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Rosa Alice Branco (1950)

Rosa Alice Branco (1950)

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As mães são outra coisa
outra massa outra farinha
peneirada como quem semeia.
E de qualquer terra nasce o fruto
já maduro e elas teimam
que não está pronto para a colheita:
– não está e pronto 

8.
As mães só falam uma língua
e sabem o que cada palavra significa
para não se perderem dos filhos.

Desde que falam para dentro de nós
as palavras que as amedrontam
são as que vêm de fora.
Apressam-se a expulsá-las
e tentam esquecer que as dissemos.

Quando os maridos lhes lançam a rede
são as palavras que as enchem de desejo
e gemem de medo 

7.
Às vezes a noite estende-se através da pele,
mas tu mergulhas até apanhar a pedra
lá no fundo
e uma clareira começa a abrir-se no buraco
por onde esvaziaste a noite.

Publicado in Da alma e dos espíritos animais, Campo das Letras, julho de 2001, página 55

6.
Deste-me todos os frutos
e eu multipliquei as mãos
para te olhar nos olhos.

Publicado in Da alma e dos espíritos animais, Campo das Letras, julho de 2001, página 64

5.
Pias são as vacas
aspirando o chão com as manchas brancas 

4.
Eu tive um cão ou era ele
que me tinha e me deixava à solta 

3.
Sem livro de reclamações

No princípio era o verbo
e agora ninguém responde.
O marido, a amante, a família e os amigos,
todos alinhados sobre as campas.
Começam pela oração ou o correspondente laico
e logo passam às súplicas e aos subornos.
Os cemitérios são repartições públicas.
Por isso não há respostas.
Há noites mal dormidas pelas razões erradas.
Esta noite a cama tremeu três vezes. Os teus balbucios
na minha boca. A tua pele húmida. Sou o teu epitáfio?
A família e os demais continuam a acorrer aos balcões
sem os formulários preenchidos.
Os mortos já não pertencem às respostas.
Qualquer adjectivo apodrece como as flores.
Qualquer frase se decompõe sem sujeito.
Sou apenas uma tatuagem na tua campa.
No princípio era o fim. 

2.
Não te importes amor
se tivermos a alma em desalinho. 

1.
Olho pela janela e não vejo o mar.
As gaivotas andam por aí e a relva vai secando no varal.
Manhã cedo 

Rosa Alice Branco: Mestre em Filosofia do Conhecimento pela Universidade Nova de Lisboa, com uma tese sobre a perceção visual em Berkeley, nascida em 1950. Ensina psicologia da perceção na Escola Superior de Artes e Design. Participou no Grupo de Estudos de Semiótica e Poética do Porto, tendo sido um dos responsáveis pela revista Figuras e pertence à direção da revista Limiar. A sua poesia, refletindo sobre paradoxos filosóficos e linguísticos, ocupa um lugar único na poesia portuguesa contemporânea mais recente.

Sito in http://www.infopedia.pt/

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