Estou à tua espera.
Deambulei toda a manhã pelos bosques sem comer.
Estou deitada à beira dum arbusto,
num caminho poeirento que leva ao cercado electrificado,
estou a arfar, é meio-dia e não encontrei uma poça de água.
Sou muito cruel quando estou com fome e embora os meus olhos
estejam transformados em fendas por causa do sol
acredita que estou pronta para atacar.
O que é que pensas de mim?
Tenho um pêlo rugoso como a África
dou destra com manchas escuras
como as planícies manchadas de arbustos de África.
Rebolo-me no chão como um feixe peludo cheio de energia
como a África se rebola nas suas águas.
Corro a trote e a galope, babo-me, sou a dona da floresta.
Arqueio os meus ombros. Como cadáveres.
Gostas do meu canto?
Quando a lua derrama aridez e frio na savana
eu sou a escrava das trevas e canto,
sobre os muros de pedra, os muros lamacentos, os lugares em ruínas
as corujas e as quedas de luar.
Fungo como um tambor roto. Eriço-me. A minha ira é de prata.
Uivo a minha canção à lua – lá vai ela.
Encontrar-me-ias lá nesses lugares ermos?
Dizem que sou um bom partido
para um leão morto. Ponho o meu focinho
nos seus flancos doirados e esquartejo-o. Ele
é a minha ceia doirada, mas os meus gostos são banais.
Tenho uma multidão de presas e uso-as.
Oh e a minha língua – gostas de mim
quando ela prende longamente da minha mandíbula
e eu estou a rir?
Não estou a rir,
mas também não estou a rosnar, somente
arfando ao sol, mostrando-te
aquilo com que agarro
carne putrefacta.
Estou à espera
de patas para deslizar,
dum coração para me apoderar,
de tendões saltitantes para caminhar com frouxidão,
da luta até à morte para ser combatida até à noite,
dum olhar polido e do rumor do sangue,
rastejo nas minhas áridas sombras
até que tu estejas pronto para mim.
O meu desejo é deixar os teus ossos limpos
ao vento.
por Edwin Morgan in Animal Animal, Assírio & Alvim, fevereiro 2005, página 105, tradução de Jorge Sousa Braga
*
A hiena ama os carros de combate abandonados no deserto,
porque as suas guarnições morrem.
Ela pode esperar.
Espera até que mil e uma tempestades de areia corroam o aço.
Chega então a sua hora.
A hiena é o animal alegórico da matemática, sabe que não pode haver resto.
O seu deus é o zero.
[1991]
por Heiner Müller in O futuro é o mal, Língua Morta, 2025, tradução e organização de Fernando Ramalho


















