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A rua por Octavio Paz

A rua por Octavio Paz

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É uma rua extensa e silenciosa.
Ando na escuridão, tropeço, caio
e levanto-me e piso com pés cegos
as pedras mudas e as folhas secas
e alguém atrás de mim também as pisa,
se me detenho, detém-se;
se corro, corre. Volto o rosto: ninguém.
Tudo é escuro, sem saída,
e dou voltas e mais voltas em esquinas
que dão sempre para a rua
onde ninguém me espera nem segue
onde sigo um homem que tropeça
e se levanta e ao ver-me diz: ninguém.

in Fumar às janelas do crâneo, Poesia mexicana do Século XX, Língua Morta e Maldoror, outubro 2025, organização, seleção e tradução de Luís Filipe Parrado e Ricardo Castro Ferreira, página 48

NOTA DO EDITOR:
Gosto muito deste tipo de poema que nos faz fintas. Tudo apontava num sentido e, no final, já não sabemos quem é o poeta. Se, há pouco, dizia que estava a ser seguido e, ao olhar para trás, não via ninguém, como é que agora segue um homem e, quando este olha para trás, diz: «ninguém»?

É este o engano consentido. É como se sentíssemos prazer em sermos enganados. Não sei que parte de mim exulta com esta leitura, mas que me agrada, agrada. E sinto uma espécie de veneração e admiração pelo poeta que conseguiu enganar-me.

No fim, só dá para sorrir e esperar algum tempo antes de voltar a ler o poema, para repetir a mesma sensação ilusória.
PML

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