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O agrafador por Luz Machado

O agrafador por Luz Machado

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A pequena máquina morde as folhas
só com um dente largo.
As junções até à altura de um pistilo
e atravessadas como a assinatura de um neurótico
declaram o matrimónio da escrita e do papel.
Morde como um pequeno animal sem olhos,
aí onde as minhas mãos reúnem a extensão
que antes passava pelo fogo,
que antes vivera um ciclo vegetal,
um céu turvo de putrefacção e asco.
Assim a árvore conhece a solidão do ferro,
essa violação de ossos metálicos
que primeiro suaviza as formas das vértebras
e depois as cose à coluna.
Inocente e pequena, se não a impulsiono,
permanece ociosa e fria
como uma sardinha morta.
Se a uso, um estalido recorda
os pica-paus do bosque
e as mandíbulas dos pequenos roedores
nas margens dos rios, sobre madeiras tombadas.

in A única maneira de esquecer a beleza, Língua Morta, novembro 2022, página 266, tradução de Luís Filipe Parrado

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