A mulher que espera o verde para atravessar
a rua olha para o infinito. Talvez não haja nada
do outro lado da rua que vai atravessar, e
talvez aquilo de que precisa esteja nesse ponto
para onde olha, para lá do estranho céu
que ela interroga. O vermelho passou a verde, e
o verde voltou a ficar vermelho; e a mulher
não se move, prendendo o meu olhar
com a sua imobilidade. E os braços
parecem esperar alguma coisa que não vem, como
se estivesse numa sala de baile à espera
do convite para dançar. Juntam-se à sua volta
as pombas da rua, como se os pedaços
de sombra do seu corpo as pudessem
alimentar antes do seu voo. E acabei
por me aproximar do poste onde o verde
e o vermelho alternavam, apenas para ter
a certeza de que ela não era uma estátua e
fixar os meus olhos no ponto para
onde o seu olhar se dirigia: esse pedaço
de infinito onde ela misturava o azul
com o branco, como se o céu fosse o quadro
que pintava com as mãos da sua alma.
in Gazeta de Poesia Inédita →
NOTA DO EDITOR: Para mim, este poema termina em «branco». A partir daí, tudo o que o poeta acrescenta parece-me redundante. O essencial já aconteceu: ao aproximar-se da mulher, o poeta passa a ver o mesmo infinito que ela contemplava, «esse pedaço de infinito onde ela misturava o azul com o branco». Se ela já misturava o azul com o branco, não preciso de saber que o fazia «com as mãos da sua alma», nem que o céu «fosse o quadro» onde pintava. Essas imagens explicam ou desenvolvem uma ideia que já se encontrava plenamente realizada. O poema atinge o seu objetivo em «branco», porque era precisamente esse instante de comunhão com o olhar da mulher — que até então parecia uma estátua — que o poeta procurava alcançar.


















