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(Manuel António Pina)

(Manuel António Pina)

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75. contrariamente aos cidadãos saudáveis (gente associal que se prepara para se arrastar por aí inutilmente até aos 100 anos), (os fumadores) só vivem meia dúzia de anos à custa da Segurança Social.

O cronista adverte que esta crónica pode prejudicar a saúde in Jornal de Notícias de 6 de março de 1991

74. Onde é que eu ia? (parei para tossir e perdi o fio à meada da crónica…). Ah os imposto!

O cronista adverte que esta crónica pode prejudicar a saúde in Jornal de Notícias de 6 de março de 1991

73. No meu caso, por exemplo (e eu sou um português desobediente comum, que entrega o IRS fora de prazo e não paga a taxa de TV), o «big brother» tem-me ajudado decisivamente a vencer as crises de confiança no tabaco que, de quando em quando, me assaltam…

O cronista adverte que esta crónica pode prejudicar a saúde in Jornal de Notícias de 6 de março de 1991

72. Reinaldo Ferreira descreve nas suas Memórias de um ex-morfinómano a forma como o poeta C.P. se viciou no ópio. Conforme me lembro, a coisa foi mais ou menos assim: Camilo Pessanha (está-se mesmo a ver quem as prudentes iniciais fingem que escondem) nunca tinha sentido qualquer curiosidade pelo ópio;

O cronista adverte que esta crónica pode prejudicar a saúde in Jornal de Notícias de 6 de março de 1991

71. Pablo Neruda que, além de chileno, era poeta e comunista (uma desgraça nunca vem só),…

Para que não se diga que não falei de flores in Jornal de Notícias de 13 de fevereiro de 1991

70. …e requerido de novo os que entretanto perderam a singular qualidade portuguesa que é a validade (que faz com que um documento a dizer que se nasceu só valha durante alguns meses e, depois, haja que o substituir por outro a dizer exactamente o mesmo, isto é, que se nasceu);

Para que não se diga que não falei de flores in Jornal de Notícias de 13 de fevereiro de 1991

69. quando a evidência é que (pelo menos em geografias menos fadistas) mais vale ser rico e com saúde do que pobre e doente…

Somos uns queixinhas in Jornal de Notícias de 6 de fevereiro de 1991

68. Nós (e certamente com muitos menos motivos do que os irlandeses) exibimos chagas e as infelicidades como se fossem medalhas.

Somos uns queixinhas in Jornal de Notícias de 6 de fevereiro de 1991

67. … enquanto as crianças, no banco de trás, para aproveitar o tempo (completamente irrecuperáveis, as crianças, incapazes de não fazer absolutamente coisa nenhuma) dormem.

Uma crónica de domingo in Marie Claire, maio de 1990

66. (Vai o cronista a meio da prosa, conduzindo avulsamente a crónica por questões e considerações de duvidosa importância, como é próprio do tema, e descobre a certa altura que a crónica vai a guiar sozinha e que, como se já soubesse o caminho, se desvia insidiosamente da ternura – sentimento ocioso e dominical – para a ironia. Meta-lhe, pois, à crónica, travões o cronista e faça-a voltar à mão. A crónica, hoje que é domingo, e que é Primavera, que se escreva vagamente sozinha, mas não tão sozinha assim, pois que o cronista também não é, como o outro não era, romancista russo aplicado…).

Uma crónica de domingo in Marie Claire, maio de 1990

65. (Estou a lembrar-me de um secretário de Estado da Cultura, Vasco Pulido Valente, que, aqui há uns anos, justificava a pobreza dos subsídios de teatro com os misteriosos poderes da pobreza para gerar criatividade…)

Uma crónica de domingo in Marie Claire, maio de 1990

64. Invejam a sua impunidade fiscal e a sua ligeireza de pernas (e, às vezes, de mãos) e açulam contra eles todas as polícias.

Perto do coração in Marie Claire, janeiro 1990

63. A cidade está cheia destes pequenos empresários de elevado potencial e comprovada iniciativa, sobrevivendo (ó suave milagre!) sem fundos da CEE nem apoios do Governo, gente que não tem notícias nas revistas mundanas nem voz no Parlamento e que, anonimamente, pulsa imenso sangue da vida quotidiana comum.

Perto do coração in Marie Claire, janeiro 1990

62. Deita-se em cima da mesa, indiferente e absoluto e, num gesto que nem isso é, um gesto (e muito menos largo, ou liberal, ou, como dizia o outro, moscovita), deixa tudo para nós, os homens, os assuntos e a falta deles.

O gato não in Marie Claire, setembro de 1989

61. Os cinemas passam filmes inimagináveis (onde é que os exibidores vão desencantá-los, aos monos de Agosto e Setembro?);

O gato não in Marie Claire, setembro de 1989

60. Não há cronista que não se encontre um dia diante deste problema (se é que é um problema): não ter nada parecido com um assunto e ter a crónica à perna.

O gato não in Marie Claire, setembro de 1989

59. (E nunca consegui deixar de sair de casa, que diabo ficaria eu a fazer em casa numa noite de S. João?).

A crónica na rusga in Marie Claire, junho de 1989

58. Meto um alho-porro na mão da crónica e aí vamos nós, porta fora, desajeitados e ridículos (e se passa alguém conhecido?, e sem alho?…) até que a vertigem e o aturdimento da noite anónima nos engolem também, passe quem passar.

A crónica na rusga in Marie Claire, junho de 1989

57. Uma Nação onde é difícil provar seja o que for e onde os espertos sabem como ninguém que assim é (e os responsáveis do Fundo Social Europeu que o digam…).

A nação ao espelho in Jornal de Notícias de 20 de agosto de 1988

56. Como é que o leitor vai provar que o guarda-chuva dentro da sua barriga é do cirurgião e não do anestesista? (Você até estava a dormir…).

A nação ao espelho in Jornal de Notícias de 20 de agosto de 1988

55. O mecânico operou o seu automóvel a qualquer apêndice e deixou lá dentro a sua (dele) incompetência? O mal é seu (e, no pior dos casos, do automóvel).

A nação ao espelho in Jornal de Notícias de 20 de agosto de 1988

54. Porque, pouco dados a minudências jurídicas e pouco versados em direito probatório, os cidadãos comuns (se é, que neste, país, há cidadãos comuns)…

A nação ao espelho in Jornal de Notícias de 20 de agosto de 1988

53. Lá na sua (e o que ele sua – e soa – diante das câmaras embasbacadas da «sua» televisão!), Jardim é, como se diz no Porto, o «maior da ilha dele».

Crónica de uma crónica adiada in Jornal de Notícias de 13 de agosto de 1988

52. Os jornais e a TV programam-no nos blocos informativos e não recreativos, e por isso ninguém se terá lembrado ainda de Jardim para o «óscar» do melhor (ou, pelo menos, do mais evidente) actor secundário do circo democrático!

Crónica de uma crónica adiada in Jornal de Notícias de 13 de agosto de 1988

51. Jardim atira-se ao «Continente» (o hipermercado de onde, como os contribuintes sabem, gasta sem pagar desde que subiu ao trono) como um leão esfomeado a um cristão.

Crónica de uma crónica adiada in Jornal de Notícias de 13 de agosto de 1988

50. Alberto João Jardim é certamente a mais delirante invenção da chamada jovem democracia portuguesa. Só por causa dele valeu a pena o 25 de Abril (sem querer ser injusto para Ângelo Correia e para Maldonado Gonelha!).

Crónica de uma crónica adiada in Jornal de Notícias de 13 de agosto de 1988

49. De qualquer modo, já avançou, a crónica, alguma coisa, mesmo tendo gasto quatro parágrafos nisso. Já conseguiu meter Jardim na prosa e, com um pouco de sorte, talvez até já tenha resolvido a questão do «como começar». (O problema é que restam ainda o «como acabar» e o «como mear»!).

Crónica de uma crónica adiada in Jornal de Notícias de 13 de agosto de 1988

48. (O gosto pelas subtilezas há-de ser o fim delas, destas crónicas, num mundo como o nosso, e sobretudo o deles, feito de grossa matéria e de não menos grossas evidências…)

Crónica de uma crónica adiada in Jornal de Notícias de 13 de agosto de 1988

47. Todos queriam ir também à loja (eu é que lhes não disse onde era!) onde os portugueses eram very welcome para terem saké e jarrinha de porcelana de borla…

Louvação de Oliveira de Figueira in Jornal de Notícias de 23 de julho de 1988

46. E, num arroubo de reconhecimento e cordialidade (nunca um português lhe tinha entrado pela loja, e até a família fora chamara lá dentro para me ver!) ofereceu-me tudo o que eu lhe queria comprar e embrulhou-mo num chamejante papel de seda amarelo.

Louvação de Oliveira de Figueira in Jornal de Notícias de 23 de julho de 1988

45. (O que prova que Hergé sabia mais de nós e da nossa errante natureza do que poderia fazer supor o facto de, para ele ou, ao menos, para a sua obra, não haver portugueses maus).

Louvação de Oliveira de Figueira in Jornal de Notícias de 23 de julho de 1988

44. O mesmo, por exemplo, não podem fazer os gregos (o mais tenebroso inimigo de Tintin é um grego, o ricalhaço Rastopopoulos) nem os ingleses, nem os americanos…

Louvação de Oliveira de Figueira in Jornal de Notícias de 23 de julho de 1988

43. Em pleno quinto centenário dos Descobrimentos, talvez seja a altura de trazer ao lume (brando, brando…) da crónica o inesquecível señor (con ñ) Oliveira de Figueira.

Louvação de Oliveira de Figueira in Jornal de Notícias de 23 de julho de 1988

42. Já aos políticos (se calhar com a excepção de António Ferro) ninguém, nem a poesia de Pessoa, deve nada.

Os salteadores da arca perdida in Jornal de Notícias, 18 de junho de 1988

41. estou a lembrar-me de João Gaspar Simões, de Maria Aliete Galhoz, de Teresa Rita Lopes, de Eduardo Lourenço, de Agostinho da Silva, de Dalila Pereira da Rocha e de muitos outros (mesmo de alguns dos militantes da terrível tropa dos assistentes universitários que se lançaram ao assalto da arca perdida).

Os salteadores da arca perdida in Jornal de Notícias, 18 de junho de 1988

40. Ao contrário dos poetas, a poesia, felizmente, não serve para nada. A não ser aos poetas (aos poetas que escrevem poesia e aos poetas que lêem poesia). Tenebrosa e absoluta, a poesia furta-se (os poetas nem sempre…) aos dedos grossos do poder, mesmo quando se verte em cantorias de louvor e exaltação.

Os salteadores da arca perdida in Jornal de Notícias, 18 de junho de 1988

39. A estranha sedução e reverência que a poesia, a arte e, em geral, a chamada cultura despertam nos que mandam e nos que têm dinheiro (qualidades que, na maior parte dos casos, andam juntas…)

Os salteadores da arca perdida in Jornal de Notícias, 18 de junho de 1988

38. Não é fácil ser criança. (Para dizer a verdade, ser adulto, o que quer que isso signifique, também não é…).

Alguns jornais velhos in Jornal de Notícias, 28 de maio de 1988

37. (Segundo se lê esta semana no Tempo, o entusiasmo ortodoxo leva-o já a reclamar purgas dentro do próprio PSD!).

Louvor e simplificação de Pacheco Pereira in Jornal de Notícias, 21 de maio de 1988

36. trata-se, todavia, mais do que de um «aggiornamento», de um (como é que se diz?) «percurso político».

Louvor e simplificação de Pacheco Pereira in Jornal de Notícias, 21 de maio de 1988

35. E tendo o estalinismo e a intolerância mudado de sítio, mesmo tendo-se (o estalinismo e a intolerância) tornado «softs» e descafeinados pelo caminho, que poderia Pacheco Pereira fazer senão, correr atrás deles?

Louvor e simplificação de Pacheco Pereira in Jornal de Notícias, 21 de maio de 1988

34. … Pacheco Pereira terá justamente granjeado estatuto de autêntica metáfora nacional (ainda ninguém se lembrou de um Grande Prémio Nacional de Arrependimento, mas não menosprezemos a imaginação premiante portuguesa…).

Louvor e simplificação de Pacheco Pereira in Jornal de Notícias, 21 de maio de 1988

33. Pode estranhar-se (até eu estranho) a por assim dizer insistência com que estas crónicas perdem tempo e espaço com Pacheco Pereira, o fogoso deputado liberal e de Esquerda e social-democrata e independente.

Louvor e simplificação de Pacheco Pereira in Jornal de Notícias, 21 de maio de 1988

32. Na verdade não quero que isto – não sei o quê – sirva para nada em especial (acho que consegui dizer uma coisa do género na problemática entrevista da Rádio).

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

31. Vou falando da chuva e do bom tempo, da memória, das minhas circunstâncias e das minhas perplexidades, dos trabalhos (sobretudo dos trabalhos forçados)…

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

30. Se me perguntam (como não me lembrei de Santo Agostinho na Rádio Universitária) não sei o que é, se não me perguntam sei.

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

29. As coisas (a barriga, as unhas, as crónicas) servem para usos que escapam a grandes reflexões e o que são furta-se quase sempre àquilo que se sabe delas.

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

28. Há muitos anos, já não me lembro porquê (de facto é uma pergunta insolente), perguntei aos imensos três anos de minha filha: «Para que serve a barriga?». E ela: «Para coçar a barriga!». Era indesmentível.

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

27. Num certo poema, o filho de O’Neill pergunta-lhe com ingénua sabedoria: «O que é o fogo?». «É o que queima!», responde o pai chegando-lhe (um pai poeta é um problema para um filho!) lume aos dedos.

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

26. Eu podia ter respondido (fosse eu chinês…) que crónica é isto (não sei bem o quê); mas a verdade é que não sei o que isto é.

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

25. O ideograma chinês que significa vermelho contém, pelo contrário, vários elementos vermelhos (o flamingo, ainda e sempre por exemplo, embora esteja a citar tudo isto de cor), e o vermelho é aquilo.

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

24. O caso deu-me para pensar (naturalmente sob a forma de crónica) acerca de definições, que é coisa com que nunca me entendi.

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

23. E ainda mal estava refeito da provação já tinha que me safar de outra dramática: «E para que servem crónicas?» (Eu que andava a pensar numa entrevista à secretária de Estado da Cultura com perguntas más como: «O que é cultura?»…).

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

22. Ricardo Pinto, cronista da Rádio Universitária, pôs-me outro dia, aos microfones (um sítio perigosíssimo!), uma questão de todo improvável: «O que é isso de crónicas?».

Chamo-lhes crónicas porque não sei o nome disto in Jornal de Notícias, 23 de abril de 1988

21. Nesta altura converter-se-ia a qualquer religião, assinaria letras e baixo-assinados em branco, prometeria qualquer coisa (até ler o Correio da Manhã!), em troca de um bom assunto, se não fosse pedir muito já pronto para ir para a fotocomposição!

New Jersey fora de horas in Jornal de Notícias, 9 de abril de 1988

20. Do lado, como bombeiros o mais voluntários possível, acorrem amigos: ouviste o que disse o Cavaco sobre a popularidade do Governo?; e sobre a greve geral?; ó Pina, escreve sobre o pãozinho quente e o leitinho de Cavaco no dia da greve geral; toma a lista dos enganos de Cavaco, ele que nunca se engana e raramente tem dúvidas (ou que nunca tem dúvidas e raramente se engana?); e a Leonor Beleza?, escreve sobre a Leonor Beleza; olha: conta aquela do polícia sinaleiro de Setúbal…

New Jersey fora de horas in Jornal de Notícias, 9 de abril de 1988

19. Perdemos Fernando Pessoa irremediavelmente; conseguimos salvar Mário de Sá-Carneiro, Camilo Pessanha e Cesário (os vivos, como Eugénio, estão por natureza a salvo dos comemorativos, que fogem da vida como o diabo da cruz), e o próprio arquipélago pessoano tem ainda recantos e alturas onde só se pode chegar armado de um amor proibido aos publicitários e aos donos dos partidos.

Reivindicação da poesia in Jornal de Notícias, 19 de março de 1988

18. A palavra «cultura» enche as bocas  (e é de crer que algumas bolsas também) e suspeita-se por esses lados que poesia, o que quer que isso seja, tenha algo a ver com «cultura».

Reivindicação da poesia in Jornal de Notícias, 19 de março de 1988

17. Ao todo, e descontados os que lêem por obrigação, em penosas autópsias nas aulas de Linguística, não serão mais de duzentos ou trezentos os leitores de livros de poesia, e outros tantos (tudo fica, pois, entre nós, entre nós, não é, O’Neill?) os que inconfessadamente escrevem poesia.

Reivindicação da poesia in Jornal de Notícias, 19 de março de 1988

16. Não transformámos o mundo nem mudámos a vida; a vida é que nos mudou a todos (o «Che» morreu na Bolívia, baleado por um «ranger» anónimo; José Afonso morreu de doença; e o Artur Queirós ganhou o Prémio Ibéria de Jornalismo).

1988 in Jornal de Notícias, 5 de março de 1988

15. Continuam (continuamos) tão razoáveis como dantes; só que já não exigimos o impossível, mas tão-só deixarmos de ser pobres e, se não for pedir muito, sermos ricos, ou podermos ostentar «look» em conformidade; o BMW (ou, ao menos, o Rover), o American Express (ou, ao menos, o Visa), a casa de praia (nem que seja em «time sharing»), o fato Pestana & Brito (na pior das hipóteses da Alfaiataria Ayres), as acções da SONAE (ou, vá lá, da PROADEC).

1988 in Jornal de Notícias, 5 de março de 1988

14. Há 20 anos éramos esquerdistas, maoístas, trotskistas, guevaristas, anarquitas; hoje somos todos neo-liberais e post-mordenos (enfim, quase todos…).

1988 in Jornal de Notícias, 5 de março de 1988

13. «Noblesse oblige» e a paz e a gramática das famílias (Nação é com maiúscula, Governo e Imprensa com as maiores maiúsculas possíveis) também «obligent».

Breve tratado de saber viver para as novas gerações de jornalistas in Jornal de Notícias, 12 de dezembro de 1987

12. O contribuinte A (que é como quem diz você, leitor, ou este seu criado, ou qualquer um de nós) perdeu o tempo, a paciência e alguns contos de réis na Repartição de Finanças B, enquanto os funcionários discutiam o golo de Madjer em vez de lhe darem atenção, ou envolveu-se em controvérsia com o notário Sicrano, que lhe não reconheceu o atestado porque o papel de 25 de linhas era azul bebé e não azul celeste e tinha margens mais estreitas do que as devidas?

Não há portugueses maus publicado in Jornal de Notícias, 21 de novembro de 1987

11. A culpa é dos serviços de Saúde, não do médico nem da enfermeira (quando muito é dos serviços de Saúde mais do jornal que dá a notícia…).

Não há portugueses maus publicado in Jornal de Notícias, 21 de novembro de 1987

10. O geral tem larguíssimas costas: as culpas dos males nacionais são todas da sociedade, do sistema, do modelo económico, do Estado, do Governo (nunca do ministro Fulano ou do ministro Sicrano, mas do Governo, quando não dessa misteriosa entidade que é o Executivo, tudo seres do mais geral que, quanto a generalidades, se pode arranjar), ou ainda do regime, da organização dos serviços, da burocracia e de outras abstracções por aí adiante, até ao fado, que é a mais geral e mais portuguesa forma de fazer queixas sem atirar com as culpas para ninguém nem para coisa nenhuma.

Não há portugueses maus publicado in Jornal de Notícias, 21 de novembro de 1987

Em Portugal o concreto fá-las e o geral é que (em geral) as pagas.

Não há portugueses maus publicado in Jornal de Notícias, 21 de novembro de 1987

9. O Tribunal de Polícia vai agora ser chamado a dirimir na antiga questão da arte pela arte ou da arte pela vida. E, como é de esperar, optará (muito concretamente) pela mais abstracta das duas posições, e o homem de 23 anos aprenderá à própria custa coisas essenciais: que os cisnes são para encher os olhos e não a barriga e que a beleza não se come.

Os olhos e a barriga publicado in Jornal de Notícias, 05 de outubro de 1985

8. Só que o caso pessoano levanta inesperadas dificuldades a esta política mortuária, e os coveiros literários encarregados do serviço pelo Governo vão ver-se e achar-se para destrinçar, no amontoado de omoplatas, esfenóides, escafoides, rádios, metacarpos, falanges, falanginhas, calcâneos, trapezóides, etc…, os do próprio Pessoa-ele-próprio, os de Álvaro de Campos, os de Alberto Caeiro, os de Ricardo Reis, os de Bernardo Soares e os de todas as outras pessoas de que, como se sabe, a pessoa pessoana era feita (e é agora desfeita).

Pessoa comemorado até aos ossos publicado in Jornal de Notícias, 22 de junho de 1985

7. E o Governo, com o por assim dizer cuidado que sempre põe nas coisas «culturais» (sobretudo quando se trata de ossos), mandou que se recolhessem e se guardassem nos Jerónimos.

Pessoa comemorado até aos ossos publicado in Jornal de Notícias, 22 de junho de 1985

6. O subsolo nacional (para usar a preciosa expressão do coronel Jaime Neves) anda num desassossego.

Pessoa comemorado até aos ossos publicado in Jornal de Notícias, 22 de junho de 1985

5. Jean-Luc Godard (ainda por cima um francês) fez um filme que ninguém viu, nem Abecasis; mas toda a gente sabe, Abecasis incluído, que nele é tratado com a mais francesa das faltas de respeito o assunto da Imaculada Conceição.

Je vou salue, Abecasis publicado in Jornal de Notícias, 15 de junho de 1985

4. E a proposta do CDS (as crónicas parlamentares não contam se os deputados do CDS se sentaram instintivamente quando viram a Maioria de pé, e votaram por engano contra a sua proposta…) foi aprovada pela Maioria!

História trágico-parlamentar publicado in Jornal de Notícias, 23 de fevereiro de 1982

3. Os deputados do CDS, todavia, sensíveis como são à igualdade dos cidadãos perante o Orçamento (ou há moralidade…) acharam que estavam a ser injustamente discriminados pelo Governo os portugueses que comprassem  moradias com piscina e garrafeira, que, como é sabido, custam mais de cinco mil contos.

História trágico-parlamentar publicado in Jornal de Notícias, 23 de fevereiro de 1982

2. Foi assim que, tendo alguém, parece, carregado por engano no botão da disciplina de voto (até podem ter sido as mulheres da limpeza das direções do PS e PSD), os deputados da Maioria, levantando-se instintivamente mal ouviram a campainha, aprovaram outro dia, sem saber o que estavam a votar, uma proposta da Oposição…

História trágico-parlamentar publicado in Jornal de Notícias, 23 de fevereiro de 1982

1. O país ficou, enfim, com deputados lustrosos e prestigiados (passado pouco tempo prestigiaram-se também a si próprios os outros políticos).

História trágico-parlamentar publicado in Jornal de Notícias, 23 de fevereiro de 1982

NOTA DO EDITOR: Considerando a relevância dos apartes do jornalista e poeta Manuel António Pina, repletos de humor e pertinência, decidimos ir à cata daqueles nos textos publicados pelo autor. Vão ver que certos apartes valem pela crónica toda, o que pode ser confirmado pela consulta das respetivas edições dos jornais e revistas. Tenham bom proveito!

PS: para separar os apartes colocamos um gato, por ser o animal predileto de Manuel António Pina. Esperemos que não assuste os pombos correios do Correio do Porto.

Os gatos

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos

Publicado in Como se desenha uma casa, edição Assírio & Alvim, outubro 2011, página 22.
Ilustração de Pedro Vieira

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