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Manoel de Oliveira (1908-2015)

Manoel de Oliveira (1908-2015)

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O REALIZADOR Manoel de Oliveira morreu, esta quinta-feira, aos 106 anos. “Se há uma coisa que nos torna pacíficos, para o bem e para o mal, é a morte”, disse numa entrevista ao JN. O funeral do cineaste realiza-se sexta-feira, às 15:00, na igreja de Cristo Rei, Porto, estando o corpo a partir de hoje, às 18:00, no salão do Convento dos Padres Dominicanos.

De acordo com informação dada à agência Lusa por uma fonte dos Padres Dominicanos, o corpo de Manoel de Oliveira estará a partir de hoje, às 18:00, no salão do Convento dos Padres Dominicanos, ao lado da igreja de Cristo Rei, no Porto.

Depois das 09:30 de sexta-feira, o corpo do cineasta passará para a igreja de Cristo Rei, onde às 15:00 decorre o funeral, seguindo depois para o cemitério de Agramonte.

O Governo decretou dois dias de luto nacional pela morte do cineasta Manoel de Oliveira, hoje e sexta-feira, disse à Lusa fonte do gabinete do primeiro-ministro. No Porto, haverá três dias de luto.

Com um currículo de mais de 40 filmes, Manoel de Oliveira era ele próprio um testemunho da História do último século: quando nasceu no Porto, em 1908, D. Manuel II era rei de Portugal. Quando se estreou no cinema, em “Douro – Fauna Fluvial” (1931), os filmes eram mudos e a preto e branco.

A morte de Manoel de Oliveira foi notícia em todo o mundo, com a imprensa internacional a prestar homenagem ao mais velho cineasta até agora no ativo, com um ritmo de rodagem de um filme por ano.

Desde o espanhol El País, passando pelos franceses Libération e Le Monde, os italianos La Republica e La Stampa, o belga La Libre.be, o checo Blesk, o holandês NU.nl, o sueco HD ou os alemães Augsburger Allgemeine e Die Presse, a morte do realizador português é notícia não só por toda a Europa, mas também do outro lado do Atlântico através dos brasileiros Folha de São Paulo e Estadão e do canadiano La Presse.

Distinguido no ano passado com a Legião de Honra de França, em Serralves, o cineasta disse, na altura, que os seus discursos estão como os novos filmes: “Mais pequenos”. Porém, tinha vários projetos na manga, como um filme sobre as mulheres e as vindimas e a adaptação de “A Ronda da Noite”, de Agustina Bessa-Luís. Na altura falou ainda de outro projeto, “A Igreja do Diabo”, conto de Machado de Assis que pretendia rodar com os brasileiros Lima Duarte e Fernanda Montenegro.

A curta-metragem “O Velho do Restelo”, o seu filme mais recente, que teve estreia mundial no Festival de Veneza, estreou no Cinema Ideal, em Lisboa e, no Porto, no Teatro Rivoli, no âmbito do festival Porto/Post/Doc, que assim assinalou o 106º aniversário do realizador, no passado dia 11 de dezembro.

Quarta-feira, a organização do Figueira Film Art, havia anunciado que o decano dos cineastas fora escolhido para padrinho da 2ª edição do Figueira Filme Art.

Filme póstumo: “Visita ou Memória e Confissões”

“O meu ofício é o cinema e fico orgulhoso quando sou reconhecido”, costumava dizer Manoel de Oliveira Ele que descreveu em tempos a própria longevidade como um capricho da natureza, confessava que para si, fazer cinema era fácil. Discursos é que não. A sua paixão intrínseca pelo cinema era justificada com o facto de este “ser uma invenção extraordinária, a que mais se aproxima da vida”.

Figura incontornável do cinema português era também o mais conhecido internacionalmente. Conseguiu ter uma carreira mais profícua e celebrada após os 75 anos, idade em que a maioria começa a retirar-se da profissão ou a perder a relevância.

De facto, era último realizador cuja carreira começou ainda no cinema mudo com “Douro, Faina Fluvial” (1931) e chegou à atualidade com “O Gebo e a Sombra” (2012). A despedida do cinema deu-se com a curta-metragem «O Velho do Restelo», que estreou em Portugal a 11 de dezembro do ano passado, no dia do seu aniversário.

O cineasta deixa ainda aquele que desejou que fosse o seu filme póstumo: “Visita ou Memória e Confissões”, de caráter autobiográfico, filmado em 1982 e que, por sua vontade explícita, só poderia ser mostrado publicamente após a sua morte. O cineasta tinha então 74 anos.

Figurante aos 19, realizador aos 23

Manoel Cândido Pinto de Oliveira nasceu no dia 11 de dezembro em 1908, no seio de uma família da burguesia industrial do Porto, 13 anos após o nascimento do cinema.

O primeiro contacto com a Sétima Arte foi como ator, quando aos 19 anos fez figuração no filme “Fátima Milagrosa”, de Rino Lupo (1928).

A paixão pelo cinema rivalizava com o gosto pelo atletismo (foi campeão de salto à vara) e pelo automobilismo, modalidade em que conquistou alguns prémios. “Douro, faina Fluvial”, uma curta-metragem documental sobre a vida nas margens do rio Douro, foi o primeiro filme que rodou, então com 23 anos, com uma câmara oferecida pelo pai.

A estreia desse filme aconteceu a 19 de setembro de 1931, no mesmo dia em que morreu Aurélio da Paz dos Reis, considerado o pai do cinema português.

Atualmente, a película é largamente elogiada, quase unanimemente considerada uma obra-prima, mas na altura foi mal recebida pelo público, tal como “Aniki-Bobó”, o seu primeiro filme de ficção, estreado em 1942.

A falta de apoios financeiros levou-o a deixar o cinema até 1956, quando estreou a curta-metragem “O Pintor e a Cidade”, o seu primeiro filme a cores.

“Fazer este filme é como ganhar uma batalha: É difícil. A conjuntura económica trava e fragiliza a montagem financeira do filme”, afirmou, em entrevista concedida em abril de 2014 à revista francesa “Cahiers du Cinéma”, na qual desabafou que em Portugal “há uma grande indiferença pelo que já realizei”.

“Se há uma coisa que nos torna pacíficos, para o bem e para o mal, é a morte”

Numa das muitas entrevistas que concedeu ao JN, Manoel de Oliveira confessava que não gostava muito que se falasse de público quando se aludia aos espetadores dos seus filmes. “Públicos são os candeeiros da rua, as cadeiras do cinema”, ironizou.

“Não aprovo muito que se chame públicos. Não há públicos, há pessoas. Os filmes que faço são os que entendo que devo fazer. É uma coisa pessoal. Gosto do cinema no seu aspeto artístico, não no aspeto comercial. Os filmes artísticos não têm por fim ganhar dinheiro”, disse.

Para o cineasta, “a arte não tem qualquer finalidade útil, mas uma função muito particular, que é a do ensino da condição humana”.

“É preciso guardar esse sentimento humanista, que é fundamental. Aprendemos com o que vivemos, com o que sofremos, mas essa aprendizagem só se completa com o lado artístico”, defendia.

Oliveira confessou também que o momento a que mais gostaria de retornar seria ao da juventude. “Mas quem não gostaria de lá voltar depois de a ter perdido?”, questionou.

E quando lhe perguntaram se a evolução tecnológica o ajudou a fazer melhores filmes, admitiu que “a técnica ajuda, mas pertence à ciência e não à arte”. E, um tanto desassombrado, concluiu: “Se há uma coisa que nos torna pacíficos, para o bem e para o mal, é a morte. Ela é sempre certa e isso dá-nos algum conforto”.

Por Ana Vitória publicado in Jornal de Notícias

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