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Rua da Estrada da Terra com Identidade

Rua da Estrada da Terra com Identidade

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NESTE lugar onde se é bem-vindo apesar de não se perceber o nome que lhe puseram, informa-se que estamos numa Terra com Identidade.

Está escrito mas não é o que parece: do asfalto aos eucaliptos, dos sinais de trânsito ao edifício-montra vazio, das casas ao poste de iluminação ou à cruzeta dos fios que cruzam o céu, tudo é do mais genérico que se possa imaginar.

Não é grave. Identidade é um conceito caótico onde cabe tudo justificado com múltiplo argumentário. Como categoria social, identidade aplica-se a um grupo de gente com determinados atributos, características, normas de conduta, referentes culturais, etc. Se não for muito claro fazer esta lista e explicar o que lá se põe, também se pode dizer, por referência a outro grupo, que tal identidade de tal grupo se caracteriza por ser diferente da que esse outro possui. A identidade dos nossos inimigos, o outro mais hediondo que há, é péssima e os seus símbolos são tenebrosos[1]. Como atributo individual, a identidade é uma característica ou conjunto de características mais ou menos imutáveis que define as ideias, os papéis, opiniões ou aparências dessa pessoa e do seu modo de relação com os outros. Também se diz que a identidade se pode aplicar aos lugares bastando para isso isolar algum traço distintivo ou grupo de marcadores reais ou ficcionais organizados num relato e numas imagens. Como os lugares não falam, alguém tratará de lhes fazer a folha. Não é difícil porque o espaço geográfico é contentor de coisas de vários tempos e qualidades, como constitui referência comum para muitas outras – o lugar onde nasceu alguém, as coordenadas do evento.

Também há muita identidade que vem ao de cima quando existe necessidade de distinção, de dignificação, de diferença, pelas boas ou más razões. Como não é um ponto fixo, um absoluto auto-explicativo, a identidade só se consegue abarcar no fogo cruzado da diferença, da relação entre o eu ou o nós e o(s) outro(s).

De resto, a forma mais precisa de documentar a identidade era o Bilhete de Identidade, B.I., para os mais treinados no assunto. Agora só há crises (de identidade), desconfianças (por graves perturbações causadas por nacionalismos ou pessoas com excesso de identidade) e identidades fragmentadas pela tremedeira de que são acometidas por não se conseguirem aguentar estáveis e coesas por muito tempo. Tudo o resto são nuvens a passar e almas românticas fora do prazo.

[1] Umberto Eco (2011), Construir o inimigo e outros escritos ocasionias (trad. Jorge Vaz de Carvalho), Lisboa: Gradiva (ed. original RCS Libri, Milão, 2011).

SOBRE O AUTOR:
Álvaro Domingues (Melgaço, 1959) é geógrafo e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde também é investigador no CEAU-Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo. É autor de A Rua da EstradaVida no Campo e Volta a Portugal. Colabora com o Correio do Porto desde janeiro de 2015.

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