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Fernando Guimarães (1928)

Fernando Guimarães (1928)

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Estátuas

Apenas voltadas para o arco dos seus corpos
ignoram tudo e os olhos fecham-se, de pedra.

Tão serena esta rosa,
quando a roseira a escolhe.

é ao longo dos remos
que te visita a água.

Esperas receber os frutos
de que se alimenta a árvore.

Observas na parede
a fenda que a sustenta.

Espelho: pode faltar ainda
um olhar à imagem que nos vê?

Sobre a colina
o rosto da terra.

Ao chegar a morte
o ar respira ainda.

É nos frutos que existe
o gesto para os colher.

É esta página quem lê nos teus olhos.

Se é a mim que me olho, será outro o olhar que me vê.

Que nunca o que és te imite.

As árvores crescem agora mais depressa. Procuram os seus frutos.

Se a poesia é demasiado íntima para que pertença completamente aos outros, també o é para ser só nossa.

Só quando se encontra partido é que o vidro perde a sua fragilidade.

Num poema não se deve repetir o que já foi escrito, nem o que nunca será escrito.

A morte está cansada e assim encontra
no teu corpo a nudez, lugar de outro repouso.

Ver as coisas não como são, mas da maneira como elas a si mesmas se assemelham.

Procura conhecer sempre o que existe à tua volta. Depois adormece, para que possas permanecer atento.

Ao escrever faz com que outros apenas se apercebam dos sintomas menos graves da tua doença.

Leste com atenção o poema para que ficasse na tua memória. Mas ele esqueceu-se de ti.

Uma árvore, por maior que seja, não terá tantas folhas se a não olharmos.

Ninguém deveria esquecer que uma coluna também sustenta o seu peso.

Aquele cujos olhos são a origem da luz não vê.

Búzio

Há uma voz a recordar
além da nossa calma

– Murmúrio íntimo do mar
que nos ficou na alma

Podemos encontrar em tudo o que esperamos
um fruto só que exista na direcção dos ramos.

Encontramos
nas ondas ao tocarem estas mãos vazias
tudo o que deixamos
na penumbra do dia.

E essa oferenda que chegou da vida
assim há-de ficar
como, em nós mesmos, estava recolhida
a voz do mar.

O poema nasce
dentro das tuas mãos
sempre que repousa
nelas o teu rosto.

Não é uma canção:
são os lábios apenas
quando despertaram
antes da palavra.

Arquitectura última
que depois se eleva,
porque tu a criaste
para sempre livre.

Talvez uma ave
seja a sua forma
ao passar o voo
que continua o poema.

Procuramos o amor e a morte em cada rio
para que seja igual ao mar a nossa vida.

Escuta só a voz
que traz a harmonia
dos rios que prolongam
em nós a poesia.

Na forma dos lábios
o teu nome chega
– ave que liberta
apenas o voo.

Olhamos a sombra
nele recolhida
como se fosse o início
de qualquer encontro.

E a voz que ficou
sempre mais distante
lembra ainda a curva
que nasceu das asas.

 

As folhas não se movem. É o vento
que faz estremecer o nosso olhar.

Quem são aqueles que ficam ali reunidos e se submetem
a esta ordem que é a da pintura? Estão sentados. Há filas onde avultam 

Principiamos a ler. O rosto inclina-se. Ainda separadas,
algumas das letras estremeceram. Tudo aquilo que se sente 

Estão separadas de tudo as lágrimas.
Vê-las-emos

Fender aqui a pedra; procurar o que se torna
no seu próprio sentido: este peso. Assim se espera

Onde fica guardado o tempo? Posso agora dizer
que é dentro dos olhos. Mesmo que se conservem assim límpidos

O rebanho, a aspereza da lã. Recebemo-la nos teares
para a tornar ali macia. Sentimo-la como se envolvesse 

Sabemos que de todas as sementes
é a mais pesada. Havemos de esperar
por ela. Acolhemo-la e nada 

Fernando Guimarães: Poeta, ensaísta e tradutor português, nascido a 3 de fevereiro de 1928, no Porto. Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas na Universidade de Coimbra, exerceu funções de docência no ensino secundário e de investigação no ensino superior. Assegurou colaboração crítica em jornais e revistas – como Árvore, Bandarra e Estrada Larga (onde publicou Poesia e Formalismo), entre outras – , sendo considerado, pelas suas obras ensaísticas e de teorização sobre as poéticas finisseculares, modernista, de vanguarda, presencista, neorrealista e do fim da modernidade, um dos mais especializados críticos de poesia da atualidade.

Entre 1951 e 1958, co-dirigiu a revista Eros, na qual colaborariam Jorge Nemésio, José Manuel, José Bento, Fernando Echevarria, Vítor Matos e Sá e António José Maldonado, e onde publicou, além de produção teórica e ensaística, alguns dos poemas que viriam, em 1956, a integrar a sua obra de estreia poética, A Face Junto ao Vento.

A sua obra ensaística orienta-se para o estudo de questões teóricas ligadas à estética, e da evolução da poesia portuguesa nos últimos cem anos, a partir de grandes movimentos como o Simbolismo, o Saudosismo ou o Modernismo. Nestes dois domínios publicou: A Poesia da “Presença” e o Aparecimento do Neorrealismo, Linguagem e Ideologia, Simbolismo, Modernismo e Vanguardas e Os Problemas da Modernidade, entre outros.

Na sua obra poética, reunida em Casa: o seu Desenho, Poesias Completas, A Analogia das Folhas e O Anel Débil, a temática amorosa e a consciência da morte, a reflexão sobre a poesia e sobre o carácter ontológico da linguagem, o reflexo da especulação filosófica heideggeriana e platónica, a tendência para o verso regular constituem algumas das características presentes em A Face Junto ao Vento, retomadas em obras poéticas posteriores.

Como tradutor, Fernando Guimarães trabalhou sobre obras de autores como Lord Byron, Dylan Thomas ou John Keats.

Recebeu, entre outros, o Prémio D. Dinis (1985), o Pen Clube (1988), o Prémio Luís Miguel Nava (2003) e o Grande Prémio de Poesia da APE pelo livro Na Voz de um Nome (2007).

Sito in http://www.infopedia.pt/

Outras moradas: http://paginaliterariadoporto.com/http://alfarrabio.di.uminho.pt/

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