1985
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Gaivota

Gaivota

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1985

A AUTOESTRADA quase deserta, uma máquina com voz impessoal de mulher a pedir moedas no fim de cada lanço que o meu carro devorava. Esta voz persegue-me por todo o país; insira o cartão. Efectue o pagamento. Retire o título. A última frase já quase não a oiço, arranco antes que o aparelho me obrigue a tirar um papel que não serve para nada. Não há afectos vindos do caixote de metal brilhante cheio de ranhuras onde se podem meter cartões. Ouve-se um bom dia, uma boa tarde ou boa noite independentemente de haver ou não haver ninguém a ouvir aquela voz previamente gravada. Sempre a mesma ladainha, sempre o mesmo discurso sintético de telefonista antiga.

Vou depressa, não sei andar a passo de caracol quando tenho urgência em chegar a lugar nenhum. O meu carro sabe isso, embala como um louco ultrapassando todos os outros que circulam e, todos os limites impostos pela lei. Os carros retratam fielmente os seus condutores, entusiasmam-se com eles e juntos avançam a sorrir para o desastre. Não temo a iminência do acidente que me pode ceifar a vida, o que me assusta na morte é a hipótese embora remota de poder ressuscitar e ter de aturar novamente a cambada de déspotas que governam o mundo.

O mar a vir ao meu encontro, ele que sempre manteve uma relação próxima comigo, pergunta-me porque foi que demorei tanto tempo a chegar. Devia ter saudades minhas, os mares afeiçoam-se aos que alguma vez, mesmo inconscientemente, desafiaram o seu colossal poder. Ficam a admirá-los, a respeitar a sua coragem como um cavalo bravo fica a venerar o seu domador. Resmungava visto de longe, sem intimidar ninguém. A manifestação de poder que exibia, era apenas o seu jeito de mostrar afeição e, visto de mais perto, era um monstro ainda sonolento a comer os pedaços da magnífica manhã embrulhados na neblina.

De mãos dadas com um rio, eu tenho um mar dentro de mim, um oceano pintado com tinta azul, possuidor de uma fúria incontrolável cujo poder destruidor é tão descomunal como a capacidade para amar e compreender as fomes do mundo, os desequilíbrios que transformam pessoas sadias de espírito em indisciplinados cidadãos capazes de destruir as vidas dos seus semelhantes. Um mar é um espaço de liberdade, conforto e meditação, uma chamada à realidade dos considerados poderosos que no seu seio admitem a fragilidade das suas forças e a completa pequenez das suas vidas.

No primeiro semáforo, um miúdo dentro do carro parado ao lado do meu com o dedo indicador espetado na testa, fazia-me por gestos, o sinal de que eu deveria ser maluco. Acenei-lhe com a mão, depois e já no momento que o carro avançou ao sinal verde, retribuindo a minha saudação, com os outros dedos recolhidos e com o polegar em riste, incitava-me a fazer aquilo que por natureza todos fazemos com agrado.

Ia haver uma procissão à tarde pareceu-me. Via-se tapetes de flores a cobrir os paralelos da avenida onde não passam carros nos dias com rezas. Uns cartazes pendurados nos postes de eletricidade, indicavam que se tratava das festas da Senhora da Ajuda.

– Quem me ajuda a mim sem parque para estacionar a máquina que me transportou neste dia de aglomeração de fiéis, balbuciei.

Um estampido ecoou e fez estremecer a terra, o mar, as gaivotas e as pessoas. Seguiram-se-lhe mais, ritmados num compasso pré-estabelecido, ribombar de trovão, tiro de morteiro anunciador de romaria organizada por pobres de espírito que nunca sabem os limites da sua liberdade e passam os dias a atentar contra a dos seus semelhantes. O mar assustou-se com os disparos, os peixes abandonaram a costa, as pessoas estremeceram sobressaltadas, outras gostaram desse cenário assustador e rezavam ainda com maior devoção.

A areia da praia estava sozinha, os barcos dos pescadores dormiam sobre ela desalinhados como tropas derrotadas sem comando. Um miúdo a chamar-me louco de dentro de um carro nos semáforos. Uma criança inconsciente a dizer-me para ir àquele sítio que obviamente desejo ir. Salvas de morteiro misturadas com rezas, gente alucinada a pedir perdão por crimes que nem sequer cometeu, uns melhoras de vida quando já têm tudo, outros um pouco mais de saúde sem necessitar de recorrer a médicos, uns outros devotos e com verdadeira fé, pessoas sem cultura e sem esperança entregues às suas crenças, exigiam um milagre que lhes resolvesse todos os problemas que ajudaram a criar ao longo da vida. Deus não pretende ouvir queixas infundadas, existe para além de todas as imbecilidades, quer ver compaixão, actos de solidariedade e de amor pelo próximo. Distante de toda a hipocrisia, pode aparecer materializado na terra como uma gaivota que se desprende da nuvem de aves que sobrevoam aos gritos um espaço sem comida, num sopro de brisa, ou no azul imaculado do mar.

Era domingo, não havia peixes nas improvisadas bancas sentadas com as mãos no regaço ao longo da avenida, nem redes a aparecer do mar puxadas por tractores e a arrastarem-se penosamente na areia. As artes de pescar repousavam por um dia nos barracões da praia.

Uma gaivota veio ao meu encontro, pareceu-me um mensageiro que trazia notícias de um outro longe diferente do meu. Sobrevoava-me, gritava-me aos ouvidos, parecia conhecer-me desde o princípio da vida. Que vida! Qual de nós ainda respira o ar de um mar que fustigado por tiros nem nos quer reconhecer. Quem seria o destinatário de mensagem tão urgente, os vivos alucinados que festejam ou os mortos que não têm descanso?

Podia tocar-lhe com as mãos, estava muito próxima de mim e da cidade que tinha disparos de morteiros, o trânsito impedido em ruas principais e carrosséis a cercá-la como se viver fosse só isso mesmo, ruídos, coisa feita de automóveis eléctricos de brincar, tendas de quinquilharia, berrarias medonhas de alto-falantes que animavam os pobres de espírito e de medos do estrondo das bombas de diversão.

Parecia que aflita me olhava com olhos de maresia habituados a oceanos desertos. Aqueles olhos fincados em mim, procuravam decerto uma resposta ao seu drama que eu, desconhecedor de voos não lhes soube dar. Parou de repente de asas abertas a pairar sobre o ar e, no momento seguinte, evolui acrobaticamente como um papagaio de papel preso na fragilidade das pequeninas mãos de uma criança a desafiar o vento norte que soprava com fúria sobre a alameda junto à praia.

Não sei por que razão, fixei-me naquela gaivota tresmalhada. Não compreendia o seu voo incerto, a emergência de terra que a trouxe junto de mim, a proximidade dos seus gritos que estalavam dentro do meu cérebro e me impediam de pensar. Olhava-a como quem olha a liberdade nela representada, voava, voava e, aos meus olhos deslumbrados, já não era uma ave que arribou à costa, era um Deus agonizante a passar por ali. Soltou um grito mais forte e aterrou calmamente sobre a areia. As asas desmedidamente abertas como se o seu voou nunca mais acabasse, estendiam-se no chão inanimadas. Ergueu a cabeça, olhou o mar um pouco distante e depois lentamente deixou-a tombar no tapete branco e macio da areia da praia. O vento sacudia-lhe as asas e as penas, era um anjo caído, parecia que voava depois de tudo ter já terminado.

– O que foi que se passou ave dos céus, porque deixaste de me mostrar o teu voo encantador, que força estranha te fez cair como morta no sítio onde as pessoas fervorosas rezam e em breve vai passar o cortejo com um andor da Senhora da Ajuda?

A cabeça pendida sobre a areia prenunciava o pior. Estava moribunda, morreria a seguir com os olhos abertos a perpetuarem a imagem de um penedo em oceano longínquo onde decerto tinha nascido.

– Que sonhos são os teus, ave que o mar adora, que destino te trouxe até esta praia onde só eu reparei em ti, na tua aflição e onde os miúdos nos chamam de loucos e se morre ao domingo num lugar enfeitado com flores e onde daqui a pouco vai passar uma procissão?

Mais um tiro de morteiro fez estremecer o céu, a terra e o mar. A morte de um sonho que voa, não desperta as pessoas que rezam do sono da indiferença. Se ao menos o mar falasse com eles e lhes dissesse que a perda foi gigantesca porque quando uma gaivota desaparece, fica a pairar sobre a terra e sobre o mar um sofrimento que os humanos ainda não conseguem medir. Toda a natureza estremece, sente e sofre muito pela sua ausência.

Publicado no livro Fado Falado – Crónicas do Facebook

SOBRE O AUTOR:
Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do Douro; Douro Inteiro;  Douro Lindo; A Ninfa do Douro; Palavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook e Amanhecer (Poesia). Colabora com o Correio do Porto desde junho de 2016.

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