Senhor, porque me deste
estas pernas tão baixas
— e ao cavalo altas?
Porque me deste, Senhor,
estas orelhas tão longas
— e ao cavalo curtas?
Porque, Senhor, me deste
esta voz tão rouca
— e ao cavalo clara?
Porque me deste, Senhor,
estes olhos mortiços
— e ao cavalo vivos?
Senhor, porque me deste
esta alma humilde
— e ao cavalo altiva?
Senhor, porque não
me fizeste cavalo
— e ao cavalo burro?
(Deus não respondeu.
Não por descortesia, naturalmente,
mas porque nada ouviu —
já que, como toda a gente sabe
e anda dito num velho provérbio,
vozes de burro não chegam ao céu.)
in Caderneta de lembranças, 1ª ed. – Lisboa, Tinta-da-China, 2021.


















