1.
É impossível pensar
enquanto se ouve
o seu olhar
2.
Os olhos
ficaram lá
a contemplar Laura
3.
Nem Laura
acreditava
no que via
4.
Morrem felizes
as hortênsias
às mãos de Laura
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O Mestre, como era seu costume, chegou cedo ao ateliê para aproveitar a luz fresca do dia. O retrato ia adiantado, mas a menina já mostrava algum cansaço das horas que passava sentada em frente ao artista. O desejo dela era pintar e, se possível, pintar como o seu preceptor. Por isso, ele tinha de apressar a obra, mas sem descuidar do rigor. Captar a serena expressão da aluna através do olhar profundo; realçar a sua fronte alta e luminosa e o rosto de carnação suave e colorida; desenhar o seu elegante porte e o natural repouso das mãos no regaço. A completar a composição, pintaria hortênsias.
Ela chegou com a mãe e, delicadamente, deu os bons dias antes de se sentar na poltrona, não sem antes lançar uma olhadela ao quadro que tinha iniciado nos últimos dias. No corredor, à saída, a mãe voltou a questionar o artista sobre a sua capacidade de expressar, com pinceladas, a beleza da filha. Queria, por tudo neste mundo, que aquele sonho tornado realidade não ficasse deficientemente traduzido na tela. José serenou a mulher. Disse-lhe que pintaria fielmente Laura, tal e qual a via.
De volta ao trabalho, aplicou algumas pinceladas rápidas. Com movimentos contidos, ia sedimentando pasta sobre pasta, cor sobre cor. Conferia relevo à imagem.
No dia seguinte, José chegou ainda mais cedo ao ateliê. Arrumou a tralha dos discípulos e sorriu para o quadro que Laura vinha pintando. Era o retrato inacabado da mãe. Com traços inseguros e cores indefinidas, ainda assim eram percetíveis os lábios cerrados e os olhos redondos da progenitora. Desde o primeiro dia em que chegara, a menina só pensava em retratá-la.
Mal ouviu o chiar da carruagem da Companhia, equilibrou o quadro no cavalete e dirigiu-se à porta. Vinham as duas de braço dado, a conversar, como se fossem duas adolescentes. Riam-se alternadamente.
De novo, a mãe quis falar a sós com o Mestre. De porta aberta, ela de fora, ele encostado ao umbral, voltaram a abordar a obra de ambos. Ela lembrou que lera, há dias, num dos jornais da capital, o elogio que Ramalho Ortigão fizera à sua obra. Teria dito que aquilo que invade, que alicia, que arrebata o carnal temperamento do Mestre seriam as positivas, esplêndidas e radiantes exterioridades do mundo. Laura seria uma delas?
O pintor endireitou o corpo robusto e sadio e abanou a cabeça de cima para baixo, assentindo à observação da mulher. A conversa ficou-se por ali.
Semanas depois, o retrato estava pronto.
O Mestre, com trinta e três anos, barba ruiva, semblante alegre e olhos azuis, ficou por muito tempo a apreciar a obra. Depois, chamou a esposa, os alunos, a mãe e o pai da modelo, e os comparsas do Grupo do Leão. Um a um, foram entrando e apreciando o quadro. Por fim, todos impressionados e mudos, deixaram entrar Laura, que se tinha alheado do retrato, tal era o aborrecimento que lhe tinham causado aquelas sessões de modelo. Mas, quando viu a tela final, estacou. Caiu em si. E, imóvel, com os olhos a embaciar e os lábios entreabertos, murmurou:
— Eu sou muita bonita!
PML


















