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Luís Veiga Le...

Luís Veiga Leitão (1912-1987)

Natal é uma voz circular
calor de um ovo na palha dos ninhos
e música de flautas habitando
a solidão dos caminhos 

§

Natal é renascer
Homem ou pedra que se esconde
Renascer e nascer mudando
O tempo e o lugar onde 

§

A cidade equestre
No rio mergulha
Seus cascos de granito 

§

Rios – alegria móvel da Terra
abrindo bocas nos fraguedos nus. 

§

As rugas dos teus olhos
são linhas de água onde corre
o ouro que neles sobra 

§

Torre de pedra e nuvem
De pássaros de fogo
De corpo de mulher 

§

O vento é o cavalo do céu 

§

Os tesouros do sol no ouro do vinho. 

§

Verde rapariga de verdes tranças 

§

A manhã é uma concha de água azul
Onde o sol mergulha e flutua. 

§

Desceu a nuvem. E de vale em vale
A manhã ficou pálida suspensa
Árvores lama fronte de quem pensa 

§

Não

Não queremos o sangue das crianças
na boca das batalhas posto
— fauce podre de lamas desertas
Mas correndo vivo sob o rosto
numa alegria de flores abertas 

§

Dois Epigramas

O sábio das coisas simples
olhou em torno e disse:
não há profundidade
sem superfície 

§

Ser

Vir à luz em partos duros
– ser erva rasgando a pele
granítica dos muros 

§

Escritor português nascido a 27 de maio de 1915, em Moimenta da Beira, e falecido a 9 de outubro de 1987, no Brasil. Depois de ter concluído os estudos liceais, Luís Maria Leitão, que adotou mais tarde o pseudónimo Luís Veiga Leitão, desenvolveu diversas atividades profissionais: foi empregado do comércio, escriturário e delegado na propaganda de informação farmacêutica. Em 1952, sofreu a experiência da prisão política sob o regime salazarista, redigindo mentalmente na cela os poemas que viria a publicar em 1955 num livro com o título Noite de Pedra, apreendido pela censura. Percorreu o país e alguns países da Europa, inaugurando, em 1957, no Collège International de Cannes, um curso de tradução de Português. Partiu para o Brasil em 1967 e aí desempenhou várias funções, entre as quais as de redator, bibliotecário, desenhador, leitor, investigador, autor e locutor de um programa de televisão sobre a moderna poesia portuguesa, tendo sido também colaborador de publicações periódicas e conferencista.Regressando a Portugal apenas em 1977, fixou residência no Porto. Colaborou nas publicações Seara Nova, Vértice, entre outras, e co-dirigiu, com Egito Gonçalves, Daniel Filipe, Papiniano Carlos, Ernâni Melo Viana e António Rebordão Navarro, Notícias do Bloqueio, uma série de fascículos, publicados no Porto, entre 1957 e 1961, que reuniam a criação poética de diversos autores, subordinada, de acordo com o título da publicação, a um intuito comum de denúncia e combate. Conhecido sobretudo pela sua vertente de poeta militante, a obra de Veiga Leitão configura um “lirismo do vivido” (cf. MARTINHO, F. J. B., ibid., 1996) pela tendência a coincidir nela sujeito de experiência e sujeito lírico, identificação de que Noite de Pedra constitui um caso modelar. Por outro lado, a aproximação entre poesia e realidade não se esgota na postura neorrealista, mas abarcará também, ao longo da sua carreira, o gosto pela inclusão de elementos descritivos e micronarrativos na versificação de impressões de viagem.

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