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(Manuel António Pina)

(Manuel António Pina)

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O Tribunal de Polícia vai agora ser chamado a dirimir na antiga questão da arte pela arte ou da arte pela vida. E, como é de esperar, optará (muito concretamente) pela mais abstracta das duas posições, e o homem de 23 anos aprenderá à própria custa coisas essenciais: que os cisnes são para encher os olhos e não a barriga e que a beleza não se come.

Os olhos e a barriga publicado in Jornal de Notícias, 05 de outubro de 1985

8. Só que o caso pessoano levanta inesperadas dificuldades a esta política mortuária, e os coveiros literários encarregados do serviço pelo Governo vão ver-se e achar-se para destrinçar, no amontoado de omoplatas, esfenóides, escafoides, rádios, metacarpos, falanges, falanginhas, calcâneos, trapezóides, etc…, os do próprio Pessoa-ele-próprio, os de Álvaro de Campos, os de Alberto Caeiro, os de Ricardo Reis, os de Bernardo Soares e os de todas as outras pessoas de que, como se sabe, a pessoa pessoana era feita (e é agora desfeita).

Pessoa comemorado até aos ossos publicado in Jornal de Notícias, 22 de junho de 1985

7. E o Governo, com o por assim dizer cuidado que sempre põe nas coisas «culturais» (sobretudo quando se trata de ossos), mandou que se recolhessem e se guardassem nos Jerónimos.

Pessoa comemorado até aos ossos publicado in Jornal de Notícias, 22 de junho de 1985

6. O subsolo nacional (para usar a preciosa expressão do coronel Jaime Neves) anda num desassossego.

Pessoa comemorado até aos ossos publicado in Jornal de Notícias, 22 de junho de 1985

5. Jean-Luc Godard (ainda por cima um francês) fez um filme que ninguém viu, nem Abecasis; mas toda a gente sabe, Abecasis incluído, que nele é tratado com a mais francesa das faltas de respeito o assunto da Imaculada Conceição.

Je vou salue, Abecasis publicado in Jornal de Notícias, 15 de junho de 1985

4. E a proposta do CDS (as crónicas parlamentares não contam se os deputados do CDS se sentaram instintivamente quando viram a Maioria de pé, e votaram por engano contra a sua proposta…) foi aprovada pela Maioria!

História trágico-parlamentar publicado in Jornal de Notícias, 23 de fevereiro de 1982

3. Os deputados do CDS, todavia, sensíveis como são à igualdade dos cidadãos perante o Orçamento (ou há moralidade…) acharam que estavam a ser injustamente discriminados pelo Governo os portugueses que comprassem  moradias com piscina e garrafeira, que, como é sabido, custam mais de cinco mil contos.

História trágico-parlamentar publicado in Jornal de Notícias, 23 de fevereiro de 1982

2. Foi assim que, tendo alguém, parece, carregado por engano no botão da disciplina de voto (até podem ter sido as mulheres da limpeza das direções do PS e PSD), os deputados da Maioria, levantando-se instintivamente mal ouviram a campainha, aprovaram outro dia, sem saber o que estavam a votar, uma proposta da Oposição…

História trágico-parlamentar publicado in Jornal de Notícias, 23 de fevereiro de 1982

1. O país ficou, enfim, com deputados lustrosos e prestigiados (passado pouco tempo prestigiaram-se também a si próprios os outros políticos).

História trágico-parlamentar publicado in Jornal de Notícias, 23 de fevereiro de 1982

NOTA DO EDITOR: Considerando a relevância dos apartes do jornalista e poeta Manuel António Pina, repletos de humor e pertinência, decidimos ir à cata daqueles nos textos publicados pelo autor. Vão ver que certos apartes valem pela crónica toda, o que pode ser confirmado pela consulta das respetivas edições dos jornais e revistas. Tenham bom proveito!

PS: para separar os apartes colocamos um gato, por ser o animal predileto de Manuel António Pina. Esperemos que não assuste os pombos correios do Correio do Porto.

Os gatos

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos

Publicado in Como se desenha uma casa, edição Assírio & Alvim, outubro 2011, página 22.

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