1.
Acordar, ser manhã de abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.
Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o que quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja.
Eugénio de Andrade in As mãos e os frutos, Quasi e Fundação Eugénio de Andrade, 2.ª edição, maio 2008, página 47
2.
Nas férias grandes
mal chegavas a casa dos avós
corrias a trepar à cerejeira
Com uma mão apoiada num ramo
e a outra a colher cerejas
saboreavas a felicidade
pela tarde inteira
(anos mais tarde)
A partir de abril
as vendedoras de cerejas
montam banca
na berma da estrada
Ao passares por elas
ainda te lembras do tempo
em que trepavas à cerejeira
mas a atenção ao trânsito
faz-te descer de imediato
à realidade
PML
3.
O LADRÃO DE CEREJAS
Uma manhãzinha, muito antes do cantar do galo,
fui acordado por um assobio e fui à janela.
Na minha cerdeira – o crepúsculo enchia o jardim –
estava sentado um moço de calças remendadas
a colher muito animado as minhas cerejas. Ao ver-me
acenou-me com a cabeça, e com ambas as mãos
colhia as cerejas dos ramos para os bolsos.
Durante muito tempo, já outra vez na cama,
inda o ouvi assobiar a sua canção alegre.
Bertolt Brecht in Poemas e canções, Livraria Almedina, 1975, página 25, tradução de Paulo Quintela


















