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(Manuel António Pina)

(Manuel António Pina)

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30. Se me perguntam (como não me lembrei de Santo Agostinho na Rádio Universitária) não sei o que é, se não me perguntam sei.

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

29. As coisas (a barriga, as unhas, as crónicas) servem para usos que escapam a grandes reflexões e o que são furta-se quase sempre àquilo que se sabe delas.

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

28. Há muitos anos, já não me lembro porquê (de facto é uma pergunta insolente), perguntei aos imensos três anos de minha filha: «Para que serve a barriga?». E ela: «Para coçar a barriga!». Era indesmentível.

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

27. Num certo poema, o filho de O’Neill pergunta-lhe com ingénua sabedoria: «O que é o fogo?». «É o que queima!», responde o pai chegando-lhe (um pai poeta é um problema para um filho!) lume aos dedos.

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

26. Eu podia ter respondido (fosse eu chinês…) que crónica é isto (não sei bem o quê); mas a verdade é que não sei o que isto é.

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

25. O ideograma chinês que significa vermelho contém, pelo contrário, vários elementos vermelhos (o flamingo, ainda e sempre por exemplo, embora esteja a citar tudo isto de cor), e o vermelho é aquilo.

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

24. O caso deu-me para pensar (naturalmente sob a forma de crónica) acerca de definições, que é coisa com que nunca me entendi.

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

23. E ainda mal estava refeito da provação já tinha que me safar de outra dramática: «E para que servem crónicas?» (Eu que andava a pensar numa entrevista à secretária de Estado da Cultura com perguntas más como: «O que é cultura?»…).

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

22. Ricardo Pinto, cronista da Rádio Universitária, pôs-me outro dia, aos microfones (um sítio perigosíssimo!), uma questão de todo improvável: «O que é isso de crónicas?».

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

21. Nesta altura converter-se-ia a qualquer religião, assinaria letras e baixo-assinados em branco, prometeria qualquer coisa (até ler o Correio da Manhã!), em troca de um bom assunto, se não fosse pedir muito já pronto para ir para a fotocomposição!

New Jersey fora de horas in Jornal de Notícias, 9 de abril de 1988

20. Do lado, como bombeiros o mais voluntários possível, acorrem amigos: ouviste o que disse o Cavaco sobre a popularidade do Governo?; e sobre a greve geral?; ó Pina, escreve sobre o pãozinho quente e o leitinho de Cavaco no dia da greve geral; toma a lista dos enganos de Cavaco, ele que nunca se engana e raramente tem dúvidas (ou que nunca tem dúvidas e raramente se engana?); e a Leonor Beleza?, escreve sobre a Leonor Beleza; olha: conta aquela do polícia sinaleiro de Setúbal…

New Jersey fora de horas in Jornal de Notícias, 9 de abril de 1988

19. Perdemos Fernando Pessoa irremediavelmente; conseguimos salvar Mário de Sá-Carneiro, Camilo Pessanha e Cesário (os vivos, como Eugénio, estão por natureza a salvo dos comemorativos, que fogem da vida como o diabo da cruz), e o próprio arquipélago pessoano tem ainda recantos e alturas onde só se pode chegar armado de um amor proibido aos publicitários e aos donos dos partidos.

Reivindicação da poesia in Jornal de Notícias, 19 de março de 1988

18. A palavra «cultura» enche as bocas  (e é de crer que algumas bolsas também) e suspeita-se por esses lados que poesia, o que quer que isso seja, tenha algo a ver com «cultura».

Reivindicação da poesia in Jornal de Notícias, 19 de março de 1988

17. Ao todo, e descontados os que lêem por obrigação, em penosas autópsias nas aulas de Linguística, não serão mais de duzentos ou trezentos os leitores de livros de poesia, e outros tantos (tudo fica, pois, entre nós, entre nós, não é, O’Neill?) os que inconfessadamente escrevem poesia.

Reivindicação da poesia in Jornal de Notícias, 19 de março de 1988

16. Não transformámos o mundo nem mudámos a vida; a vida é que nos mudou a todos (o «Che» morreu na Bolívia, baleado por um «ranger» anónimo; José Afonso morreu de doença; e o Artur Queirós ganhou o Prémio Ibéria de Jornalismo).

1988 in Jornal de Notícias, 5 de março de 1988

15. Continuam (continuamos) tão razoáveis como dantes; só que já não exigimos o impossível, mas tão-só deixarmos de ser pobres e, se não for pedir muito, sermos ricos, ou podermos ostentar «look» em conformidade; o BMW (ou, ao menos, o Rover), o American Express (ou, ao menos, o Visa), a casa de praia (nem que seja em «time sharing»), o fato Pestana & Brito (na pior das hipóteses da Alfaiataria Ayres), as acções da SONAE (ou, vá lá, da PROADEC).

1988 in Jornal de Notícias, 5 de março de 1988

14. Há 20 anos éramos esquerdistas, maoístas, trotskistas, guevaristas, anarquitas; hoje somos todos neo-liberais e post-mordenos (enfim, quase todos…).

1988 in Jornal de Notícias, 5 de março de 1988

13. «Noblesse oblige» e a paz e a gramática das famílias (Nação é com maiúscula, Governo e Imprensa com as maiores maiúsculas possíveis) também «obligent».

Breve tratado de saber viver para as novas gerações de jornalistas in Jornal de Notícias, 12 de dezembro de 1987

12. O contribuinte A (que é como quem diz você, leitor, ou este seu criado, ou qualquer um de nós) perdeu o tempo, a paciência e alguns contos de réis na Repartição de Finanças B, enquanto os funcionários discutiam o golo de Madjer em vez de lhe darem atenção, ou envolveu-se em controvérsia com o notário Sicrano, que lhe não reconheceu o atestado porque o papel de 25 de linhas era azul bebé e não azul celeste e tinha margens mais estreitas do que as devidas?

Não há portugueses maus publicado in Jornal de Notícias, 21 de novembro de 1987

11. A culpa é dos serviços de Saúde, não do médico nem da enfermeira (quando muito é dos serviços de Saúde mais do jornal que dá a notícia…).

Não há portugueses maus publicado in Jornal de Notícias, 21 de novembro de 1987

10. O geral tem larguíssimas costas: as culpas dos males nacionais são todas da sociedade, do sistema, do modelo económico, do Estado, do Governo (nunca do ministro Fulano ou do ministro Sicrano, mas do Governo, quando não dessa misteriosa entidade que é o Executivo, tudo seres do mais geral que, quanto a generalidades, se pode arranjar), ou ainda do regime, da organização dos serviços, da burocracia e de outras abstracções por aí adiante, até ao fado, que é a mais geral e mais portuguesa forma de fazer queixas sem atirar com as culpas para ninguém nem para coisa nenhuma.

Não há portugueses maus publicado in Jornal de Notícias, 21 de novembro de 1987

Em Portugal o concreto fá-las e o geral é que (em geral) as pagas.

Não há portugueses maus publicado in Jornal de Notícias, 21 de novembro de 1987

9. O Tribunal de Polícia vai agora ser chamado a dirimir na antiga questão da arte pela arte ou da arte pela vida. E, como é de esperar, optará (muito concretamente) pela mais abstracta das duas posições, e o homem de 23 anos aprenderá à própria custa coisas essenciais: que os cisnes são para encher os olhos e não a barriga e que a beleza não se come.

Os olhos e a barriga publicado in Jornal de Notícias, 05 de outubro de 1985

8. Só que o caso pessoano levanta inesperadas dificuldades a esta política mortuária, e os coveiros literários encarregados do serviço pelo Governo vão ver-se e achar-se para destrinçar, no amontoado de omoplatas, esfenóides, escafoides, rádios, metacarpos, falanges, falanginhas, calcâneos, trapezóides, etc…, os do próprio Pessoa-ele-próprio, os de Álvaro de Campos, os de Alberto Caeiro, os de Ricardo Reis, os de Bernardo Soares e os de todas as outras pessoas de que, como se sabe, a pessoa pessoana era feita (e é agora desfeita).

Pessoa comemorado até aos ossos publicado in Jornal de Notícias, 22 de junho de 1985

7. E o Governo, com o por assim dizer cuidado que sempre põe nas coisas «culturais» (sobretudo quando se trata de ossos), mandou que se recolhessem e se guardassem nos Jerónimos.

Pessoa comemorado até aos ossos publicado in Jornal de Notícias, 22 de junho de 1985

6. O subsolo nacional (para usar a preciosa expressão do coronel Jaime Neves) anda num desassossego.

Pessoa comemorado até aos ossos publicado in Jornal de Notícias, 22 de junho de 1985

5. Jean-Luc Godard (ainda por cima um francês) fez um filme que ninguém viu, nem Abecasis; mas toda a gente sabe, Abecasis incluído, que nele é tratado com a mais francesa das faltas de respeito o assunto da Imaculada Conceição.

Je vou salue, Abecasis publicado in Jornal de Notícias, 15 de junho de 1985

4. E a proposta do CDS (as crónicas parlamentares não contam se os deputados do CDS se sentaram instintivamente quando viram a Maioria de pé, e votaram por engano contra a sua proposta…) foi aprovada pela Maioria!

História trágico-parlamentar publicado in Jornal de Notícias, 23 de fevereiro de 1982

3. Os deputados do CDS, todavia, sensíveis como são à igualdade dos cidadãos perante o Orçamento (ou há moralidade…) acharam que estavam a ser injustamente discriminados pelo Governo os portugueses que comprassem  moradias com piscina e garrafeira, que, como é sabido, custam mais de cinco mil contos.

História trágico-parlamentar publicado in Jornal de Notícias, 23 de fevereiro de 1982

2. Foi assim que, tendo alguém, parece, carregado por engano no botão da disciplina de voto (até podem ter sido as mulheres da limpeza das direções do PS e PSD), os deputados da Maioria, levantando-se instintivamente mal ouviram a campainha, aprovaram outro dia, sem saber o que estavam a votar, uma proposta da Oposição…

História trágico-parlamentar publicado in Jornal de Notícias, 23 de fevereiro de 1982

1. O país ficou, enfim, com deputados lustrosos e prestigiados (passado pouco tempo prestigiaram-se também a si próprios os outros políticos).

História trágico-parlamentar publicado in Jornal de Notícias, 23 de fevereiro de 1982

NOTA DO EDITOR: Considerando a relevância dos apartes do jornalista e poeta Manuel António Pina, repletos de humor e pertinência, decidimos ir à cata daqueles nos textos publicados pelo autor. Vão ver que certos apartes valem pela crónica toda, o que pode ser confirmado pela consulta das respetivas edições dos jornais e revistas. Tenham bom proveito!

PS: para separar os apartes colocamos um gato, por ser o animal predileto de Manuel António Pina. Esperemos que não assuste os pombos correios do Correio do Porto.

Os gatos

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos

Publicado in Como se desenha uma casa, edição Assírio & Alvim, outubro 2011, página 22.
Ilustração de Pedro Vieira

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