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Duarte Solano (1889-1915)

Duarte Solano (1889-1915)

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INEVITÁVEL

A aventura da vida, ébrio da sorte,
Vês quasi finda e pões-te a meditar,
A cismar – (ai de ti! com medo à morte!)
No que passou para não mais voltar.

Sentes saudades. Num suspiro forte
Desmaias ao lembrar-te um bem querido
E um momento – (ai de ti! com medo à morte!)
Do qual jamais quiseras ter saído.

Em vão! Se foste à morte condenado,
A hora de acabar nunca te importe.
Que vale recordar? O tempo amado
Por ti passou sem te livrar da morte.

1912 

5.
FORMA

Dizem que não tens alma. No entanto,
Se um coração tivesses no teu peito
Igual ao meu – homem de argila feito,
Feito d’amor – não te queria tanto.

A centelha divina, que é um quebranto
No meu desejo, sempre insatisfeito,
No teu corpo ficou, sonho perfeito
Realizado num supremo encanto.

E insensível talvez, com a pureza
Dum ídolo – contém toda a minha alma
Da tua forma a frigidez das linhas,

Porque os meus sonhos de maior beleza
Trazes na altiva fronte – com a calma
Duma estátua toucada de andorinhas.

Agosto, 1914. 

4.
ADOLESCENTE

Pela primeira vez em frente de um espelho,
Quando ias vestir o teu babeiro curto,
Viste um mistério, no cristal polido e velho,
Como a sombra de um deus que te espreitava a furto.

É que não compreendeste, ao veres como brasas
Teus seios a crescer – moldes de Taça airosa
Onde mal caberia uma boca sequiosa –
Que em ti o coração começa a erguer as asas.

Mas espera: que em breve essa onda de amor
Há-de inundar-te, encher-te os seios como a lua…
– Tua mamã vai dar-te um vestido maior,
E em ti nasce o desejo inquieto de estar nua.

Sobre o teu sonho o deus que te espreitava a medo,
P’ra ver a sua imagem, vai-se debruçar.
Todo o teu corpo é coração; és segredo
Que à noite, muito a sós, gostavas de contar.

E não podendo mais surpreender-te os espelhos,
Nua, cheia de amor, dessa febre sem calma
Que te obriga a tremer da garganta aos joelhos,
Caberás no meu leito e talvez na minha alma.

29 Abril, 1914 

3.
A TUA ÁRVORE

Num plátano gravei o meu nome, enlaçado,
Confundido de amor no teu nome divino,
enamorado, – Que o nosso afecto aí vivesse –
Pensei, enquanto assim lavrava o meu destino.

Tinha a árvore seu quê duma mulher gentil;
Tomava nova casca em cada novo Abril;
E onde a minha inscrição desfez o tempo agreste
Fui mais tarde encontrar, doutra mão, teu louvor;

É por isso que eu sei que a árvore muda de veste
Quando mudas de amor. 

2.
Como de Mirra o corpo embalsamado,
Como desfeito por estranho lume, 

1.
Num dia azul da minha infância – quieta
Manhã de chuva em parque abandonado – 

Duarte Solano Ferreira da Silva nasceu em Penafiel no dia 31 de agosto de 1889 e faleceu no Porto a 16 de dezembro de 1915, vítima de tuberculose. Irmão mais novo do poeta e jornalista Rodrigo Solano, viu-se reconhecido pelos seus pares como um dos poetas mais representativos da sua geração no ambiente cultural portuense nos inícios do século XX. Trabalhou nesta cidade como jornalista em vários periódicos (O Porto, Diário do Norte, Educação Nacional e Jornal de Notícias). Juntamente com João Grave, foi responsável em 1915 pela edição de Fumo, obra sonhada pelo irmão Rodrigo, desaparecido cinco anos antes. Viria a falecer deixando a sua própria produção dispersa por jornais e revistas, acabando por ser compilada por iniciativa de alguns amigos no volume Corôa de Rosas, publicado em 1927. In Duarte Solano, Corôa de Rosas, estudo introdutório, atualização do texto e notas de Francisco Saraiva Fino, Penafiel, Associação dos Amigos da Biblioteca de Penafiel, 2013.

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