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André Domingues (1975)

André Domingues (1975)

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6.
Descendente

Todas as coisas têm a forma de um minuto perdido
a fama de uma desprezada antecedência
e pretendem morrer.

Quem se dá por desaparecido
no escuro fervor da recompensa?

Acordas preso pela força da repetição
às correntes sanguíneas do vazio
dependes do ímpeto
e da perturbação da fronteira
veneras a criminalidade dos céus.

Mas descendes ainda
da plena extorsão dos princípios.
De forma cruel quase sempre
regressas sem ver ao desfile do tempo
tomas partido, vais crescendo
o rosto coberto de películas, esquissos
para a criação de uma admirável promessa

tão alta como as primeiras vezes
em que foste insolente com a vida
com essa alegria de lince em breve
vagar de arquitecto, o brilho da origem
liquidado à nascença. 

5.
Emboscada

Como é bela a vingança da fala.
As falsas partidas, os golpes
de sorte, as lanças da tarde

toda e qualquer espécie de olhar
sem âmbito

são exemplos de discórdia
de puro dislate
de alto mal-estar.

Mas enquanto essa luz suja lavar
eu continuarei no receio
das imagens

na pausa automática
dos que sofrem
a noite nas costas. 

4.
Bosquejo

O dia exaspera
a louca velocidade das maçãs
do rosto da mulher mordida
à hora certa
nos jardins envidraçados do futuro
a luz humana de um uivo. 

3.
dói-me o teu nome longínquo.
dói-me o irresistível artesanato da distância 

2.
Uma máquina de fazer sumo da Terra
e não haver sumo na Terra, senão suor, 

1.
Quando a velocidade se divorcia do veículo
e atinge a insanidade do condutor
o êxtase ama a catástrofe. 

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