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João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

João Cabral de Melo Neto (1920-1999)

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Quando por algum motivo
a roda de água se rompe,
outra máquina se escuta:
agora, de dentro do homem;

outra máquina de dentro,
imediata, a reveza,
soando nas veias, no fundo
de poça no corpo, imersa.

Então se sente que o som
da máquina, ora interior,
nada possui de passivo,
de roda de água: é motor;

se descobre nele o afogo
de quem, ao fazer, se esforça,
e que ele, dentro, afinal,
revela vontade própria,

incapaz, agora, dentro,
de ainda disfarçar que nasce
daquela bomba motor
(coração, noutra linguagem)

que, sem nenhum coração,
vive a esgotar, gota a gota,
o que o homem, de reserva,
possa ter na íntima poça.

in “Serial”, in Poesia Completa – 1940-1980, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986, pp. 197-198.

5.
O alíseo ao chegar ao Nordeste
baixa em coqueirais, canaviais;
causando as folhas laminadas,
se afia em peixeiras, punhais.

4.
No telefone do poeta
desceram vozes sem cabeça
desceu um susto desceu o medo
da morte de neve. 

3.
A bola não é a inimiga
como o touro, numa corrida; 

2.
O jornal dobrado
sobre a mesa simples;
a toalha limpa,
a louça branca 

1.
Sobre o lado ímpar da memória
o anjo da guarda esqueceu
perguntas que não se respondem. 

Nascido no Recife a 6 de janeiro de 1920, João Cabral de Melo Neto viria a falecer a 9 de outubro de 1999 no Rio de Janeiro. A partir de 1945, dedicou-se profissionalmente à diplomacia, exercendo cargos em cidades como Barcelona ou Dacar. Em 1984, ocupou o lugar de cônsul geral no Porto. Regressou ao Rio de Janeiro em 1987, aposentando-se em 1990. Da sua obra poética, destacam-se obras como “Pedra do Sono” (1942), “A escola das facas” (1980) e, incontornavelmente, “Morte e vida severina” (1955), auto ao gosto tradicional protagonizado por um retirante, Severino, cuja caminhada representa o sofrimento e a miséria do povo do Nordeste. Em 1968, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras e recebeu, entre outros, o Prémio José de Anchieta, de poesia, em 1954.

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