu, finalmente, estivesse a fazer a sua parte do Natal.
Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do Douro; Douro Inteiro; Douro Lindo; A Ninfa do Douro; Palavras – Conversas com um Rio; Fado Falado – Crónicas do Facebook; Amanhecer; Barcos de Papel; Casa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.






