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Albano Martins (1930-2018)

Albano Martins (1930-2018)

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O POETA e tradutor Albano Martins, autor de uma extensa obra lírica, marcada pela contenção expressiva e por uma discreta musicalidade, morreu esta quarta-feira, aos 87 anos, no Hospital Santos Silva, em Vila Nova de Gaia, onde estava internado.

Segundo informação da Universidade Fernando Pessoa, cujo corpo docente Albano Martins integrava, o funeral está marcado para quinta-feira, às 16h, e sairá de Mafamude, Gaia, onde o escritor residia. Não haverá velório nem serão realizadas quaisquer cerimónias fúnebres.

Nascido a 6 de Agosto de 1930 na aldeia do Telhado, concelho do Fundão, formou-se em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e foi professor de Português, Latim e Grego no ensino secundário durante muitos anos, até ingressar, já depois do 25 de Abril, nos quadros da Inspecção-Geral do Ensino, da qual se aposentaria em 1993.

Esta sua dedicação ao ensino justifica o estranho lapso temporal entre o seu livro de estreia, Secura Verde, publicado em 1950, e o volume imediatamente seguinte, Coração de Bússola, que só sairia em 1967. Por ocasião de uma homenagem que lhe foi prestada em Vila Nova de Gaia em 2009, o próprio poeta  explicou que teve de “trabalhar muito para ser professor”, porque naquela altura “a universidade não preparava ninguém para leccionar”, e adiantou ser essa a principal razão para o seu longo interregno lírico nas décadas de 50 e 60.

Uma escassez que Albano Martins não tardou a compensar: se nos anos 70 só publicou mais dois livros de poemas, Em Tempo e Memória (1974) e Paralelo ao Vento (1979), ao longo da década seguinte edita quase um título por ano, de Inconcretos Domínios (1980), A Margem do Azul (1982) e Os Remos Escaldantes, de 1983, (publicado num mesmo volume com um livro de Teresa Balté) até Sob os Limos (1986), Poemas do Retorno (1987), A Voz do Chorinho ou Os Apelos da Memória (1987), Vertical o Desejo (1988) e Rodomel Rododendro (1989), um livro que vem trazer um fôlego mais amplo e uma música mais aberta à prosa do que era habitual num autor que, não por acaso, daria o título de Vocação do Silêncio à primeira reunião da sua obra poética, em 1990.

É já também nos anos 70 e 80 que Albano Martins inicia, com a sua tradução dos Cantos do italiano Giacomo Leopardi ou a sua versão do Cântico dos Cânticosfeita a partir do grego, um importante percurso de tradutor, que ganhará particular visibilidade a partir dos anos 90, com Dez Poetas Gregos Arcaicos e Dez Poetas Italianos Contemporâneos, as suas sucessivas traduções de Pablo Neruda, ou ainda as antologias que organizou e traduziu de poetas como o espanhol Rafael Alberti, o cubano Nicolás Guillén, o palestiniano Mahmud Darwich, a paraguaia Lourdes Espínola ou chileno David Rosenmann-Taub.

Um labor coroado com duas grandes recolhas da poesia grega antiga, Do Mundo Grego Outro Sol: Antologia Palatina Antologia de Planudes e Antologia da Poesia Grega Clássica, que de algum modo funde as antologias organizadas em França por Robert Brasillach e Marguerite Yourcenar.

Este gosto pela tradução não levou Albano Martins a abrandar a produção lírica própria: Entre a Cicuta e o Mosto (1992), Uma Colina para os Lábios (1993), Escrito a Vermelho (1999), a incursão numa poesia mais abertamente amorosa de Três Poemas de Amor seguidos de Livro Quarto (2004) ou ainda o recente Livro de Viagens (2015), no qual revisita poeticamente os lugares que visitou, mas também os amigos, são alguns dos muitos livros de poemas que publicou nas últimas décadas.

Muito próxima dos elementos naturais e das paisagens em que cresceu, mas também desde cedo dialogando intensamente com as artes plásticas e a música, a obra poética de Albano Martins teve a sua mais recente compilação no volume As Escarpas do Dia: Poesia 1950-2010 (2010), prefaciado por Vítor Aguiar e Silva.

Autor também do ensaio O Porto de Raul Brandão(2000), de vários livros para crianças e de três recentes volumes de crónicas, os seus Circunlóquios, Albano Martins foi um dos fundadores da revista Árvore e colaborou em diversos jornais e publicações literárias.

Na bibliografia dedicada ao autor destacam-se livros como O Arco-íris da Poesia : Ekphrasis em Albano Martins(2002), de Luís Adriano Carlos, A Melodia do Silêncio(2005), do brasileiro Álvaro Cardoso Gomes, ou ainda Ecos de Silêncio – Fotobibliografia de Albano Martins, de Isabel Vaz Ponce de Leão, organizada por ocasião da homenagem que a Universidade Fernando Pessoa lhe prestou em 2000, assinalado os seus 50 anos de vida literária.

Por Luís Miguel Queirós publicado in Público

A POESIA É O OUTRO SOL QUE VARRE
AS TREVAS E A NOITE DO MUNDO

Por Francisco Duarte Mangas

Poeta de depurada escrita, tradutor de reconhecida qualidade de poetas (gregos do período clássico, espanhóis, italianos e sul-americanos), Albano Martins faleceu hoje, aos 87 anos. O funeral realiza-se amanhã (quinta-feira), às 16 horas, na Igreja de Mafamude, Vila Nova de Gaia. Antigo dirigente da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto, que prestigiou com a sua intervenção, Albano Martins nasceu na aldeia de Telhado (Fundão). Estreou-se como poeta, em 1950, com Secura Verde. As Escarpas do Dia, ed. Afrontamento, reúne parte substancial da obra poética. Na mesma editora publicou recentemente Pequeno Dicionário Privativo.
Para o número da próxima Gazeta Literária, que sairá em breve, foi-lhe pedido um auto-retrato. E esse notável texto, ainda inédito, termina assim: “De mim, do meu retrato – do meu auto-retrato – falam, isto é, queria eu que falassem os meus poemas. Só eles tecem e configuram a minha verdadeira fisionomia. A autêntica. Só eles dizem verdadeiramente quem eu sou. Não há outra linguagem, além da da poesia, capaz de dizer o inefável, isto é, o que a linguagem comum é incapaz de traduzir. E a poesia é o outro sol que varre as trevas e a noite do mundo”.

*

ESCRITO A VERMELHO

Também ainda não disseste
(e é bom que o faças
antes que anoiteça)
que foi ao serviço
duma causa
que vieste. Não lhe dirás
o nome, nem é preciso,
julgo eu. Basta que se saiba
que foi com o sangue
que sempre o escreveste. E bastará,
por isso, quem leiam
os teus versos. Porque
em todos eles
está escrito a vermelho.

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