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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

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1.
Dizem?

Dizem?
Esquecem.
Não dizem?

Disseram.
Fazem?
Fatal.

Não fazem?
Igual.
Porquê

Esperar?
— Tudo é
Sonhar.

2.
A água da chuva desce a ladeira

A água da chuva desce a ladeira.
É uma água ansiosa.
Faz lagos e rios pequenos, e cheira
A terra a ditosa.

Há muito que contar a dor e o pranto
De o amor os não querer…
Mas eu, que também o não tenho, o que canto
É uma coisa qualquer.

3.
A morte é a curva da estrada

A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.

A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.

4.
É boa! Se fossem malmequeres!

É boa! Se fossem malmequeres!
E é uma papoula
Sozinha, com esse ar de «queres?»
Veludo da natureza tola.

Coitada!
Por ela
Saí da marcha pela estrada.
Não a ponho na lapela.

Oscila ao leve vento, muito
Encarnada a arroxear.
Deixei no chão o meu intuito.
Caminharei sem regressar.

5.
Leve, breve, suave,

Leve, breve, suave,
Um canto de ave
Sobe no ar com que principia
O dia.
Escuto, e passou…
Parece que foi só porque escutei
Que parou.

Nunca, nunca, em nada,
Raie a madrugada,
Ou esplenda o dia, ou doire no declive,
Tive
Prazer a durar
Mais do que o nada, a perda, antes de eu o ir
Gozar.

Fernando Pessoa (1888-1935) nasceu e morreu em Lisboa. Passou parte da infância na África do Sul, onde estudou em inglês, língua na qual também escreveu grande parte da sua obra. Regressado a Portugal, trabalhou como tradutor e dedicou-se intensamente à escrita, criando múltiplos heterónimos, entre os quais se destacam Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. A sua poesia é marcada pela reflexão filosófica, pela multiplicidade de vozes e pela modernidade de estilos. Morreu prematuramente, aos 47 anos.

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