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Ricardo Campos Costa, 1956

Ricardo Campos Costa, 1956

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TAL como o avô e o pai, Ricardo Campos Costa é médico radiologista. Nasceu em 1956, numa família abastada do Porto, com raízes na Póvoa e em Famalicão. Em jovem aprendeu a tocar viola, piano, bateria, experimentou a pintura, o teatro, o desporto. No andebol, foi um dos melhores, internacional ao serviço do FC Porto e da seleção nacional. É dono de dois restaurantes fruto da paixão pelos sabores do Japão. Desassossegado, garante que guardar dinheiro não é modo de vida e que não há vida para lá da morte. Em criança, queria ser padre.

Filho e sobrinho de médicos. Chegou a pensar não seguir a tradição familiar?

_Por acaso, pensei. Com 10, 11 anos passou-me pela cabeça ser padre.

Porquê padre?

_Não nasci numa família muito beata, mas os meus pais eram religiosos e deram-me uma educação tradicional. Muito novo, comecei a ajudar à missa e ser acólito realizava-me. Estudei no Colégio Marista até à quarta classe e a vida de Cristo sempre me seduziu. Mas também era uma oportunidade para me encontrar com os meus amigos.

E mantém a fé?

_Hoje não. Sou agnóstico. Costumo dizer, em tom de brincadeira, que em criança comprei «senhas» de missas que me deram para toda a vida. Continuo a rever-me na doutrina social da Igreja, nos princípios morais do cristianismo, mas deixei de acreditar na transcendência. Não acredito na vida depois da morte.

O que o levou a perder a fé? A formação científica? Uma desilusão com Deus?

_Não, não me zanguei com Deus. Apenas não me sirvo de Deus para explicar desgraças nem o inexplicável. Não é segredo: em 2004, a minha mulher entrou em coma devido a um aneurisma, permanecendo assim há nove anos. Nem nessa altura me zanguei com Deus.

E em miúdo, o que o afastou do sacerdócio?

_As miúdas.

E a família admitiria uma carreira fora da medicina?

_Acho que sim. Dos meus irmãos – e somos quatro – só eu segui medicina. Decidi que queria ser médico quando andava no quinto ano do liceu [atual nono] e, não negando a influência paterna, nunca me senti pressionado. De resto, a medicina não deixa de ser também uma espécie de sacerdócio. Julgo que não basta ser licenciado [em Medicina] para ser médico e nem sempre o melhor médico foi um bom aluno. Ser médico é uma arte. Por vezes, uma palavra pode resolver o problema de um doente. Mas é preciso perceber o doente e saber escolher a palavra.

Como radiologista tem uma palavra fundamental. Mas não tem uma relação direta com o paciente, a relação é mais de médico para médico.

_Isso é mais ou menos verdade. Os radiologistas auxiliam os médicos na resolução dos problemas dos seus doentes, através de meios auxiliares de diagnóstico. Somos, portanto, clínicos da imagem. Um nódulo no fígado pode ter vários significados, cabendo ao radiologista enquadrá-lo no contexto clínico.

Como define um bom radiologista?

_Nem sempre é o que sabe mais, o que estudou mais ou o que tem melhores equipamentos. Um bom radiologista é aquele que resolve da forma mais simples e objetiva o problema do clínico e do doente. Diariamente entram no consultório pessoas muito stressadas porque têm, por exemplo, um diagnóstico de um nódulo no fígado. Um bom radiologista olha e decide na hora se há motivo para alarme ou se deve «descomplicar» imediatamente.

Há, portanto, um trabalho de interpretação, logo, há o erro. Como é que lida com esse perigo terrível?

_A medicina não é uma ciência exata e portanto está sujeita ao erro. Além disso, há sempre uma dose de subjetividade na interpretação dos dados. Neste ponto conta muito a experiência de cada um. Tenho uma história que se passou comigo em 1987, trabalhava em Bordéus como estagiário num hospital de crianças, sob o comando de um conceituado professor de Radiologia Pediátrica. No decurso de uma ecografia a um bebé de 6 meses, encontrei um nódulo. Muito preocupado, pedi auxílio ao assistente que me supervisionava, e que rapidamente percebeu que não se tratava de um nódulo mas apenas de um artefacto provocado por alimentos no estômago. Fiquei, claro, envergonhadíssimo e fui pedir desculpa ao professor. E a lição que ele me deu foi esta: o sucesso é fruto da experiência mas a experiência também se ganha com os insucessos. O que é necessário é ser prudente e, na dúvida, trocar opinião com alguém mais experiente

Quais são os erros de diagnóstico mais comuns?

_Na medicina é necessário distinguir entre erro médico, negligência e má prática. O erro está sempre associado a uma ciência que não é exata – todos, até os melhores, erram. Por exemplo, um microcálculo na vesícula ou num rim pode passar despercebido, com a análise a ser condicionada pelo próprio biótipo do paciente. A atitude negligente e a má prática são outro departamento e têm de ser combatidas sem tréguas. Há, no entanto, um problema adicional, relacionado com a tal procura da competitividade em medicina. A tese «fazer bem, rápido e barato» levar-nos-ia a outras questões que prefiro, por agora, não abordar.

Como reage quando a meio de uma ecografia, com o doente ao lado, deteta um problema muito grave? A expressão altera-se?

_É uma situação que acontece muito nas mamografias. Mas é necessário ter a serenidade suficiente e não deixar que um gesto ou expressão nos traiam.

Os radiologistas ou imagiologistas têm a noção de que a maioria dos pacientes abrem o envelope com o relatório endereçado ao médico mal saem do consultório?

_Eu sei que é assim. E quando o caso é muito grave temos mesmo de os preparar.

No seu caso, informa o doente?

_Depende. Não há dois doentes iguais. De resto, não há doenças, há doentes. Um quisto mamário não é grave mas há quem lide muito mal com a notícia. Portanto, depende dos doentes. Por princípio, tentamos explicar o mínimo possível. E até por ser nossa obrigação e função escrever tudo o que vemos, a explicação ao doente com muito detalhe pode levá-lo a procurar no relatório o que nós não dissemos. O rigor é muito importante e obriga a reflexão. Portanto, é meu dever ser comedido numa primeira abordagem ao doente. Dizer ao doente que vá embora sossegado pode ser uma precipitação. Aprendo muito com a vida, também.

Já cometeu uma «precipitação»?

_Vivi um trauma desses, há mais de vinte anos, com uma mamografia. Quando fiz o exame pareceu-me estar tudo bem, disse à senhora que fosse para casa sossegada e que viesse buscar o relatório dentro de dias. Mas numa análise à lupa encontrei um tumor infraclínico, a aconselhar claramente uma biopsia. Acontece que a senhora ligou à terra e nunca mais se lembrou de levantar o relatório. Só apareceu dois anos depois, para novo exame, já o tumor tinha evoluído.

E quando deteta imediatamente a gravidade de um problema, o radiologista pode na hora submeter o doente a mais exames sem a requisição do médico?

_Em casos que o justifiquem pode, e já o tenho feito. Quando temos a certeza de que o doente precisa de tratamento, não seguimos o procedimento habitual. Nessa altura dizemos ao doente que precisa de fazer mais exames porque com aqueles não podemos garantir-lhe que não tem nada. Não lhe digo que tem um problema, mas que não posso garantir-lhe que não tem.

Há sempre muito stress nas salas de espera dos radiologistas. Quando passa para o outro lado, fica stressado?

_Muito. De dois em dois anos faço uns exames de rotina e fico muito nervoso. Hoje, basicamente, morre-se ou de doença cardiovascular ou de doença oncológica. Na área oncológica, o cancro da próstata nos homens e os cancros do ovário e da mama, nas mulheres, são os mais frequentes. Depois, há os cancros do cólon, do estômago e do pulmão. Tenho muitos motivos para ficar nervoso.

Fuma?

_Deixei de fumar em 1989. Cheguei à conclusão de que só por sorte um fumador não morre devido a causas ligadas ao tabagismo, seja por via das doenças cardiovasculares, seja por via das doenças cancerosas, sobretudo cancro do pulmão. E, portanto, pensei que o melhor seria deixar de fumar antes de me ser diagnosticado um cancro. Depois disso acontecer não vale de nada. Na doença arterial, ainda pode haver alguma recuperação, pois trata-se de uma doença progressiva. Mas depois de diagnosticado um cancro do pulmão de nada vale deixar de fumar. A maioria dos fumadores que conheci e que tiveram cancro do pulmão deixaram de fumar quando já era tarde.

A decisão de deixar de fumar foi influenciada por algum caso particular?

_Foi. Precisamente em 1989, um grande amigo meu e grande fumador – fumava três a quatro maços por dia – pediu-me para lhe fazer um exame porque sentia umas dores. Ainda antes do exame, dizia-me, por brincadeira, que sabia que ia morrer por causa do tabaco, mas que não lhe dava jeito morrer naquela altura, embora preferisse morrer a deixar de fumar. Fiz o exame e descobri um tumor no pulmão. Tive de dar-lhe a notícia e nesse dia ele deixou de fumar. Morreu três meses depois. No dia em que lhe fiz o diagnóstico marquei a data em que deixaria de fumar: 31 de Dezembro de 1989. Cumpri.

Os meios de diagnóstico são, para muitos portugueses, um luxo?

_Quando nos finais dos anos oitenta, trabalhava em França, perguntei a uma conceituada especialista francesa em cancro da mama o que aconselhava em termos de rastreio. E a resposta foi esta: «Queres que te diga o conselho que dou às minhas amigas ou o que estou autorizada a dizer publicamente em termos de saúde pública?» E lá me foi explicando que os programas de rastreio não só custam muito dinheiro como exigem do sistema público uma resposta a todas as questões que vão levantar. Ora na altura, e ao contrário do que acontece atualmente, o sistema público francês ainda não tinha essa capacidade de resposta.

E em Portugal?

_Tendo em conta o dinheiro disponível para a saúde, estamos muito bem posicionados no acesso aos meios auxiliares de diagnóstico. Temo no entanto que, com a crise financeira, esse quadro se altere e a questão passe a ser pertinente.

É, portanto, um luxo?

_Alguns tipos de tratamento custam uma fortuna – em Portugal e noutros países. Estou a lembrar-me das modernas terapêuticas biológicas. E pergunto: temos dinheiro? Não temos. É uma injustiça as pessoas não poderem tratar-se? Não sei.

Não sabe?

_Nãos sei se é justo ou injusto. O que não é justo é não falarmos a verdade. Quem não tem dinheiro não tem vícios, mas que os responsáveis políticos assumam as nossas limitações. Se há apenas dinheiro para a medicina dos anos oitenta façamos a medicina dos anos oitenta. Prefiro ver praticar a boa medicina dos anos oitenta do que a má prática da medicina do século xxi, no âmbito de uma política de low-cost. Num congresso sobre economia e medicina, perguntei aos presentes – financeiros encartados, defensores da competitividade na medicina – qual deles levaria um filho ao pediatra mais barato e que fosse o mais rápido na consulta? Nenhum respondeu nem responderá. Competitividade significa fazer melhor, mais barato e mais depressa. Mas na medicina a avaliação da qualidade nem sempre é feita e, portanto, restam as outras duas vertentes – o médico mais barato e que mais depressa vê o doente é o médico competitivo. Não tenhamos dúvidas: esta política vai exponenciar o erro na medicina. Por isso, estou muito preocupado com o discurso financeiro puro e duro. Defendo a otimização dos recursos financeiros e que cada parte assuma com clareza as respetivas responsabilidades.

Que vai sobrar do Serviço Nacional de Saúde [SNS]?

_Receio que voltemos aos anos setenta: medicina low-cost para os pobres e medicina no estrangeiro para os ricos. E digo no estrangeiro porque poderemos até encontrar em Portugal a medicina teórica mas a disponibilidade de medicamentos inovadores e o acesso a novas tecnologias pode vir a regredir. Sou um defensor do SNS. É um pilar fundamental da estabilidade e justiça sociais. Ao contrário do que tantos dizem, em Portugal fazem-se milagres no SNS, somos um case study. E orgulho-me muito do povo português. Não somos vadios e preguiçosos, já trabalhei em França, na Alemanha, em Inglaterra, nos Estados Unidos, e em todo o lado damos lições de trabalho. Falta-nos educação, sentido ético, líderes, organização, mas não nos falta capacidade de trabalho. É claro, se pensarmos nos padrões de medicina do início dos anos oitenta, tiravam-se já dois zeros ao orçamento da saúde. Mas então, vamos lá dizer que medicina queremos: a dos anos oitenta, a dos anos noventa? Digam.

Que retrato faz da radiologia em Portugal.

_Quando entrei na radiologia a sério, no início doa anos oitenta, dizia em tom de brincadeira que era um felizardo porque lia uma revista da especialidade em dois minutos. Tínhamos acesso a muito pouco do que lá lia e, portanto, era como se não existisse. A partir do ano 2000, fazemos praticamente tudo o que de melhor se faz lá fora. Mas tenho muitas dúvidas sobre o que vai acontecer nos próximos anos. Basta dizer que a verba que alguns subsistemas de saúde pagam por exame leva a que consultórios paguem ao médico radiologista menos do que aquilo que pagam às empresas que datilografam os relatórios. E esta diminuição na margem é perigosíssima. Não havendo margem que nos permita investir na renovação do parque de máquinas cria-se o perigo da estagnação. A renovação do parque é um grande problema.

Em máquinas, que verba tem investida?

_Alguns milhões de euros.

Já tem sucessor?

_Talvez uma sobrinha que acaba este ano Medicina, mas ao contrário do que diria há dez anos, não faço grande questão de ter um sucessor médico. Tenho um filho a terminar o 12.º ano quer seguir Gestão Industrial, a minha filha está ligada às artes e ao teatro, e o mais novo ainda é muito miúdo.

O consultório comemorou este ano setenta anos. Foi inaugurado em 1943 pelo irmão do seu pai. Consigo no comando, foram pioneiros em Portugal na utilização, entre outras técnicas, da radiologia computorizada. Como aparece essa tendência familiar para a radiologia, uma especialidade tão pouco vulgar no início dos anos quarenta?

_A minha família tem origem na Póvoa de Varzim, do lado paterno, e em Famalicão, do lado materno. O meu avô paterno era licenciado em Farmácia e foi empresário de cinema. O meu bisavô materno foi fundador da Boa Reguladora, a primeira fábrica de relógios da Península Ibérica. O meu tio e o meu pai aventuraram-se na radiologia e o meu tio montou consultório no Porto. A radiologia era uma especialidade pouco comum até porque já na altura exigia grandes investimentos.

Seguiu as pisadas familiares mas distinguiu-se também como andebolista. Como descobriu o andebol?

_A minha mãe esforçou-se para que os filhos participassem em muitas atividades. Como tocava muito bem piano, comecei com a música e aprendi a tocar piano, viola e bateria. Depois, quis que eu fizesse teatro e, mais tarde, foi a vez da pintura. Devo dizer que em nenhuma dessas atividades fui muito bem-sucedido, houve sempre mais suor do que talento. Quando fiz 12 anos, e para que aperfeiçoasse o domínio da língua francesa, mandou-me para França, sozinho, de avião. Durante sete semanas, vivi com um casal francês, ambos tipógrafos, ligados ao Maio de 68. Lembro-me bem das conversas que lhes ouvia, tanto mais que estávamos no ano da invasão da Checoslováquia pelos soviéticos. Nem sequer para o desporto tinha grande talento porque era muito alto, gordinho, bastante desajeitado. Mas fazia vela, ginástica e, com o meu pai, pesca submarina. Com 14 anos, fui desafiado para o andebol por uns amigos que jogavam no CDUP [Centro Desportivo Universitário do Porto]. E fui, mas na altura não passava de mais uma atividade.

Mas para o andebol tinha jeito e até talento. Chegou a interessar ao Barcelona.

_No início não tinha grande jeito. No entanto, aprendi que com trabalho e esforço conseguimos aquilo que não parecia estar no nosso destino. Sendo o mais alto, acabei por ter muita sorte porque, à revelia das regras de então, o treinador deu-me a posição de pivot. Fui o primeiro pivot alto em Portugal e, provavelmente, a nível internacional. E fomos campeões logo no primeiro ano.

Depois da convocação para a seleção de esperanças, o FC Porto reparou em si. Pensou que poderia chegar a profissional?

_Não pensava em termos profissionais e, por isso, não me entusiasmei muito com o namoro do FC Porto. Estava-se em 1975 e, como sempre, repartia-me por vários interesses, tinha as minhas aulas na faculdade, era membro da direção da Associação de Estudantes da Faculdade de Medicina do Porto, a primeira associação de estudantes não comunista – vivia-se uma época muito intensa e o andebol era só mais uma atividade.

O que o levou então a aceitar o convite do FC Porto?

_Apesar de ter nascido numa família burguesa sem grandes dificuldades económicas, precisava de dinheiro e o meu pai era muito austero, muito parcimonioso com o dinheiro. Os meus amigos pertenciam a um estrato social burguês e eu queria acompanhá-los e aí esbarrava no meu pai. Por isso aproveitei uma lei da altura que permitia a um aluno do ensino superior com prática de um desporto federado lecionar Educação Física em escolas secundárias. E eu concorri, mas o meu pai ficou furioso e propôs-me trabalho no consultório, como ajudante. Acontece que nos meses de exame, porque para estudar, tinha de faltar ao trabalho, não me dava nem um tostão. Aí tivemos uma pega grande, e eu decidi aceitar o convite do FC Porto. Tinha 20 anos, joguei até 1987 e nunca mais pedi um tostão ao meu pai.

E foi ganhar mais do que recebia no consultório…

_Muito mais. Dois contos e quinhentos. E quando deixei de jogar já ganhava mais do que como interno de especialidade de Radiologia.

Para além de ter deixado de ser benfiquista em que mais o FC Porto mudou a sua vida?

_Deixei de ser benfiquista porque percebi o que se passava, a aldrabice que lhes dava as vitórias. O FC Porto ia a Lisboa, jogar com Benfica ou com o Sporting, e no pavilhão até com garrafas de urina levávamos. Eles vinham ao Porto e nada podia acontecer-lhes. E se fosse só isso: nos jogos importantes arranjavam árbitros convenientes e por muito boa equipa que o FC Porto tivesse – e teve várias – nunca conseguiu ser campeão nacional.

Entretanto, já se vingaram…

_Vingámo-nos ganhando honestamente. Eles dizem que comprámos árbitros apenas porque foi isso que fizeram toda a vida. Desconhecem outros meios, que há outra maneira de ganhar. Senti-o na pele. Gato gordo não caça rato e o problema do Benfica e do Sporting é esse – são gatos gordos, cheios de soberba, mesmo sabendo que muitas vezes ganharam sem mérito. Nós, gatos magros, tivemos de lutar e conseguimos. O último campeonato do Benfica foi conseguido com uma jogada sujíssima, uma provocação ao Hulk e ao Sapunaru inaceitável. Com jogadas destas, o Benfica ainda vai sofrer muito.

Que outras mudanças o contrato com o FC Porto provocou?

_Jogar no FC Porto representou uma mudança completa na minha vida. No CDUP treinava três vezes por semana, no FC Porto, chegava por vezes a quatro horas repartidas por dois treinos diários. O primeiro ano foi difícil mas depois engatei e cheguei à seleção nacional.

Que efeito teve esse sucesso todo no seu pai?

_Um dia, já eu era formado, confessou: «Pensei que não irias fazer nada na vida. Foste o filho em quem depositei menos esperança e afinal enganei-me muito a teu respeito.»

Deixa o andebol para tomar conta do consultório?

_Sim, nessa altura, 1988, comprei o consultório ao meu pai, dei-lhe um grande impulso começando por convidar alguns colegas que ainda hoje me acompanham. Nessa altura, tive mesmo de abandonar o andebol.

É proprietário de dois restaurantes e é apaixonado por sushi. Quando descobriu o gosto pelo negócio da restauração?

_Quando em 1991 experimentei em Düsseldorf, pela primeira vez, comida japonesa, jurei que haveria de abrir no Porto um restaurante de sushi. Na altura, em Portugal só existia um e era em Cascais. Mas, pouco tempo depois, abriu um no Porto e eu perdi a ideia. Até que, no início de 2007, um sushiman meu conhecido me contactou para saber se eu conhecia um local onde ele pudesse trabalhar. Conversámos acerca das expetativas que tinha e resolvi contratá-lo por um ano. Em último caso, trabalharia em minha casa e montaríamos um negócio de take-away. Uns tempos antes, tinha andado nuns cursos de cozinha e começava assim uma nova fase da minha vida, o gosto pela culinária. Após a contratação, logo me lembrei que um amigo meu estava a pensar vender um restaurante na praia do Ourigo. Encontrei-me com ele numa manhã, ele estava de facto interessado em vender, e fechámos negócio. Foi seguramente o processo negocial mais rápido da minha vida e provavelmente da dele. Portanto, já tinha um espaço e um sushiman. Faltava-me um chef. Lembrei-me do António Vieira, que aceitou o desafio. Juntos, escolhemos o nome: Shis.

Shis de raio X?

_Exatamente, em versão oriental.

Recentemente apostou na Baixa da cidade, abrindo um novo restaurante. O que o faz correr?

_A minha felicidade não é ter dinheiro. Está sim na vida que tenho. Por vezes, confesso, é um pouco desassossegada, mas não nasci para ter dinheiro guardado. Acho mesmo que pode trazer até preocupação e, por vezes, desgraça. Foi por causa de ter dinheiro guardado que de repente me vi com uma fábrica de camisas às costas.

Então?

_A fábrica trabalha apenas para exportação e pertencia a um grande amigo meu a quem emprestei dinheiro para salvar o negócio. Sabendo que não arranjaria tão cedo maneira de me pagar, propôs-me sociedade transformando a dívida em capital. O problema é que eu aceitei e a partir desse momento os bancos caíram-me em cima, pedindo que fosse avalista. A ponto de ver-me obrigado a pedir a insolvência para estancar as perdas e arcando com dívidas que ainda hoje estou a pagar. Depois do processo de insolvência, converti os créditos em capital, apostei mais algum dinheiro e apostei nas pequenas produções de alta qualidade. Abri recentemente na Baixa uma loja de camisas feitas por medida e costumo dizer por brincadeira que tenho a fábrica de camisas mais cara do mundo.

 

BIOGRAFIA

Na cidade do Porto, o nome Campos Costa significa radiologia. Lançado em julho, o livro comemorativo dos setenta anos do consultório explica a razão do sucesso, iniciado com José Alfredo Campos Costa e prosseguido pelo irmão mais novo, Amadeu, pai de Ricardo. Sob a direção do filho, o consultório tornou-se pioneiro na utilização de novas técnicas, entre elas a radiologia computorizada. Ricardo Campos Costa licenciou-se em Medicina na Faculdade de Medicina do Porto, em 1979. Especializou-se em radiologia no Hospital de São João, no Porto, foi assistente da Faculdade de Medicina do Porto e médico assistente hospitalar no São João. Em 1996 abandonou a função pública. Sócio-gerente do Restaurante Shis e do Restaurante Clérigos, dono e administrador de uma fábrica de camisas para exportação que lhe caiu nos braços, lança do alto do metro e noventa e cinco o lema de vida, pragmático: «Gato gordo não caça ratos.»

Texto de Alexandra Tavares Teles e fotografia de Leonel de Castro/Global Imagens in http://www.jn.pt/revistas/nm/

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