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Alice Vieira (1943)

Alice Vieira (1943)

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7.
desenha com a ponta dos teus dedos
as fronteiras exactas do meu rosto
as rugas    os sinais     a cicatriz que ficou da infância
o lento sulco das lâminas onde no peito
se enterra o mistério do amor

e diz-me
o que de mim amaste noutros corpos
noutras camas       noutra pele

prometo que não choro mas repete
as palavras um dia minhas que sem querer
misturaste nas tuas e levaste
com as chaves de casa e os documentos do carro
– e largaste sobre a mesa com o copo de gin a meio
na primeira madrugada em que me esqueceste 

6.
DESENHO

No papel branco
desenharei um Sol
bem amarelo
e no alto dum monte
um enorme castelo
entre campos lavrados
e povoarei a terra
de cavaleiros e de soldados.

Às nuvens darei
a forma de gente
(e haverá quem pense
que são gente a sério…) e ouvir-se-á
pela noite fora
os uivos dos lobos
até vir a aurora

que desfará o medo
e o mistério…

in Rimas Perfeitas, Imperfeitas e Mais-que-Perfeitas

5.
De tudo o que era meu deixo-te o fogo
os resíduos do tempo     a ferida gangrenada 

4.
A língua sobre a pele o arrepio
os teus dedos na escada do meu corpo

3.
Aprendemos      disciplinadamente      a pôr
o tempo no seu lugar 

2.
Entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida de que não conseguimos regressar 

1.
Às vezes uma palavra bastava
para que eu soubesse que virias sempre ao meu encontro 

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