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Na Pele do Lobo – 3.º fascículo

Na Pele do Lobo – 3.º fascículo

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3.º fascículo do texto “Na Pele do Lobo“ de Manuel Amaro Mendonça. Este texto é um trabalho de ficção. Nomes, personagens, lugares, negócios, eventos e incidentes são, ou os produtos da imaginação do autor, ou usados de forma fictícia. Qualquer semelhança com pessoas reais, vivas ou mortas, ou eventos reais é mera coincidência.

Viagem interminável

NA porta do mosteiro, frei Bento e os dois frades ficaram de olhos postos no grupo que se distanciava a bom ritmo, enquanto o abade, uns metros à frente, abençoava os seus enviados e rezava em alta voz pela segurança daqueles que mandava em nome D’Ele.

São Bento de Asnes estava isolado de tudo, a sua construção em granito, erguia-se num vale profundo da serra do Gerês, praticamente rodeado de altos cumes e era a residência de cerca de cinquenta frades. Era abastecido de água pela ribeira gelada que corria alegremente por um percurso sinuoso e acidentado até se despenhar de grande altura, perto da aldeia de São Salvador de Asnes e continuar o seu caminho até ao rio Cávado a muitos quilómetros dali. O aglomerado era composto pela capela e duas alas, em forma de U que abriam para um claustro e logo de seguida para uma extensa área composta por hortas que eram uma das fontes de alimentos do mosteiro. Todo o conjunto estava protegido por um muro de cerca de três metros de altura, derrubado pelo tempo em alguns  sítios.

O planalto era batido pelos ventos que se escoavam  nos espaços entre os cumes dos montes e assobiavam furiosamente no inverno. Àquela altitude, o sol podia ser inclemente durante o dia, alternando para uma noite gélida, no espaço de poucas horas.

Disso mesmo começou a sofrer frei João… as pernas pouco habituadas a grandes caminhadas, o corpo pesado, pouco dado a esforço, aliado ao estranho mal estar que sentia, uniram-se sob o sol castigador, tão logo abandonaram a proteção do bosque que orlava a base do monte que precisavam passar.

O trajeto que teriam de fazer era pouco conhecido por qualquer um dos monges, pois vulgarmente deslocavam-se apenas até São Salvador de Asnes, ou São Pedro de Tourém, para a feira mensal, agora iriam em sentido contrário, passando a face de uma das serras, quase até à fronteira com Castela. Todo o grupo caminhava em silêncio, primeiro porque se sabiam observados pelo abade e depois, apreensivos com a sua missão.

João ficava para trás e cada passo era um martírio. O suor frio que vertera antes, depois de o gelar completamente, agora parecia correr como gotas de metal derretido no seu corpo. Tiago deixou-se apanhar por ele e, certificando-se que os restantes não os ouviam, perguntou:

—  Que achais de tudo isto, irmão?

—  Isto, o quê? — Perguntou o outro com esforço. — Esta expedição inusitada, ou a estranha doença que atacou a aldeia?

—  Tudo! Não só esta maleita parece algo terrível e inexplicável, como este nosso grupo não tem muito de normal.

—  Uma coisa é correta: é nossa obrigação ajudar os nossos irmãos em dificuldades e fazemos isso mesmo, sempre que nos aparecem às portas.

—  Sempre que nos aparecem às portas! Vós sabeis bem que o nosso abade não cumpre escrupulosamente  o dever de curar e alimentar, senão aos peregrinos. — Frisou Tiago. — Não há memória de se mandar ninguém “ver o que se passa”. Algo o assustou muito.

—  É verdade que, para ele, os cuidados com o mosteiro estão em primeiro lugar e acho que é essa, em última análise, a razão desta aventura; ajudar se pudermos, se não, regressar rapidamente. Se esta enfermidade for tão contagiosa como aparenta, o mosteiro está em perigo e temos de o fechar num isolamento completo.

—  Só isso vos preocupa? — O monge falou ainda mais baixo. — Também não acreditais que seja obra de demónios?

—  Que o bom Deus o proíba! — Exclamou João benzendo-se ao mesmo tempo que o companheiro. — Acho que o nosso previdente abade não deixou essa hipótese de lado… é essa a razão da presença de Simão entre nós.

Ambos se calaram ao mesmo tempo ao verem o olhar de desaprovação de Filipe, que se deixara atrasar, para ver os retardatários. O seu porte altivo impunha respeito, não era difícil acreditar que era um cavaleiro templário de origem nobre.

Mantiveram a marcha em silêncio, à semelhança dos restantes mas, gradualmente, a distância entre João e o resto da comitiva ia aumentando, ao ponto do pobre Tiago  hesitar entre ficar com o companheiro ou manter o passo pelo grupo. Por fim decidiu-se e João ficou sozinho.

Arfava a cada passo, a água escorria pelas pernas, os próprios pés, apenas tapados pela correia das sandálias, eram uma papa de lama com terra e suor. Os companheiros aguardavam-no num pequeno largo mais acima… não havia uma árvore onde arranjar um pouco de sombra.

Chegado junto deles, Simão questionou-o se não achava melhor voltar, uma vez que parecia doente, mas ele recusou e despejou um pouco da água do seu odre no rosto afogueado, que lhe trouxe algum conforto. Os outros olhavam-no preocupados e ele sossegou-os alegando que era apenas o sol que o estava a atormentar, assim que chegassem às sombras da floresta do outro lado, tudo seria melhor. Procurou uma pedra alta o suficiente para se sentar um pouco, mas Simão deu ordem de marcha e ele não conseguiu descansar.

Novamente a distância entre eles começou a ser cada vez maior, até que desapareceram no alto do caminho, haviam chegado ao topo; a partir daí era só descer.

Quando por sua vez chegou ao ponto mais alto, pode deleitar-se com a paisagem. À sua esquerda, o maciço das serras alinhavam-se numa imensa muralha despida que desaparecia no horizonte e em frente, o tapete de árvores que se estendia a perder de vista. Lá muito longe, conseguia perceber o brilho de prata do rio. A fronteira com Castela. Antes disso, oculta na floresta, a estrada pavimentada, construída pelos antigos, que vinha de Braga e atravessava São Cristóvão da Chã, seguindo depois para a fronteira.

Olhou com preocupação para a mão roxa… as unhas amarelas e salientes, por certo iriam cair com os maus humores que se formavam no membro inchado… já sentia rigidez no cotovelo. Tiago aproximou-se e ele baixou rapidamente a manga do hábito.

O monge trazia recado de Simão: iam continuar a andar e esperariam de tempos a tempos por ele, mas que estavam a perder tempo precioso. Perguntava-lhe se não seria melhor voltar. Teimosamente recusou, inclusivamente, não parou de andar para ouvir o companheiro. Este acabou por encolher os ombros e levantando as saias do hábito, correu a alcançar os outros.

Foi com alívio que atingiu a orla da floresta e recebeu em cheio a frescura da sombra, adornada aqui e ali com raios de luz oblíquos, carregados de minúsculas estrelas. Acelerou um pouco o passo, mas não havia meio de os apanhar e por fim, mesmo com a sombra, o peso nas pernas e nos braços começa a fazer-se sentir novamente. A transpiração, que entretanto arrefecera no corpo, gelava-o, mas ele não queria parar e continuou, com as sandálias a arrastar no terreno irregular do trilho.

Não sabia há quanto tempo caminhava sem ver ninguém. O carreiro por entre as árvores era uma paisagem ondulante e só se apercebia das pedras quando estava mesmo em cima delas, ou quando tropeçava. O ruído das sandálias a arrastar no chão coberto de folhas, era como se estivesse a flutuar em vez de caminhar.

Por fim, conseguiu perceber, por entre a visão turva, as pedras que limitavam o pavimento da estrada de Braga. Ia ser um consolo encontrar caminho mais direito, mas de repente, um pontapé numa pedra traiçoeira, atirou-o de borco contra o chão, numa nuvem de pó.

—  Irmão João, irmão, esperai que vos ajudo! — A voz aflita de Tiago chegava-lhe de muito longe.

O companheiro ajudou-o a erguer-se mas ele tinha atingido o limite das suas forças. Ergueu-se mas não se aguentava em pé e o outro tinha que o amparar.

—  Valha-nos o Senhor, irmão João. Frei Simão disse-me que viesse ter convosco. Se for vossa vontade continuar, eles esperá-lo-ão na aldeia, pois não se pode perder mais tempo, já vão chegar lá ao anoitecer. Ele recomenda que regresse ao mosteiro, de ambas as maneiras eu acompanho-vos.

—  Estou muito cansado. — Gemeu João, de forma quase inaudível. — Preciso descansar, deixai-me deitar aqui.

—  Mas, oh, ides deitar aqui no chão? Oh, tendes um ferimento grande na cara. Deixai-me limpar isso. Não comeis nada? Nós já comemos alguma coisa para aguentar a jornada.

Tiago não obteve mais resposta e teve de puxar sozinho pelo corpo adormecido e, com uma ponta do cobertor molhada, limpou o ferimento na bochecha do companheiro. Havia sangue no hábito e nas mãos do ferido. Ergueu-se e olhou em volta… que haveria de fazer? Agora ele ia dormir no mínimo um par de horas e acabavam por ficar de noite na floresta…

SOBRE AUTOR:
Manuel Amaro Mendonça é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelos ISLA de Gaia. Nasceu em Janeiro de 1965, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos, a Terra de Horizonte e Mar.
Ganhou prémios em dois concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de uma dezena de coletâneas de contos, de diversas editoras.
É autor dos livros “Terras de Xisto e Outras Histórias” (Agosto 2015), “Lágrimas no Rio” (Abril 2016) e “Daqueles Além Marão” (Abril 2017), todos editados pela CreateSpace e distribuídos pela Amazon.

Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://debaixodosceus.blogspot.com

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