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Porto visto e desenhado por Eduardo Salavisa

Porto visto e desenhado por Eduardo Salavisa

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EDUARDO Salavisa nasceu em Lisboa onde vive e trabalha. É professor no ensino secundário e apaixonado por diários gráficos. Publicou recentemente o Caderno do Porto, que diz ser uma cidade muito desenhável, com recantos, ruelas e edifícios com personalidade. Depois destes anos todos a desenhar ainda se considera um desenhador imperfeito. Cada vez mais, enfatiza!

Por Paulo Moreira Lopes

1 – Data de nascimento e naturalidade?

27 de Novembro de 1950. Portuguesa

2 – Atual residência?

Lisboa

3 – Em que outros locais viveu de modo permanente?

Vivi sempre em Lisboa e arredores.

4 – Formação académica?

Licenciatura de Design de Equipamento pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa.

5 – Atividade profissional?

Desenho e tento transmitir esse gosto a outras pessoas.

6 – Em que medida o local onde nasceu e viveu ou vive, influenciou ou influencia a sua vida artística?[1]

Influencia na medida em que apetece sair, ver outros sítios, conhecer outras maneiras de viver.

7 – Quando pensa na cidade do Porto lembra-se imediatamente de quê?

Das pessoas. Especialmente as que conheço.

8 – Já visitou o Porto? Em caso afirmativo, por que motivo e qual a ideia com que ficou da cidade e da região?

Vou ao Porto há muitos anos. Vou lá regularmente. Sempre gostei de visitar esta cidade. E há muitos anos que a desenho. Quando decidimos, eu e a editora (Afrontamento), fazer o livro com desenhos do Porto, mergulhei mais intensamente. E descobri-a. Descobri o que pensava que já sabia.

9 – Endereço na web/blogosfera para o podermos seguir?

Blog: “desenhador do quotidiano”
https://diario-grafico.blogspot.com
Instagram: @salavisaeduardo

 Caderno do Porto

10. Desenhar, independentemente do suporte onde se faça (caderno ou folhas soltas) e dos objectos desenhados, (pessoas, paisagens, objectos, etc.), dá-lhe prazer?

Depende. Há desenhos que faço com calma e tempo. Sentado a beber uma cerveja. Esses dão-me prazer. Outros só dão quando os consigo terminar. São a maioria e são os que gosto mais de fazer (contradição?). São aqueles no meio das pessoas, onde se está a passar muita coisa e tenho que estar muito concentrado. É muito gratificante quando o acabo.

11. Quando se apercebeu ou decidiu que o futuro passaria pelo desenho em diários gráficos?

Foi quando tive que transmitir a adolescentes o gosto de desenhar (tarefa muito difícil). Fui buscar uma tradição de séculos e um ensinamento de quando tive nas Belas Artes Lagoa Henriques como professor. O caderno como diário e também com registo de viagem. O dia a dia é uma viagem.

12. Já sucedeu que desenhar em caderno se tivesse tornado uma obsessão?

Já e não gosto. Fico com um sabor de insatisfação quando não desenho.

13. Também usa o diário gráfico para matar o tempo?

Sim, claro.

14. Pode acontecer que desenhar acabe por prolongar um momento de felicidade (usufruir do espírito do lugar ou da companhia)?

O acto de desenhar não digo, antes pelo contrário (por vezes não somos uma boa companhia). Mas o desenho, sem dúvida. Recorda-nos muito mais do que está no desenho.

15. Se está em viagem e tem pouco tempo para desenhar os lugares, não se sente frustrado por o resultado não retratar tão fielmente (mesmo considerando a normalidade das imperfeições) a realidade?

Normalmente não me interessa retratar o lugar (excepção para os desenhos feitos de propósito para um livro, como foi o caso do Caderno do Porto). Os desenhos registam aquele momento vivido por mim, e não só os minutos que demorei a fazê-lo, mas todo o contexto. É a minha realidade daquele momento, naquele lugar.

16. Se tem tempo, já repetiu o desenho à procura da mínima imperfeição?

É verdade que acontece interromper um desenho e começá-lo de novo. Mas não tem a ver com imperfeição, tem, por exemplo, perceber que há uma coisa que queria introduzir no desenho e percebo que não vou conseguir com aquela escala. Como disse atrás é diferente para desenhos de encomenda. Por exemplo, no livro Caderno do Porto a Casa da Música só à terceira tentativa é que achei satisfatório (acho que foi o único caso). Quero realçar o facto da editora Afrontamento não ter feito o mínimo reparo nem avaliação dos desenhos. Limitou-se a dizer: “anda por onde quiseres e faz como costumas fazer”.

17. Considerando a natureza do desenho (esquisso, rabisco), o qual por si só pode ter constituído um momento de prazer íntimo (resposta à 1.ª pergunta), por que motivo divulgá-lo ao público (online e/ou em livro)?

A divulgação online, assim como a publicação de livro, é uma contradição do Diário Gráfico. Eu faço-o (não publico tudo, claro). Talvez para comunicar com outros autores que também o fazem. Os blogues foram um grande instrumento para se perceber que havia muitas pessoas a fazerem o mesmo. A publicação de livros a partir de desenhos que não foram feitos para serem mostrados (repito que não é o caso do Caderno do Porto) é uma vontade do editor que acha que outras pessoas vão ter interesse em vê-los.

18. Depois destes anos todos a desenhar ainda se considera um desenhador imperfeito?

Cada vez mais.

19. Se respondeu afirmativamente à última pergunta, quer dizer que a opção pelo desenho gráfico foi uma forma de banalizar/normalizar as suas “imperfeições”?

Não é banalizar é não dar importância e assumir que a perfeição (seja lá o que isso fôr) não é o mais importante. Mais importante que estar semelhante nas formas, nas cores, na escala, na quantidade de janelas, é conseguir transmitir a energia daquele lugar e das pessoas que lá passam aquela hora. Conseguir dar a ideia que estivemos lá, que tivemos aquela experiência.

20. Para além dos desenhos do Caderno do Porto, nas outras visitas que fez ao Porto arranjou tempo para desenhar?

Há sempre tempo para desenhar. Tenho desenhos feitos antes e depois do livro. E tenho desenhos, que fiz a pensar no livro, que não entraram.

21. Desenhar, às vezes, é perigoso?

Faço uma referência no livro sobre um caso desses. Numa das “ilhas” da rua Miraflor, ao andar um pouco para trás, tropecei num degrau e caí desamparado. Estamos tão concentrados no que estamos a desenhar que nos descuidamos com tudo o resto.

22. A cidade do Porto tem alguns elementos arquitectónicos que dão mais gosto em desenhar (balizas em frente ao Museu Soares dos Reis, Torre dos Clérigos, gradeamento nas varandas, portas e muros, clarabóias, rosáceas, etc.)?

A cidade do Porto é muito desenhável. Tem recantos, ruelas, edifícios com personalidade, praças, o rio e as suas pontes. Não só as zonas mais concorridas.

23. Confessa que o Coliseu do Porto e a Casa da Música são difíceis de agarrar e que não quer só desenhar monumentos e belos recantos. Quer então dizer que, em certas ocasiões, é por dever (por oposição a prazer) que desenha?

Neste caso, no Caderno do Porto, poderia dizer que sim, visto que foi por encomenda. Mas, por vezes, há desenhos que nos forçamos a fazer, que são um verdadeiro desafio e que, no fim, gostamos de os termos feito. Foram o caso destes.

24. É possível reproduzir os desenhos dos azulejos da fachada da Capela das Almas sem os copiar?

Num desenho de observação não podemos, nem é desejável, reproduzir tudo. Há que fazer uma selecção. E uma interpretação do que observamos (foi uma das lições dos impressionistas).

25. Diz que sempre que vem ao Porto vai visitar as esculturas de Juan Muñoz. É para se rir com elas ou para as desenhar?

Gosto muito daquele espaço. Daquele caminho por baixo das árvores onde aquela escultura parece que foi feita para estar ali. Já a desenhei outras vezes.

26. Um elemento predominante dos desenhos do Caderno do Porto são as gaivotas. Contam-se dezanove gaivotas a voar e três em terra. Presume-se que estas gaivotas já o acompanhem há muito e que seja capaz de as desenhar de olhos fechados?

Nos sítios onde pairam gaivotas há que as desenhar. Como desenhar as pessoas onde elas passam. Às vezes desenho a mesma gaivota em posições diferentes.

27. Acha que o desenho que fez da Pérgola da Foz consegue transmitir ao leitor o prazer que usufruiu quando andou a pé ao longo do mar?

Os desenhos são muito mais importantes e dizem muito mais a quem os fez do que a quem os vê. É assim e não há nada a fazer. Aquele passeio, que já o fiz variadíssimas vezes, é muito, muito agradável. Talvez um leitor que já o tenha feito, o faça recordar. É essa a intenção deste livro de desenhos.

28. Entre a data dos desenhos (outono/inverno) e a publicação do Caderno do Porto conseguiu voltar ao Parque da Cidade e, em caso afirmativo, para o desenhar?

Não consegui 🙁

29. Viaja para desenhar ou desenha enquanto viaja?

Não sei.

[1]A pergunta pressupõe a defesa da teoria do Possibilismo (Geografia Regional ou Determinismo mitigado) de Vidal de La Blache, depois seguida em Portugal por Orlando Ribeiro, de que o meio (paisagem, rios, montanhas, planície, cidade e, acrescentamos nós, linguagem, sotaque, festividades, religião, história) influenciam as opções profissionais e artísticas dos naturais desse lugar.

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