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Dicionário de verdades verdadeiras – José de Sousa Bandeira (1789-1861)

Dicionário de verdades verdadeiras – José de Sousa Bandeira (1789-1861)

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Médico: Vem de medicinar, curar, ou remediar; logo, quando não cura, não é Médico: chama-se Doutor muito embora. (n. 181, 22/8/36)

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Medicina: A natural é suficiente aos Irracionais para não experimentarem frequentes moléstias, nem morte prematura; a racional é útil ao homem, para conservar a saúde; a experimental, para a recuperar, quando a perdeu por seus desregrados modos de viver; a sistemática é o flagelo da humanidade.  (n. 181, 22/8/36)

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Maná: Alimento, que cai do Céu: com ele se alimentavam os Israelitas no Deserto; e com ele se alimentam provavelmente alguns homens que andam gordos, e [ilegível], e não se sabe donde lhes vêm o alimento. (n. 176, 16/8/36)

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Mandarim: Antigamente só os havia na China. (n. 176, 16/8/36)

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Liberdade: Muito boa mulher; mas ela mesma não sabe o que quer, e tem uma Irmã gêmea, que é um demônio. Desgraçado do inocente, que procurando a Liberdade, dá com a Licença. § Cousa de que jamais se pode usar sem se abusar (dizem os Déspotas). Cousa de que jamais se abusa, quando se usa (dizem os Liberais). Que ultraje ao bom senso em ambas as asserções! (Vide no fim deste Dicionário). (n. 171, 9/8/36)

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Liberal: Escorrega facilmente por pródigo, e vem a dar em Doudo! (n. 171, 9/8/36)

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Letrado: O que tem letras; assim o julgam os impressores”.

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Letras: As mais graúdas são as que mais chamam a atenção do Público”. (n. 171, 9/8/36)

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Leque: Cousa que as senhoras trazem na mão para se abanarem, e com que muitas vezes escondem a cara, quando devem corar de vergonha, e não podem. (n. 171, 9/8/36)

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Leitão: se este nome é dado ao Porco pequeno, porque se sustenta de Leite, todos os que não somos filhos de Galinha, temos sido Leitões. (n. 171, 9/8/36)

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Lei: Teia d’Aranha em que quase sempre as moscas ficam presas, e que os insetos maiores rompem com a maior facilidade. (n. 169, 6/8/36)

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Lanceta: Instrumento diminutivo de Lança, e tão pequenita, com que se tem derramado tanto sangue humano, como com a mesma Lança. Atualmente a Mãe, e a Filha estão em férias, e têm substitutos. (n. 169, 6/8/36)

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Laconismo: Habilidade, que se tem perdido, como a de pintar no vidro, e outras. Agora para dizer pouco, ou nada, se fazem discursos, que fariam secar uma Figueira. (n. 169, 6/8/36)

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Jurista: O que vive de exercitar as Leis; e o que vive de dar dinheiro a juros. Em ambos os casos é juro sobre o Povo. (n. 169, 6/8/36)

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Jurisprudência: À primeira vista parece que significa prudência no Juiz: pois não é isso. É a ciência de sair do Labirinto pela porta da Autoridade. (n. 169, 6/8/36)

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Jurisconsulto: Homem que faz às Leis o mesmo que o Sapateiro faz ao couro: estende, dobra, e bate, até ficarem à medida dos seus desejos. (n. 158, 22/7/36)

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Junta: Ajuntamento de Homens, e de Bois! É preciso tomar muito sentido para que não haja engano neste objeto. (n. 158, 22/7/36)

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Interceptar: Palavra própria das Administrações de Correios. (n. 151, 14/7/36)

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Inumerável: É a lista, ou Catálogo dos Cavalheiros, dos Comendadores, dos Oficiais Generais, e dos Bacharéis em Portugal. Em Inglaterra, é a recopilação dos impostos, e tributos que paga o Povo. (n. 151, 14/7/36)

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Inovar: Delicadíssima, dificílima, e perigosíssima matéria. (n. 150, 13/7/36)

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Homem: O Bichinho mais manhoso, mais inconsequente, e mais incompreensível de quantos sustenta a terra, e o que mais abusa dos privilégios, que obteve do seu Criador. § Homem de bem: aquele que é do nosso partido. Homem feliz neste mundo: aquele, que tem alguma cousa de tolo, e pouco de honrado; porque só assim é que pode evitar o remorso. (n. 136, 25/6/36)

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Historiador: pintor de perspectiva. – O que escreve a história presente, não pode escrever a verdade. O que escreve a história do passado tem muitas dificuldades para saber a verdade. (n. 136, 25/6/36)

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História: Lida com boa crítica, quem não conhece o que é História? Bulhas, assoadas, desordens, recapitulação de grandes crimes. – Calendários dos Reis, que não achando materiais na felicidade dos Povos, trata só de recordar os crimes, e as misérias humanas.
§ Palavra de que se tem abusado tanto, que a fazem sinônimo de conto. (n. 136, 25/6/36)

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Herói: Carniceiro por junto. – A maior parte deles, não teve mais mérito do que esse que avultou no capricho dos homens, e todos foram filhos das circunstâncias. (n. 135, 23/6/36)

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Guerra: Desavença de poucos, disputada entre muitos, na qual uma grande parte perde a vida sem saber porque, nem para que. (n. 135, 23/6/36)

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Grego: Idioma, que em todas as partes se ensina, e ninguém o sabe. (n. 135, 23/6/36)

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Grécia: País onde mais, e maiores extravagâncias se praticaram antigamente em Política, e Moral. (n. 135, 23/6/36)

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Gravidade: Seriedade, severidade: os Burros paneleiros são os animais, que mostram mais gravidade no seu aspecto. (n. 135, 23/6/36)

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Gozo: Alimento do espírito, que tem muita propensão a ser aguado, como o leite e o vinho. (n. 132, 20/6/36)

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Governar: Cousa mais difícil, e trabalhosa, do que obedecer; e sem embargo todos antes querem governar do que obedecer. De que procederá isto? (n. 132, 20/6/36)

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Glosa: Inseto, que ataca, e destrói os Livros de Leis.” (n. 132, 20/6/36)

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Furtar: Ciência que está mais adiantada, que nenhuma outra. Aplica-se este nome ao furtar pouco, e com risco; aos grandes furtos dá-se-lhes outro nome: aos maiores se chama conquista, presa, etc. (n. 132, 20/6/36)

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Fúria: Suponho que seria alguma mulher zelosa, ou desprezada, ou irada; de todos os modos ela sempre era mulher. (n. 132, 20/6/36)

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Funil: Instrumento que tem a entrada larga, e a saída estreita; neste sentido se devem considerar as Cadeias, os Contratos, as Demandas, os Casamentos, os Amancebamentos, as Finanças, etc. Veja-se quantos funis, de que só se pode sair esmagado!” (n. 132, 20/6/36)

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Freiras: Coitadas, se enganadas!” (n. 132, 20/6/36)

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Frades: Homens que se vestiam pela cabeça, como as mulheres. Foram utilíssimos quando religiosos. (n. 129, 16/6/36)

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Formosa: Se for moça, aliás… (n. 129, 16/6/36)

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Fita: Pequeno pedaço de tecido, com que se tem feito no mundo grandes milagres. (n. 129, 16/6/36)

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Filosofia: O amor, e a prática da verdade. Vejam lá se será rara!. (n. 125, 11/6/36)

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Filantropia: Nome Grego, que veio desterrar a Caridade, e o Amor do Próximo. (n. 125, 11/6/36)

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Fênix: Ave, que se não acha nas Casas de Pasto, no ar, nem nos currais. Vive só nas Fábulas, nos Panegíricos, e nos Discursos fastidiosos. (n. 125, 11/6/36)

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Federação: Cousa que principia cheirando mal. (n. 121, 6/6/36)

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Fastio: Doença, que não ataca os pobres. (n. 121, 6/6/36)

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Fada: Mulher, que dava, e não pedia. Isso acabou já! (n. 117, 31/5/36)

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Facção: Espécie de cegueira, de que Deus nos livre. – É todo o partido, que não tem o Poder nas mãos. (n. 117, 31/5/36)

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Experiência: É a ignorância apalpando, como quem busca um caminho às escuras. (n. 116, 30/5/36)

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Esforço: Louvável prontidão de levantar o lenço ou o leque a uma Senhora. (n. 116, 30/5/36)

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Exército: São as mãos da República. Quando obra de acordo com a cabeça, e obedece a seus preceitos, todo o corpo é forte. § É um instrumento cego de um Poder ainda mais cego. § É uma reunião de homens atirando uns contra os outros, matando-se sem se conhecerem, e às vezes em defesa d’uma Pessoa que ainda conhecem menos. (n. 116, 30/5/36)

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Exaltado: Espécie de energúmeno mais fatal do que útil ao partido que serve. (n. 112, 25/5/36)

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Evaporação: Movimento insensível, pelo qual perdem as cousas o espírito, o gosto, e a graça. As Doutrinas, os Livros, e os Poemas são tão evaporáveis, que passando um certo tempo, ficam reduzidos a uma espécie de = Caput mortuum =. (n. 112, 25/5/36)

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Eva: Mulher feliz, que não teve Sogra. Dela descendem os brancos, e gente de bem; os pretos e os pobres, duvida-se!!!. (n. 112, 25/5/36)

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Europa: A terceira Figura, que tem representado na Farsa do Mundo Político, logo que as duas primeiras se recolheram aos bastidores; e que vai dando lugar à quarta, para entrar na Cena. (n. 112, 25/5/36)

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Eumênides: As Fúrias do Inferno. Os que por lá tem andado, dizem que são uma Sogra, e duas Cunhadas. (n. 112, 25/5/36)

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Etíope: Homem de cor mais escura, que a nossa, e que tem tanta diferença de nós, como as galinhas pretas das brancas. (n. 112, 25/5/36)

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Eternidade: Assombro da imaginação!!! Quem pensa nela sem horror? (n. 112, 25/5/36)

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Estável: Não pode ser cousa deste mundo!. (n. 106, 17/5/36)

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Estanco: “Salteador legal da indústria”. (n. 106, 17/5/36)

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Estado: O Estado está em perigo! – Fórmula solene de que se serve um governo doble, quando quer calcar as Leis. O Homem d’Estado é o que o sabe desfrutar melhor. (n. 106, 17/5/36)

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Estadista: Hoje o é qualquer Sapateiro remendão. Louvado seja Deus! (n. 106, 17/5/36)

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Estacar: É a pousada, onde costumam parar os que caminham da Teoria para a Prática. (n. 106, 17/5/36)

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Essência: O chiste está em a saber distinguir dos seus acidentes, e vice-versa! (n. 106, 17/5/36)

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Espírito de partido: Espécie de vitríolo mental, que guardamos para atirar com ele aos outros, e que entretanto vai irritando, corroendo, envenenando o nosso mesmo espírito. (n. 99, 6/5/36)

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Escrutínio: tendo habilidade não é difícil o fazê-lo. (n. 92, 27/4/36)

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Escritor: tem havido ocasiões, em que este substantivo tem sido Sinônimo de Copista, Adulador, Maldizente, Velhaco, e até de Periodiqueiro. (n. 92, 27/4/36)

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Escolástico: Da escola… E mais nada. (n. 92, 27/4/36)

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Escabeche: Molho, em que se costuma conservar o peixe, e as Proclamações velhas, para usar delas quando se oferece ocasião. (n. 87, 21/4/36)

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Erudito: Homem de boa memória, que tem lido muitos livros, e retido ao menos os nomes dos autores. (n. 87, 21/4/36)

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Erudição: Ciência de Livreiro, porém amena. (n. 87, 21/4/36)

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Equidade: Lei de Direito Natural, que está escrita no coração do homem, ainda que coberta com as paixões. (n. 87, 21/4/36)

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Episcopado: É o poder, a pompa, e a vaidade dos que juram renunciar a estas três cousas. (n. 87, 21/4/36)

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Enviuvar: Problema, que para uns anuncia felicidade, e para outros desgraça. Isto prova, que as circunstâncias são as que determinam a essência das cousas. (n. 87, 21/4/36)

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Enobrecer: Ter muito dinheiro. (n. 84, 18/4/36)

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Enigmático: Estilo Diplomático, e próprio de várias ciências. (n. 84, 18/4/36)

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Embaixador: Espião Titular. Desde que há Correios estabelecidos, parece que uma folha de papel é o melhor Embaixador. (n. 83, 16/4/36)

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Eloquência: Move mais do que a razão, e a justiça. (n. 83, 16/4/36)

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Eleição: Tem sua dificuldade, e grande. (n. 83, 16/4/36)

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Divórcio: Se estivesse em prática, quando há motivo justo, seriam mais felizes os matrimônios; porque da confiança da impunidade nasce o abuso”. (n. 66, 23/3/36)

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Dívida Nacional: É penhorar a propriedade dos vindouros para governar mais à vontade (e muitas vezes para destruir) os contemporâneos. (n. 66, 23/3/36)

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Direitos do Homem: Princípios consagrados pelas Leis, proclamados com alta voz, e da mesma sorte violados. (n. 66, 23/3/36)

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Direito de petição: Pretexto banal, com que todas as Assembleias Legislativas usurpam as funções Executivas, e Judiciárias. Em vez de se dirigirem tão somente aos interesses gerais, se intrometem na discussão dos interesses particulares, e tomam conhecimento de todos os detalhes da administração, quando, a ser esta ingerência tolerável n’algum caso, seria unicamente aquele, em que se dissesse lesa, ou a segurança pessoal, ou o direito da eleição, ou a liberdade de Consciência, e de Imprensa. (n. 66, 23/3/36)

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Direito: labirinto, em que se perdem quantos entram nele, e só acham saída saltando pelas taipas, como cada um pode. (n. 62, 18/3/36)

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Dinheiro: Supremo dispensador d’honras, graças, mercês, e comodidades. Dá ciência infusa, e confusa: faz a guerra, e a paz; ganha batalhas; comunica graça, e formosura; disfarça vícios, e finge virtudes; só não influi na saúde, e na vida. Máquina poderosíssima, que tem em contínuo movimento o mundo moral. Sinônimo de irresistível. Substituto do Mundo, Diabo, e Carne, e seu Lugar Tenente. O Contraste das Excelências, das Senhorias, do talento, da representação, e do respeito. Tem a particularidade de fazer bonitas as feias, quando ele pertence às mulheres. (n. 62, 18/3/36)

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Dinastia: Famílias reinantes, das quais um antepassado, ou foi escolhido pelo Povo, ou se apoderou do Trono. (n. 62, 18/3/36)

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Dilúvio: Deus prometeu a Noé não inundar a Terra com outro Dilúvio d’água; mas bem se vê que nunca fez tal promessa a respeito de Dilúvio de Periódicos, de aluvião de Filósofos de Cacaracá, e de enxurrada de Políticos de algibeira como relógios. (n. 62, 18/3/36)

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Digestão: Faculdade do estômago a respeito dos alimentos; e do cérebro, a respeito dos discursos. Há homens, que podem digerir um Boi, e não digerem meia folha impressa!. (n. 62, 18/3/36)

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Diplomático: Impostor privilegiado, pago para espiar, intrigar, e enganar o Governo, junto a quem reside: e que depois é premiado na proporção de sua deficiência em honra, e boa fé. (n. 62, 18/3/36)

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Desigualdade: É o necessário efeito da indústria, e do trabalho. (n. 62, 18/3/36)

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Desembargo do Paço: Era este Tribunal uma espécie de manjedoura, a qual se prendiam todos os dias quatro Desembargadores esfalfados, que apenas despachavam quatro Petições, e mandavam passar quatro Provisões. (n. 51, 5/3/36)

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Devorar: sinal infalível de comer à custa alheia. (n. 51, 5/3/36)

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Devassa/Devasso: No primeiro significa cousa oculta; e no masculino, cousa patente. Forte contradição! (n. 51, 5/3/36)

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Despovoar: O mesmo que fundar Colônias, ou proteger o Comércio, com prejuízo da Lavoura. (n. 51, 5/3/36)

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Despotismo: Vício para o qual geralmente propende o homem na Sociedade, desde o Imperante, até ao Carcereiro, e sem excetuar todas as Classes médias, o Superior, o Magistrado, o chefe militar, o Pai de famílias, o Mestre; sempre o mais forte pende para o Despotismo sobre o mais fraco. E nas classes ínfimas se desenvolve esta paixão com menos vergonha. (n. 51, 5/3/36)

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Dentista: Homem que para ter o que comer, tira a muitos o trabalho de mastigar. (n. 51, 5/3/36)

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Convidado: O mesmo que abastado, porque aos necessitados ninguém convida. (n. 41, 23/2/36)

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Contradança: Espécie de escaramuça entre duas guerrilhas de diferente sexo. (n. 41, 23/2/36)

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Constituição: A melhor é aquela que se observa. § Chapéu de sol dos Corcundas, que eles abrem quando chove, e que fecham quando faz bom tempo. (n. 40, 22/2/36)

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Comunidade: Certo número de Pessoas, que se ajuntam sem se conhecerem, vivem sem se amarem, e morrem sem se condoerem. (n. 35, 15/2/36)

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Comenda: Fruta como a Avelã, que dá muito óleo, porém a maior parte delas não tem nada dentro, e são pura aparência. (n. 35, 15/2/36)

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Colônia: Espécie de Gatinho, que custa a criar, e depois arranha. (n. 35, 15/2/36)

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Clemente: Nome que ficou para alcunha de alguns Papas. (n. 28, 6/2/36)

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Clássico: Adjetivo, que muda de sítio de cem em cem anos. (n. 28, 6/2/36)

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Censura: Arte de esmagar os ovos no ninho, a fim de não produzir pintos. (n. 27, 5/2/36)

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Cemitério: República de verdadeira igualdade. (n. 27, 5/2/36)

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Celibatário: Homem, que não sustenta mulher, nem filhos. (n. 27, 5/2/36)

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Cavalo: Animal que poupa aos pobres o levar às costas os ricos, e poderosos, e puxar pelas carruagens. (n. 27, 5/2/36)

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Casar: O mesmo que = Lá o vereis. (n. 26, 4/2/36)

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Candidato: O que pretende alguma cousa; e por esta regra todos no mundo somos candidatos. § Homem que hoje se curva, para se empertigar amanhã. (n. 25, 3/2/36)

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Canalha: Aqueles que trabalham! [no sentido “da canalha”, massa popular] (n. 23, 30/1/36)

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Cabana: Habitação rústica, que os Poetas, e os Filósofos gabam muito, porém nunca por ela deixam as Cidades. (n. 23, 30/1/36)

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Brasil: É um filho que sendo maior de 25 anos, casando, tendo descendência, e bens de seu, se viu obrigado a ir viver debaixo de outro teto, e fundar outra família. (n. 16, 21/1/36)

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Bonachão: Sobrenome dos Reis de quem nada se pode dizer. (n. 16, 21/1/36)

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Biblioteca: Fruta como a alcachofra: muita folha inútil, e pouco que aproveitar. (n. 16, 21/1/36)

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Baioneta: Argumento sem réplica. § Punhal com graduação, e patente militar. (n. 15, 20/1/36)

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Bárbaros: Nome que damos aos Povos, que desejamos conquistar, e que eles também nos aplicam. (n. 15, 20/1/36)

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Banco: Espécie d’Alquimia, que muda tiras de papel em ouro”.  (n. 15, 20/1/36)

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Ásia: País onde se tem levado a enterrar todo o ouro, e prata, que se tem desenterrado das Américas. (n. 11, 15/1/36)

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Axioma: Cada um chama assim a sua Opinião. (n. 11, 15/1/36)

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Avós: Utensílios de aparato para muitos indivíduos. § Gabar-se de seus Avós, é ir buscar nas raízes o fruto, que deve estar nos ramos da árvore. § É o orgulho de quem não tem outra coisa. (n. 11, 15/1/36)

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Aventureiro: Homem louvável, quando é feliz, e punível, quando é infeliz. (n. 11, 15/1/36)

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Autor: Nome que se dá a quem arremeda uma Obra com retalhos velhos: aliás não haveria tantos autores, visto que não aparece cousa nova. (n. 11, 15/1/36)

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Aposentadoria: Para narrar tudo o que se compreendia, antes da Constituição, nesta palavrinha só, era necessário um volume. (n. 10, 14/1/36)

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Antecâmara: Purgatório dos Pretendentes. (n. 9, 13/1/36)

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Ambiguidade: Ciência de Diplomacia. § O mais necessário ingrediente dos Tratados entre as Nações – das Leis do Poder absoluto – das Notas Diplomáticas – dos Processos – das Sentenças dos Juízes, etc, etc. (n. 9, 13/1/36).

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Amazona: Mulher, que não cuida em cozinhar, nem coser, nem remendar a roupa do Marido, e mais dos filhos. (n. 8, 12/1/36).

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Algodão: General Americano, que ganhou a famosa batalha da Indústria, contra o General Linho Europeu. (n. 8, 12/1/36).

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Aleijar: na Literatura, vale o mesmo que = traduzir. (n. 8, 12/1/36).

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Absurdo: é tudo aquilo que os nossos Antagonistas avançam contra a nossa opinião, ou além da nossa compreensão. (n. 7, 11/1/36)

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Abortar: no idioma das Imprensas, vale o mesmo que produzir (n. 7, 11/1/36).

O ARTILHEIRO
(publicado na cidade do Porto em 1836)
DICIONÁRIO DE VERDADES VERDADEIRAS

No n. 7, de 11/1/1836, o periódico anunciava:
O Artilheiro “Lê, e guarda quanto escolhe como mais útil. No livro do célebre Compadre, de que os seus leitores já têm acreditado conhecimento, encontra-se um Dicionário que ele intitulou de Verdades verdadeiras, o qual encerra objetos de jovial e decente entretenimento. O Artilheiro agenciou algumas Obras em que no mesmo estilo se encontram finíssimos pensamentos, e como Edição correta e acrescentada, o vai apresentar à vergonha do mundo!
Dicionário de verdades verdadeiras por um Compadre do Artilheiro.”

Atribui-se a autoria dos periódicos Braz TizanaO Artilheiro, e ao dicionário publicado neste último, ao jornalista, José de Sousa Bandeira, que usava o pseudónimo Braz Tisana (1789-1861).

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