Uma laranja
Redonda para ser
completa. Seguramos
nela e agora cresce
ainda mais em cada
gomo. Assim recebe
o sabor. Também
o dos nossos lábios.
in As Raízes, os Ramos, as Folhas [incluído em Lugar da Palavra, Afrontamento, 2019]
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Estátuas
Apenas voltadas para o arco dos seus corpos
ignoram tudo e os olhos fecham-se, de pedra.
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Tão serena esta rosa,
quando a roseira a escolhe.
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é ao longo dos remos
que te visita a água.
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Esperas receber os frutos
de que se alimenta a árvore.
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Observas na parede
a fenda que a sustenta.
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Espelho: pode faltar ainda
um olhar à imagem que nos vê?
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Sobre a colina
o rosto da terra.
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Ao chegar a morte
o ar respira ainda.
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É nos frutos que existe
o gesto para os colher.
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É esta página quem lê nos teus olhos.
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Se é a mim que me olho, será outro o olhar que me vê.
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Que nunca o que és te imite.
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As árvores crescem agora mais depressa. Procuram os seus frutos.
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Se a poesia é demasiado íntima para que pertença completamente aos outros, também o é para ser só nossa.
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Só quando se encontra partido é que o vidro perde a sua fragilidade.
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Num poema não se deve repetir o que já foi escrito, nem o que nunca será escrito.
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A morte está cansada e assim encontra
no teu corpo a nudez, lugar de outro repouso.
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Ver as coisas não como são, mas da maneira como elas a si mesmas se assemelham.
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Procura conhecer sempre o que existe à tua volta. Depois adormece, para que possas permanecer atento.
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Ao escrever faz com que outros apenas se apercebam dos sintomas menos graves da tua doença.
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Leste com atenção o poema para que ficasse na tua memória. Mas ele esqueceu-se de ti.
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Uma árvore, por maior que seja, não terá tantas folhas se a não olharmos.
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Ninguém deveria esquecer que uma coluna também sustenta o seu peso.
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Aquele cujos olhos são a origem da luz não vê.
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Búzio
Há uma voz a recordar
além da nossa calma
– Murmúrio íntimo do mar
que nos ficou na alma
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Podemos encontrar em tudo o que esperamos
um fruto só que exista na direcção dos ramos.
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Encontramos
nas ondas ao tocarem estas mãos vazias
tudo o que deixamos
na penumbra do dia.
E essa oferenda que chegou da vida
assim há-de ficar
como, em nós mesmos, estava recolhida
a voz do mar.
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O poema nasce
dentro das tuas mãos
sempre que repousa
nelas o teu rosto.
Não é uma canção:
são os lábios apenas
quando despertaram
antes da palavra.
Arquitectura última
que depois se eleva,
porque tu a criaste
para sempre livre.
Talvez uma ave
seja a sua forma
ao passar o voo
que continua o poema.
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Procuramos o amor e a morte em cada rio
para que seja igual ao mar a nossa vida.
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Escuta só a voz
que traz a harmonia
dos rios que prolongam
em nós a poesia.
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Na forma dos lábios
o teu nome chega
– ave que liberta
apenas o voo.
Olhamos a sombra
nele recolhida
como se fosse o início
de qualquer encontro.
E a voz que ficou
sempre mais distante
lembra ainda a curva
que nasceu das asas.
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As folhas não se movem. É o vento
que faz estremecer o nosso olhar.
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Quem são aqueles que ficam ali reunidos e se submetem
a esta ordem que é a da pintura? Estão sentados. Há filas onde avultam →
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Principiamos a ler. O rosto inclina-se. Ainda separadas,
algumas das letras estremeceram. Tudo aquilo que se sente →
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Estão separadas de tudo as lágrimas.
Vê-las-emos→
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Fender aqui a pedra; procurar o que se torna
no seu próprio sentido: este peso. Assim se espera→
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Onde fica guardado o tempo? Posso agora dizer
que é dentro dos olhos. Mesmo que se conservem assim límpidos→
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O rebanho, a aspereza da lã. Recebemo-la nos teares
para a tornar ali macia. Sentimo-la como se envolvesse →
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Sabemos que de todas as sementes
é a mais pesada. Havemos de esperar
por ela. Acolhemo-la e nada →
Fernando Guimarães: Poeta, ensaísta e tradutor português, nascido a 3 de fevereiro de 1928, no Porto. Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas na Universidade de Coimbra, exerceu funções de docência no ensino secundário e de investigação no ensino superior. Assegurou colaboração crítica em jornais e revistas – como Árvore, Bandarra e Estrada Larga (onde publicou Poesia e Formalismo), entre outras – , sendo considerado, pelas suas obras ensaísticas e de teorização sobre as poéticas finisseculares, modernista, de vanguarda, presencista, neorrealista e do fim da modernidade, um dos mais especializados críticos de poesia da atualidade.
Entre 1951 e 1958, co-dirigiu a revista Eros, na qual colaborariam Jorge Nemésio, José Manuel, José Bento, Fernando Echevarria, Vítor Matos e Sá e António José Maldonado, e onde publicou, além de produção teórica e ensaística, alguns dos poemas que viriam, em 1956, a integrar a sua obra de estreia poética, A Face Junto ao Vento.
A sua obra ensaística orienta-se para o estudo de questões teóricas ligadas à estética, e da evolução da poesia portuguesa nos últimos cem anos, a partir de grandes movimentos como o Simbolismo, o Saudosismo ou o Modernismo. Nestes dois domínios publicou: A Poesia da “Presença” e o Aparecimento do Neorrealismo, Linguagem e Ideologia, Simbolismo, Modernismo e Vanguardas e Os Problemas da Modernidade, entre outros.
Na sua obra poética, reunida em Casa: o seu Desenho, Poesias Completas, A Analogia das Folhas e O Anel Débil, a temática amorosa e a consciência da morte, a reflexão sobre a poesia e sobre o carácter ontológico da linguagem, o reflexo da especulação filosófica heideggeriana e platónica, a tendência para o verso regular constituem algumas das características presentes em A Face Junto ao Vento, retomadas em obras poéticas posteriores.
Como tradutor, Fernando Guimarães trabalhou sobre obras de autores como Lord Byron, Dylan Thomas ou John Keats.
Recebeu, entre outros, o Prémio D. Dinis (1985), o Pen Clube (1988), o Prémio Luís Miguel Nava (2003) e o Grande Prémio de Poesia da APE pelo livro Na Voz de um Nome (2007).
Sito in http://www.infopedia.pt/
Outras moradas: http://paginaliterariadoporto.com/ e http://alfarrabio.di.uminho.pt/




















