Na verdade ele
não te sabia montar
mas deve ter-te desejado
em segredo
por isso em sonhos conheceu
cada superfície ou detalhe teu
o brilho dos raios e dos cromados
o cheiro do óleo e da borracha
os elos negros da corrente
dia após dia
permaneceste fora de vista
de forma que nunca teve necessidade
de te colocar um cadeado ou esconder-te
porque ninguém te podia ver
e embora ele nunca
tenha de facto aprendido a andar de bicicleta
a manter o seu
peso redondo na vertical
nos dois pequenos dedos
de água escorregando
por debaixo
um dia encontrou-se bem longe
as mãos no guiador os pés sem tocar no chão
tu podias levá-lo
a qualquer lado
enfim como a chuva
através da chuva
invisível como eras
in Lamento por uma pedra e outros poemas, Assírio & Alvim, abril 2025, versões, recolha e introdução de Jorge Sousa Braga, página 15



















