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Ameixeira

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Sabedoria da ameixeira. Como
fielmente cumprindo
um versículo de Deuteronómio,
dos seus frutos dois terços os conserva nos ramos:
um fica para as aves do céu, que não semeiam
nem colhem nem conservam em celeiros: os melros,
que sempre chegam antes,
as hordas dos estorninhos, negras e cacofónicas,
caindo de uma vez sobre o esplendor da árvore
como esses foragidos
de Peckinpah, e os pássaros miúdos
que enigmaticamente
trasladam ao seu canto essa mesma doçura
verde-dourada que debicam nas ameixas.
Um outro terço é para nós, os humanos.
Arrancar as ameixas com saltos, varas, telas,
banquetas pouco estáveis e risos, e guardá-las
com canastras ou caixas com a pele embaçada
e folhitas rebeldes
é recolher ameixas e além disso
é festejar a nossa vida. E fica
o outro terço para a terra: aquelas
ameixas já tocadas, que pelos pés da árvore,
vão amarelecendo, logo escurecem, e
se decompõem para transformar-se
nessa força que ao fim de um ano levará
às antigas ramagens uma nova
geração, mais três terços de ameixas.

Monte da Tomba, 26-vi-2014

Miguel d’Ors in O fiasco perfeito, Língua Morta– Poesia Incompleta, maio 2021, página 213, tradução de Luís Pedroso

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