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A súplica e No porto por Constantino Cavafy

A súplica e No porto por Constantino Cavafy

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A SÚPLICA

O mar tragou de um golpe o marinheiro.
Entretanto, a mãe vai acender, insciente,

no altar da Virgem uma vela benta,
que ele volte com bom tempo, e bem.

E atenta fica ao assobiar do vento.
E, enquanto reza, a Imagem que conhece

toda a verdade, escuta triste a prece,
sabendo que seu filho não regressa.

[antes de 1911]

*

NO PORTO

De Tinos nave a este ancoradouro
modesto em Síria, o jovem Emes trouxe
mais seus vinte e oito anos pra aprender
a comerciar a sério com incenso.
Adoeceu na viagem; quase morto
aqui o desembarcaram neste porto,
onde o enterraram. A morrer dizia:
«a minha terra», «os velhos»… Quem sabia
de que cidade ele vinha? Quem eles eram?
Imenso é o mundo das cidades gregas!
E enquanto neste porto ele dorme em paz,
os pais não o sabem morto e que aqui jaz.

[1918]

NOTA DE JORGE DE SENA:

Este poema (A súplica) muito simples (não quanto à forma), e um dos primeiros que Cavafy desejou conservar, tem, para leitores portugueses, o interesse de ser paralelo do célebre O menino da sua mãe, de Fernando Pessoa, primeiro publicado em 1926. Cavafy, no seu n.º 74 (No porto), de 1918, retornou ao tema. Mas já não o coloca num cenário contemporâneo e de religiosidade singela (como Fernando Pessoa fez), e sim, no passado helenístico. Este n.º 3 (A súplica) é um exercício complexo em rimas analógicas que procurámos sugerir, na tradução, pela toância e a aliteração.

in 90 e mais quatro poemas de Constantino Cavafy, Maldoror 2023, tradução, prefácio, comentário e notas de Jorge de Sena.

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