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Rua da Estrada Jolly Splash

Rua da Estrada Jolly Splash

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[E]STANDO na Rua da Estrada Adriática, algures entre Pescara e sabe-se lá que outra terra, pensando na diversidade do mundo e nas construções laboriosas que os humanos inventam para todas as finalidades…, ia-me dissolvendo em olhares vagabundos a tentar decifrar as presenças que por ali jaziam. Pois que grandiosas obras que se fazem e como se nos entope o entendimento a contemplá-las. Só me ocorre dizer coisas como onda hotel, jolly splash, sempre aberto, rodelas, espirais, verde pintado em tiras, cores fortes sobre asfalto duro.

Quase solidificando nestas cogitações, procurando saber se gostava do que via, eis senão quando me cai o Ramalho Ortigão em cima:

A terra ama-se por simples instinto, em virtude de leis naturais que prendem o afecto do homem aos lugares em que nasceu, assim como a raiz prende a árvores ao solo de que bebe a seiva. O amor da tradição, esse, é um resultado educativo. Para amar a tradição é preciso conhecê-la, e é no fundo desse conhecimento que verdadeiramente reside a consciência da nacionalidade.[1]

Será por isto que a consciência da nacionalidade se está a escoar? Deve ser, porque nem estou a ver os humanos a beber seiva da terra (nem os vegas conseguem, quanto mais os outros), porque os lugares onde se nasce por cá são hospitais, bloco de partos, maternidades e ambulâncias de bombeiros por quem se não constroem afectos e porque (era aqui que queria chegar ou talvez não) não se consegue conhecer a tradição porque a tradição está cada vez mais esquiva e nem no facebook aparece. Dizem que de tanto frequentar a auto-lavagem no jolly splash, se foi adelgaçando e perdendo peso e espessura, e se evaporou e subiu ao céu conforme as escrituras. Pode ser que assim seja.

Por Álvaro Domingues autor de A Rua da Estrada.

[1] Ramalho ORTIGÃO, Folhas Soltas 1865-1915, Obras Completas de Ramalho Ortigão, Livraria Clássica Editora – A.M. Teixeira & C.ª (Filhos), Lda., Lisboa, 1956, p. 249

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