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Dicionário de verdades verdadeiras – José de Sousa Bandeira (1789-1861)

Dicionário de verdades verdadeiras – José de Sousa Bandeira (1789-1861)

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“Abortar: no idioma das Imprensas, vale o mesmo que produzir” (n. 7, 11/1/36).

“Absurdo: é tudo aquilo que os nossos Antagonistas avançam contra a nossa opinião, ou além da nossa compreensão” (n. 7, 11/1/36).

“Aleijar: na Literatura, vale o mesmo que = traduzir” (n. 8, 12/1/36).

“Algodão: General Americano, que ganhou a famosa batalha da Indústria, contra o General Linho Europeu”. (n. 8, 12/1/36).

“Amazona: Mulher, que não cuida em cozinhar, nem coser, nem remendar a roupa do Marido, e mais dos filhos”. (n. 8, 12/1/36).

“Ambiguidade: Ciência de Diplomacia. § O mais necessário ingrediente dos Tratados entre as Nações – das Leis do Poder absoluto – das Notas Diplomáticas – dos Processos – das Sentenças dos Juízes, etc, etc.” (n. 9, 13/1/36).

“Antecâmara: Purgatório dos Pretendentes.” (n. 9, 13/1/36)

“Aposentadoria: Para narrar tudo o que se compreendia, antes da Constituição, nesta palavrinha só, era necessário um volume.” (n. 10, 14/1/36)

“Autor: Nome que se dá a quem arremeda uma Obra com retalhos velhos: aliás não haveria tantos autores, visto que não aparece cousa nova”. (n. 11, 15/1/36)

“Aventureiro: Homem louvável, quando é feliz, e punível, quando é infeliz”. (n. 11, 15/1/36)

“Avós: Utensílios de aparato para muitos indivíduos. § Gabar-se de seus Avós, é ir buscar nas raízes o fruto, que deve estar nos ramos da árvore. § É o orgulho de quem não tem outra coisa”. (n. 11, 15/1/36)

“Axioma: Cada um chama assim a sua Opinião.” (n. 11, 15/1/36)

“Ásia: País onde se tem levado a enterrar todo o ouro, e prata, que se tem desenterrado das Américas”. (n. 11, 15/1/36)

“Banco: Espécie d’Alquimia, que muda tiras de papel em ouro”.  (n. 15, 20/1/36)

“Bárbaros: Nome que damos aos Povos, que desejamos conquistar, e que eles também nos aplicam”. (n. 15, 20/1/36)

“Baioneta: Argumento sem réplica. § Punhal com graduação, e patente militar.” (n. 15, 20/1/36)

“Biblioteca: Fruta como a alcachofra: muita folha inútil, e pouco que aproveitar”. (n. 16, 21/1/36)

“Bonachão: Sobrenome dos Reis de quem nada se pode dizer.” (n. 16, 21/1/36)

“Brasil: É um filho que sendo maior de 25 anos, casando, tendo descendência, e bens de seu, se viu obrigado a ir viver debaixo de outro teto, e fundar outra família”. (n. 16, 21/1/36)

“Cabana: Habitação rústica, que os Poetas, e os Filósofos gabam muito, porém nunca por ela deixam as Cidades”. (n. 23, 30/1/36)

“Canalha: Aqueles que trabalham!” [no sentido “da canalha”, massa popular] (n. 23, 30/1/36)

“Candidato: O que pretende alguma cousa; e por esta regra todos no mundo somos candidatos. § Homem que hoje se curva, para se empertigar amanhã”. (n. 25, 3/2/36)

“Casar: O mesmo que = Lá o vereis”. (n. 26, 4/2/36)

“Cavalo: Animal que poupa aos pobres o levar às costas os ricos, e poderosos, e puxar pelas carruagens”. (n. 27, 5/2/36)

“Celibatário: Homem, que não sustenta mulher, nem filhos.” (n. 27, 5/2/36)

“Cemitério: República de verdadeira igualdade”. (n. 27, 5/2/36)

“Censura: Arte de esmagar os ovos no ninho, a fim de não produzir pintos”. (n. 27, 5/2/36)

“Clássico: Adjetivo, que muda de sítio de cem em cem anos”. (n. 28, 6/2/36)

“Clemente: Nome que ficou para alcunha de alguns Papas”. (n. 28, 6/2/36)

“Colônia: Espécie de Gatinho, que custa a criar, e depois arranha”. (n. 35, 15/2/36)

“Comenda: Fruta como a Avelã, que dá muito óleo, porém a maior parte delas não tem nada dentro, e são pura aparência”. (n. 35, 15/2/36)

“Comunidade: Certo número de Pessoas, que se ajuntam sem se conhecerem, vivem sem se amarem, e morrem sem se condoerem”. (n. 35, 15/2/36)

“Constituição: A melhor é aquela que se observa. § Chapéu de sol dos Corcundas, que eles abrem quando chove, e que fecham quando faz bom tempo”. (n. 40, 22/2/36)

“Contradança: Espécie de escaramuça entre duas guerrilhas de diferente sexo”. (n. 41, 23/2/36)

“Convidado: O mesmo que abastado, porque aos necessitados ninguém convida”. (n. 41, 23/2/36)

“Dentista: Homem que para ter o que comer, tira a muitos o trabalho de mastigar”. (n. 51, 5/3/36)

“Despotismo: Vício para o qual geralmente propende o homem na Sociedade, desde o Imperante, até ao Carcereiro, e sem excetuar todas as Classes médias, o Superior, o Magistrado, o chefe militar, o Pai de famílias, o Mestre; sempre o mais forte pende para o Despotismo sobre o mais fraco. E nas classes ínfimas se desenvolve esta paixão com menos vergonha”. (n. 51, 5/3/36)

“Despovoar: O mesmo que fundar Colônias, ou proteger o Comércio, com prejuízo da Lavoura”. (n. 51, 5/3/36)

“Devassa/Devasso: No primeiro significa cousa oculta; e no masculino, cousa patente. Forte contradição!” (n. 51, 5/3/36)

“Devorar: sinal infalível de comer à custa alheia”. (n. 51, 5/3/36)

“Desembargo do Paço: Era este Tribunal uma espécie de manjedoura, a qual se prendiam todos os dias quatro Desembargadores esfalfados, que apenas despachavam quatro Petições, e mandavam passar quatro Provisões”. (n. 51, 5/3/36)

“Desigualdade: É o necessário efeito da indústria, e do trabalho”. (n. 62, 18/3/36)

“Diplomático: Impostor privilegiado, pago para espiar, intrigar, e enganar o Governo, junto a quem reside: e que depois é premiado na proporção de sua deficiência em honra, e boa fé”. (n. 62, 18/3/36)

“Digestão: Faculdade do estômago a respeito dos alimentos; e do cérebro, a respeito dos discursos. Há homens, que podem digerir um Boi, e não digerem meia folha impressa!”. (n. 62, 18/3/36)

“Dilúvio: Deus prometeu a Noé não inundar a Terra com outro Dilúvio d’água; mas bem se vê que nunca fez tal promessa a respeito de Dilúvio de Periódicos, de aluvião de Filósofos de Cacaracá, e de enxurrada de Políticos de algibeira como relógios”. (n. 62, 18/3/36)

“Dinastia: Famílias reinantes, das quais um antepassado, ou foi escolhido pelo Povo, ou se apoderou do Trono.” (n. 62, 18/3/36)

“Dinheiro: Supremo dispensador d’honras, graças, mercês, e comodidades. Dá ciência infusa, e confusa: faz a guerra, e a paz; ganha batalhas; comunica graça, e formosura; disfarça vícios, e finge virtudes; só não influi na saúde, e na vida. Máquina poderosíssima, que tem em contínuo movimento o mundo moral. Sinônimo de irresistível. Substituto do Mundo, Diabo, e Carne, e seu Lugar Tenente. O Contraste das Excelências, das Senhorias, do talento, da representação, e do respeito. Tem a particularidade de fazer bonitas as feias, quando ele pertence às mulheres”. (n. 62, 18/3/36)

“Direito: labirinto, em que se perdem quantos entram nele, e só acham saída saltando pelas taipas, como cada um pode”. (n. 62, 18/3/36)

“Direito de petição: Pretexto banal, com que todas as Assembleias Legislativas usurpam as funções Executivas, e Judiciárias. Em vez de se dirigirem tão somente aos interesses gerais, se intrometem na discussão dos interesses particulares, e tomam conhecimento de todos os detalhes da administração, quando, a ser esta ingerência tolerável n’algum caso, seria unicamente aquele, em que se dissesse lesa, ou a segurança pessoal, ou o direito da eleição, ou a liberdade de Consciência, e de Imprensa”. (n. 66, 23/3/36)

“Direitos do Homem: Princípios consagrados pelas Leis, proclamados com alta voz, e da mesma sorte violados”. (n. 66, 23/3/36)

“Dívida Nacional: É penhorar a propriedade dos vindouros para governar mais à vontade (e muitas vezes para destruir) os contemporâneos”. (n. 66, 23/3/36)

“Divórcio: Se estivesse em prática, quando há motivo justo, seriam mais felizes os matrimônios; porque da confiança da impunidade nasce o abuso”. (n. 66, 23/3/36)

“Eleição: Tem sua dificuldade, e grande”. (n. 83, 16/4/36)

“Eloquência: Move mais do que a razão, e a justiça”. (n. 83, 16/4/36)

“Embaixador: Espião Titular. Desde que há Correios estabelecidos, parece que uma folha de papel é o melhor Embaixador.” (n. 83, 16/4/36)

“Enigmático: Estilo Diplomático, e próprio de várias ciências.” (n. 84, 18/4/36)

“Enobrecer: Ter muito dinheiro”. (n. 84, 18/4/36)

“Enviuvar: Problema, que para uns anuncia felicidade, e para outros desgraça. Isto prova, que as circunstâncias são as que determinam a essência das cousas”. (n. 87, 21/4/36)

“Episcopado: É o poder, a pompa, e a vaidade dos que juram renunciar a estas três cousas”. (n. 87, 21/4/36)

“Equidade: Lei de Direito Natural, que está escrita no coração do homem, ainda que coberta com as paixões”. (n. 87, 21/4/36)

“Erudição: Ciência de Livreiro, porém amena”. (n. 87, 21/4/36)

“Erudito: Homem de boa memória, que tem lido muitos livros, e retido ao menos os nomes dos autores”. (n. 87, 21/4/36)

“Escabeche: Molho, em que se costuma conservar o peixe, e as Proclamações velhas, para usar delas quando se oferece ocasião.” (n. 87, 21/4/36)

“Escolástico: Da escola… E mais nada.” (n. 92, 27/4/36)

“Escritor: tem havido ocasiões, em que este substantivo tem sido Sinônimo de Copista, Adulador, Maldizente, Velhaco, e até de Periodiqueiro”. (n. 92, 27/4/36)

“Escrutínio: tendo habilidade não é difícil o fazê-lo”. (n. 92, 27/4/36)

“Espírito de partido: Espécie de vitríolo mental, que guardamos para atirar com ele aos outros, e que entretanto vai irritando, corroendo, envenenando o nosso mesmo espírito”. (n. 99, 6/5/36)

“Essência: O chiste está em a saber distinguir dos seus acidentes, e vice-versa!” (n. 106, 17/5/36)

“Estacar: É a pousada, onde costumam parar os que caminham da Teoria para a Prática”. (n. 106, 17/5/36)

“Estadista: Hoje o é qualquer Sapateiro remendão. Louvado seja Deus!” (n. 106, 17/5/36)

“Estado: O Estado está em perigo! – Fórmula solene de que se serve um governo doble, quando quer calcar as Leis. O Homem d’Estado é o que o sabe desfrutar melhor”. (n. 106, 17/5/36)

“Estanco: “Salteador legal da indústria”. (n. 106, 17/5/36)

“Estável: Não pode ser cousa deste mundo!”. (n. 106, 17/5/36)

“Eternidade: Assombro da imaginação!!! Quem pensa nela sem horror?” (n. 112, 25/5/36)

“Etíope: Homem de cor mais escura, que a nossa, e que tem tanta diferença de nós, como as galinhas pretas das brancas.” (n. 112, 25/5/36)

“Eumênides: As Fúrias do Inferno. Os que por lá tem andado, dizem que são uma Sogra, e duas Cunhadas”. (n. 112, 25/5/36)

“Europa: A terceira Figura, que tem representado na Farsa do Mundo Político, logo que as duas primeiras se recolheram aos bastidores; e que vai dando lugar à quarta, para entrar na Cena”. (n. 112, 25/5/36)

“Eva: Mulher feliz, que não teve Sogra. Dela descendem os brancos, e gente de bem; os pretos e os pobres, duvida-se!!!”. (n. 112, 25/5/36)

“Evaporação: Movimento insensível, pelo qual perdem as cousas o espírito, o gosto, e a graça. As Doutrinas, os Livros, e os Poemas são tão evaporáveis, que passando um certo tempo, ficam reduzidos a uma espécie de = Caput mortuum =.” (n. 112, 25/5/36)

“Exaltado: Espécie de energúmeno mais fatal do que útil ao partido que serve”. (n. 112, 25/5/36)

“Exército: São as mãos da República. Quando obra de acordo com a cabeça, e obedece a seus preceitos, todo o corpo é forte. § É um instrumento cego de um Poder ainda mais cego. § É uma reunião de homens atirando uns contra os outros, matando-se sem se conhecerem, e às vezes em defesa d’uma Pessoa que ainda conhecem menos”. (n. 116, 30/5/36)

“Esforço: Louvável prontidão de levantar o lenço ou o leque a uma Senhora”. (n. 116, 30/5/36)

“Experiência: É a ignorância apalpando, como quem busca um caminho às escuras”. (n. 116, 30/5/36)

“Facção: Espécie de cegueira, de que Deus nos livre. – É todo o partido, que não tem o Poder nas mãos”. (n. 117, 31/5/36)

“Fada: Mulher, que dava, e não pedia. Isso acabou já!” (n. 117, 31/5/36)

“Fastio: Doença, que não ataca os pobres”. (n. 121, 6/6/36)

“Federação: Cousa que principia cheirando mal”. (n. 121, 6/6/36)

“Fênix: Ave, que se não acha nas Casas de Pasto, no ar, nem nos currais. Vive só nas Fábulas, nos Panegíricos, e nos Discursos fastidiosos”. (n. 125, 11/6/36)

“Filantropia: Nome Grego, que veio desterrar a Caridade, e o Amor do Próximo”. (n. 125, 11/6/36)

“Filosofia: O amor, e a prática da verdade. Vejam lá se será rara!”. (n. 125, 11/6/36)

“Fita: Pequeno pedaço de tecido, com que se tem feito no mundo grandes milagres”. (n. 129, 16/6/36)

“Formosa: Se for moça, aliás…” (n. 129, 16/6/36)

“Frades: Homens que se vestiam pela cabeça, como as mulheres. Foram utilíssimos quando religiosos.” (n. 129, 16/6/36)

“Freiras: Coitadas, se enganadas!” (n. 132, 20/6/36)

“Funil: Instrumento que tem a entrada larga, e a saída estreita; neste sentido se devem considerar as Cadeias, os Contratos, as Demandas, os Casamentos, os Amancebamentos, as Finanças, etc. Veja-se quantos funis, de que só se pode sair esmagado!” (n. 132, 20/6/36)

“Fúria: Suponho que seria alguma mulher zelosa, ou desprezada, ou irada; de todos os modos ela sempre era mulher.” (n. 132, 20/6/36)

“Furtar: Ciência que está mais adiantada, que nenhuma outra. Aplica-se este nome ao furtar pouco, e com risco; aos grandes furtos dá-se-lhes outro nome: aos maiores se chama conquista, presa, etc.” (n. 132, 20/6/36)

“Glosa: Inseto, que ataca, e destrói os Livros de Leis.” (n. 132, 20/6/36)

“Governar: Cousa mais difícil, e trabalhosa, do que obedecer; e sem embargo todos antes querem governar do que obedecer. De que procederá isto?” (n. 132, 20/6/36)

“Gozo: Alimento do espírito, que tem muita propensão a ser aguado, como o leite e o vinho”. (n. 132, 20/6/36)

“Gravidade: Seriedade, severidade: os Burros paneleiros são os animais, que mostram mais gravidade no seu aspecto.” (n. 135, 23/6/36)

“Grécia: País onde mais, e maiores extravagâncias se praticaram antigamente em Política, e Moral”. (n. 135, 23/6/36)

“Grego: Idioma, que em todas as partes se ensina, e ninguém o sabe”. (n. 135, 23/6/36)

“Guerra: Desavença de poucos, disputada entre muitos, na qual uma grande parte perde a vida sem saber porque, nem para que”. (n. 135, 23/6/36)

“Herói: Carniceiro por junto. – A maior parte deles, não teve mais mérito do que esse que avultou no capricho dos homens, e todos foram filhos das circunstâncias”. (n. 135, 23/6/36)

“História: Lida com boa crítica, quem não conhece o que é História? Bulhas, assoadas, desordens, recapitulação de grandes crimes. – Calendários dos Reis, que não achando materiais na felicidade dos Povos, trata só de recordar os crimes, e as misérias humanas. § Palavra de que se tem abusado tanto, que a fazem sinônimo de conto.” (n. 136, 25/6/36)

“Historiador: pintor de perspectiva. – O que escreve a história presente, não pode escrever a verdade. O que escreve a história do passado tem muitas dificuldades para saber a verdade”. (n. 136, 25/6/36)

“Homem: O Bichinho mais manhoso, mais inconsequente, e mais incompreensível de quantos sustenta a terra, e o que mais abusa dos privilégios, que obteve do seu Criador. § Homem de bem: aquele que é do nosso partido. Homem feliz neste mundo: aquele, que tem alguma cousa de tolo, e pouco de honrado; porque só assim é que pode evitar o remorso.” (n. 136, 25/6/36)

“Inovar: Delicadíssima, dificílima, e perigosíssima matéria”. (n. 150, 13/7/36)

“Inumerável: É a lista, ou Catálogo dos Cavalheiros, dos Comendadores, dos Oficiais Generais, e dos Bacharéis em Portugal. Em Inglaterra, é a recopilação dos impostos, e tributos que paga o Povo”. (n. 151, 14/7/36)

“Interceptar: Palavra própria das Administrações de Correios”. (n. 151, 14/7/36)

“Junta: Ajuntamento de Homens, e de Bois! É preciso tomar muito sentido para que não haja engano neste objeto.” (n. 158, 22/7/36)

“Jurisconsulto: Homem que faz às Leis o mesmo que o Sapateiro faz ao couro: estende, dobra, e bate, até ficarem à medida dos seus desejos.” (n. 158, 22/7/36)

“Jurisprudência: À primeira vista parece que significa prudência no Juiz: pois não é isso. É a ciência de sair do Labirinto pela porta da Autoridade”. (n. 169, 6/8/36)

“Jurista: O que vive de exercitar as Leis; e o que vive de dar dinheiro a juros. Em ambos os casos é juro sobre o Povo.” (n. 169, 6/8/36)

“Laconismo: Habilidade, que se tem perdido, como a de pintar no vidro, e outras. Agora para dizer pouco, ou nada, se fazem discursos, que fariam secar uma Figueira”. (n. 169, 6/8/36)

“Lanceta: Instrumento diminutivo de Lança, e tão pequenita, com que se tem derramado tanto sangue humano, como com a mesma Lança. Atualmente a Mãe, e a Filha estão em férias, e têm substitutos”. (n. 169, 6/8/36)

“Lei: Teia d’Aranha em que quase sempre as moscas ficam presas, e que os insetos maiores rompem com a maior facilidade”. (n. 169, 6/8/36)

“Leitão: se este nome é dado ao Porco pequeno, porque se sustenta de Leite, todos os que não somos filhos de Galinha, temos sido Leitões”. (n. 171, 9/8/36)

“Leque: Cousa que as senhoras trazem na mão para se abanarem, e com que muitas vezes escondem a cara, quando devem corar de vergonha, e não podem”. (n. 171, 9/8/36)

“Letras: As mais graúdas são as que mais chamam a atenção do Público”. (n. 171, 9/8/36)

“Letrado: O que tem letras; assim o julgam os impressores”.

“Liberal: Escorrega facilmente por pródigo, e vem a dar em Doudo!” (n. 171, 9/8/36)

“Liberdade: Muito boa mulher; mas ela mesma não sabe o que quer, e tem uma Irmã gêmea, que é um demônio. Desgraçado do inocente, que procurando a Liberdade, dá com a Licença. § Cousa de que jamais se pode usar sem se abusar (dizem os Déspotas). Cousa de que jamais se abusa, quando se usa (dizem os Liberais). Que ultraje ao bom senso em ambas as asserções! (Vide no fim deste Dicionário)”. (n. 171, 9/8/36)

“Mandarim: Antigamente só os havia na China.” (n. 176, 16/8/36)

“Maná: Alimento, que cai do Céu: com ele se alimentavam os Israelitas no Deserto; e com ele se alimentam provavelmente alguns homens que andam gordos, e [ilegível], e não se sabe donde lhes vêm o alimento”. (n. 176, 16/8/36)

“Medicina: A natural é suficiente aos Irracionais para não experimentarem frequentes moléstias, nem morte prematura; a racional é útil ao homem, para conservar a saúde; a experimental, para a recuperar, quando a perdeu por seus desregrados modos de viver; a sistemática é o flagelo da humanidade”.  (n. 181, 22/8/36)

“Médico: Vem de medicinar, curar, ou remediar; logo, quando não cura, não é Médico: chama-se Doutor muito embora”. (n. 181, 22/8/36)

“Memória: Potência, que supre em muitas pessoas a falta de entendimento, e raciocínio, e só com ela passam por sábias”. (n. 181, 22/8/36)

“Mediania: Ponto central da felicidade humana”. (n. 181, 22/8/36)

“Militar: O verbo é honrado; o substantivo, petulante; o adjetivo, sempre mesquinho”. (n. 183, 24/8/36)

“Ministeriais: Atores que repetem fielmente o que lhes diz o ponto”. (n. 183, 24/8/36)

“Misantropo: Substantivo masculino, que não tem feminino”. (n. 183, 24/8/36)

“Moderação: É preciso confessar, que esta virtude brilha mais nos verdadeiros nobres, do que nos plebeus que começam a trepar na roda da fortuna”. (n. 190, 1/9/36)

“Moléstia: Haverá alguma tão incômoda como aturar um pedante falador?” (n. 190,1/9/36)

“Moralidade: Remédio tão enjoativo, como o mais nojento da Botica, e que ninguém toma, a não vir disfarçado como as pirolas [pílulas?]; ou adoçado com açúcar, que o faça agradável: mas há poucos Boticários, que o saibam confeccionar perfeitamente”. (n. 191, 2/9/36)

“Morgado: Anagrama de Gado-mor. – É tirar ao domínio um dos seus mais importantes efeitos (a alienação) para sustentar a riqueza de um só indivíduo da família, e por consequência a sua nobreza, deixando os outros a pedir esmola”. (n. 191, 2/9/36)

“Nada: Cousa que só se pode ver escrita; e portanto é necessário procurá-la nas Bibliotecas, onde se acham em grossos volumes. § Por nada: razão de Mulheres”. (n. 193, 5/9/36)

“Negro: É uma criatura, que só por ter a cor preta, é tratada como um bruto por outros brutos maiores, que sucede serem brancos”. (n. 193, 5/9/36)

“Odre: Couro, que serve para se encher de vinho. Há-os vivos, e mortos.” (n. 211,27/9/36)

“Opinião: Matrona, que nascendo livre, é escrava da mania em todos os países, sem excetuar os mais livres. § Opinião pública, Rainha do mundo, cujos Decretos se executam de um modo lento, mas infalível”. (n. 211,27/9/36)

“Ópio: Hoje se administra de muitas maneiras!” (n. 211,27/9/36)

“Otimismo: Um dos muitos disparates filosóficos, que só serve para enfeitar entes de razão”. (n. 211,27/9/36)

“Pacificador: Deveria ser um Ofício, e título honorífico na República”. (n. 245, 7/11/36)

“Países Baixos: Províncias por onde se purga o estômago da Europa”. (n. 245, 7/11/36)

“Papel Moeda: Alquimia dos Governos arruinados”. (n. 245, 7/11/36)

“Pasto: É o alimento do gado, e o lugar, onde anda a pastar: logo a denominação de casa de Pasto é expressiva quanto pode ser!” (n. 246, 8/11/36)

“Patriota: Homem para quem na causa pública as cousas são tudo, e as pessoas nada”. (n. 246, 8/11/36)

“Pena: Na cabeça, é adorno; no coração, angústia; na mão do Juiz, medo; na do escritor, história; na do Escrivão, perigo; na do Negociante, cautela; na dos namorados, baba; na dos aventureiros, calote; na dos Gazeteiros, mentira; e na dos cavilosos, destruição”. (n. 246, 8/11/36)

“Pensar: Entre as muitas acepções, que tem esta palavra, a mais usual é tratar de uma besta, limpá-la, e dar-lhe o penso”. (n. 246, 8/11/36)

“Periódicos: Saraivada, que cai de tempos em tempos, com redemoinho de vento”. (n. 247, 9/11/36)

“Perspectiva: Três sinos estão colocados em linha reta, com intervalos iguais; se estamos no primeiro, vemos o do meio confundir-se com o terceiro; se vamos a este último, experimentamos outra igual ilusão em sentido contrário: só conservando-nos no meio é que vemos os objetos no seu verdadeiro lugar. – O mesmo sucede com os partidos: o Ultra vê o Moderado muito perto do Jacobino; este pelo inverso, o vê ao pé do Ultra; só o Moderado pode apreciar as distâncias.” (n. 247, 9/11/36)

“Pretendente: Homem afoito, e teimoso”. (n. 247, 9/11/36)

“Pessoa de bem: Diz-se ordinariamente de quem não paga o que deve”. (n. 247, 9/11/36)

“Peste: Epidemia contagiosa, não só de febre amarela e Cólera morbus; mas de opiniões, de pedanteria, de Periódicos etc, que de tempos em tempos aflige as Nações.” (n. 247, 9/11/36)

“Privilégio: Não se pode verificar num indivíduo, senão à custa de muitos outros”. (n. 252, 15/11/36)

“Proclamação: Temos visto tantas! O Povo acha sempre a última a melhor”. (n. 252, 15/11/36)

“Projetos: Também é praga, que aparece de tempos a tempos nas Nações.” (n. 252, 15/11/36)

“Proteção: Ninguém pode existir sem ela, pertença à classe que pertencer. Mas há proteções à moda de Bonaparte, de que Deus nos livre”. (n. 252, 15/11/36)

“Quarentena: Deve dar-se a tudo o que dizem as Gazetas de Novidades de Política”. (n. 255, 18/11/36)

“Razões: Vide = Sofismas =” (n. 255, 18/11/36)

“Rebelde: O partido contrário. Quem é que não tem sido rebelde?” (n. 255, 18/11/36)

“Regeneração: É destruir, com presunção de fazer melhor. E depois…” (n. 257, 21/11/36)

“Religião: Ir à missa do meio-dia escolhendo a Igreja mais fachonível; ostentar sempre em pé de que não se faz senão por formalidade; e comungar no meio do maior barulho em Quinta feira Santa.” (n. 257, 21/11/36)

“Repúblico: (De boa fé) Quer dizer aquele homem simples, e inexperiente, que supõe- nos que hão de governar menos erros, menos vícios, e menos paixões do que nos que a esse tempo governam. (Dito de má fé) É todo aquele, que quer Poder, e riquezas para si, para os seus parentes, e amigos”. (n. 257, 21/11/36)

“Riso: Movimento de complacência próprio do homem; e dele carecem todos os Brutos; portanto, o rir moderado, é de homem; o rir afetado, de Macacos; o rir às gargalhadas, de tolo: o nunca rir, é de Brutos”. (n. 264, 29/11/36)

“Romaria: Desabafo indispensável para certa espécie de Povo”. (n. 264, 29/11/36)

“Sátira: Causa comichão, mas às vezes cura!” (n. 264, 29/11/36)

“Seriedade: Atributo que os Asnos possuem em grau superior.” (n. 264, 29/11/36)

“Simonia: Voz antiquada, e graças a Deus hoje sem uso entre nós!” (n. 264, 29/11/36)

“Suicídio: A morte de um Suíço!” (n. 270, 6/12/36)

“Tambor: Imagem de muita gente. Está coberto com uma pele de Burro, e nada se tira dele senão batendo.” (n. 271, 7/12/36)

“Trono: Lugar elevado, no qual têm fitos os olhos milhares de homens.” (n. 273, 10/12/36)

“Tinta: Certo licor preto com que se tem mudado a face do Universo.” (n. 273, 10/12/36)

“Tirania: Os que falam nela é porque ainda não lhe souberam a significação; e dêem louvores a Deus.” (n. 273, 10/12/36)

“Tolerância: Não há quem não fale em tolerância, e todos querem ser tolerados; mas os Patronos da tolerância são os mais fanáticos intolerantes do mundo.” (n. 273, 10/12/36)

“Tolos: São todos aqueles, que o parecem, e a metade dos que o não parecem. – Tolo é, o que um presumido, ou presumida vê dentro de um espelho.” (n. 273, 10/12/36)

“Tradição: É a capa do pobre, que a poder de remendos não se lhe conhece o pano, de que foi feita”. (n. 273, 10/12/36)

“Tribunal de Justiça: Mato espinhoso onde a Ovelha busca asilo contra os Lobos, e donde nunca sai sem deixar, pelo menos, parte da lã.” (n. 281, 20/12/36)

“Valor: Quando é feliz tem esse nome. Quando desgraçado, é temeridade, extravagância, etc.” (n. 281, 20/12/36)

“Vaticano: Forja de Bulas, e Excomunhões!” (n. 282, 21/12/36)

“Véu: O véu com que as Senhoras se apresentam a cobrir o rosto, é o imperativo do verbo = olhar.” (n. 282, 21/12/36)

“Vidros: Diamante barato.” (n. 282, 21/12/36)

“Vista curta: Defeito quase usual da Aristocracia.” (n. 282, 21/12/36)

“Viúva: Mulher triste, abatida, desprezada, criticada, perseguida.” (n. 282, 21/12/36)

“Vulgo: Libera nos Domine.” (n. 282, 21/12/36)

“Xadrez: Jogo, que parece inventado para os Reis aprenderem a arte de governar. Ali se lhes recorda, que, se não estiverem sempre rodeados da grande massa dos seus súditos, estão em contínuo risco de levarem mate. Debalde se farão rodear de Torres, Bispos, Patrícios e Cavalheiros: em lhes faltando os Peões, está El Rei perdido.” (n. 282, 21/12/36)

O ARTILHEIRO
(publicado na cidade do Porto em 1836)
DICIONÁRIO DE VERDADES VERDADEIRAS

No n. 7, de 11/1/1836, o periódico anunciava:
O Artilheiro “Lê, e guarda quanto escolhe como mais útil. No livro do célebre Compadre, de que os seus leitores já têm acreditado conhecimento, encontra-se um Dicionário que ele intitulou de Verdades verdadeiras, o qual encerra objetos de jovial e decente entretenimento. O Artilheiro agenciou algumas Obras em que no mesmo estilo se encontram finíssimos pensamentos, e como Edição correta e acrescentada, o vai apresentar à vergonha do mundo!
Dicionário de verdades verdadeiras por um Compadre do Artilheiro.”

Atribui-se a autoria dos periódicos Braz TizanaO Artilheiro, e ao dicionário publicado neste último, ao jornalista, José de Sousa Bandeira, que usava o pseudónimo Braz Tisana (1789-1861).

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