Aleixo Comneno publicou um crisóbulo
para render devido preito a sua mãe,
a sereníssima e excelente Dona
Ana Dalássena – ilustre por seus feitos,
como por gentileza e dignidade.
Há nele muitas frases de louvor.
Mas cumpre destacar, de todas elas,
uma que é puramente bela e nobre:
«Nunca as frias palavras meu e teu dissemos.»
in 90 E MAIS QUATRO POEMAS de Constantino Kavafy, poema 129, tradução, prefácio, comentários e notas de Jorge de Sena, Maldoror, Março de 2023, página 122
NOTA: Ana Dalássena foi mulher de João Comneno, alto funcionário no reinado de seu irmão, o imperador Isaac I Comneno. Foi ela, na sua época, uma das figuras mais nobres e respeitadas de Bizâncio (cfr. Charles Diehl, Figures Byzantines, 1.ª série, cap. XII, Paris, 1912). Quando os normandos, sob a chefia de Roberto Guiscardo, invadiram a Ilíria, Aleixo I Comneno, partiu em socorro da província, deixando o Império nas mãos de sua mãe: foi isto em 1081, e o referido crisóbulo (bula selada a ouro) foi editada precisamente para a transferência do poder (o texto sobrevive na Alexíada, de Ana Comneno, neta da velha imperatriz). O poema é, na sua contida dignidade, muito belo. Mas o seu maior interesse é que, em 1927, ele retrata as relações do poeta com a sua própria mãe, falecida vinte e oito anos antes. Também entre eles nunca haviam sido proferidas «as frias palavres meu e teu» – e será essa a razão de a frase do crisóbulo ter atraído a atenção de Cavafy.


















