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Dicionário de verdades verdadeiras – José de Sousa Bandeira (1789-1861)

Dicionário de verdades verdadeiras – José de Sousa Bandeira (1789-1861)

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Episcopado: É o poder, a pompa, e a vaidade dos que juram renunciar a estas três cousas. (n. 87, 21/4/36)

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Enviuvar: Problema, que para uns anuncia felicidade, e para outros desgraça. Isto prova, que as circunstâncias são as que determinam a essência das cousas. (n. 87, 21/4/36)

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Enobrecer: Ter muito dinheiro. (n. 84, 18/4/36)

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Enigmático: Estilo Diplomático, e próprio de várias ciências. (n. 84, 18/4/36)

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Embaixador: Espião Titular. Desde que há Correios estabelecidos, parece que uma folha de papel é o melhor Embaixador. (n. 83, 16/4/36)

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Eloquência: Move mais do que a razão, e a justiça. (n. 83, 16/4/36)

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Eleição: Tem sua dificuldade, e grande. (n. 83, 16/4/36)

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Divórcio: Se estivesse em prática, quando há motivo justo, seriam mais felizes os matrimônios; porque da confiança da impunidade nasce o abuso”. (n. 66, 23/3/36)

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Dívida Nacional: É penhorar a propriedade dos vindouros para governar mais à vontade (e muitas vezes para destruir) os contemporâneos. (n. 66, 23/3/36)

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Direitos do Homem: Princípios consagrados pelas Leis, proclamados com alta voz, e da mesma sorte violados. (n. 66, 23/3/36)

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Direito de petição: Pretexto banal, com que todas as Assembleias Legislativas usurpam as funções Executivas, e Judiciárias. Em vez de se dirigirem tão somente aos interesses gerais, se intrometem na discussão dos interesses particulares, e tomam conhecimento de todos os detalhes da administração, quando, a ser esta ingerência tolerável n’algum caso, seria unicamente aquele, em que se dissesse lesa, ou a segurança pessoal, ou o direito da eleição, ou a liberdade de Consciência, e de Imprensa. (n. 66, 23/3/36)

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Direito: labirinto, em que se perdem quantos entram nele, e só acham saída saltando pelas taipas, como cada um pode. (n. 62, 18/3/36)

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Dinheiro: Supremo dispensador d’honras, graças, mercês, e comodidades. Dá ciência infusa, e confusa: faz a guerra, e a paz; ganha batalhas; comunica graça, e formosura; disfarça vícios, e finge virtudes; só não influi na saúde, e na vida. Máquina poderosíssima, que tem em contínuo movimento o mundo moral. Sinônimo de irresistível. Substituto do Mundo, Diabo, e Carne, e seu Lugar Tenente. O Contraste das Excelências, das Senhorias, do talento, da representação, e do respeito. Tem a particularidade de fazer bonitas as feias, quando ele pertence às mulheres. (n. 62, 18/3/36)

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Dinastia: Famílias reinantes, das quais um antepassado, ou foi escolhido pelo Povo, ou se apoderou do Trono. (n. 62, 18/3/36)

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Dilúvio: Deus prometeu a Noé não inundar a Terra com outro Dilúvio d’água; mas bem se vê que nunca fez tal promessa a respeito de Dilúvio de Periódicos, de aluvião de Filósofos de Cacaracá, e de enxurrada de Políticos de algibeira como relógios. (n. 62, 18/3/36)

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Digestão: Faculdade do estômago a respeito dos alimentos; e do cérebro, a respeito dos discursos. Há homens, que podem digerir um Boi, e não digerem meia folha impressa!. (n. 62, 18/3/36)

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Diplomático: Impostor privilegiado, pago para espiar, intrigar, e enganar o Governo, junto a quem reside: e que depois é premiado na proporção de sua deficiência em honra, e boa fé. (n. 62, 18/3/36)

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Desigualdade: É o necessário efeito da indústria, e do trabalho. (n. 62, 18/3/36)

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Desembargo do Paço: Era este Tribunal uma espécie de manjedoura, a qual se prendiam todos os dias quatro Desembargadores esfalfados, que apenas despachavam quatro Petições, e mandavam passar quatro Provisões. (n. 51, 5/3/36)

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Devorar: sinal infalível de comer à custa alheia. (n. 51, 5/3/36)

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Devassa/Devasso: No primeiro significa cousa oculta; e no masculino, cousa patente. Forte contradição! (n. 51, 5/3/36)

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Despovoar: O mesmo que fundar Colônias, ou proteger o Comércio, com prejuízo da Lavoura. (n. 51, 5/3/36)

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Despotismo: Vício para o qual geralmente propende o homem na Sociedade, desde o Imperante, até ao Carcereiro, e sem excetuar todas as Classes médias, o Superior, o Magistrado, o chefe militar, o Pai de famílias, o Mestre; sempre o mais forte pende para o Despotismo sobre o mais fraco. E nas classes ínfimas se desenvolve esta paixão com menos vergonha. (n. 51, 5/3/36)

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Dentista: Homem que para ter o que comer, tira a muitos o trabalho de mastigar. (n. 51, 5/3/36)

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Convidado: O mesmo que abastado, porque aos necessitados ninguém convida. (n. 41, 23/2/36)

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Contradança: Espécie de escaramuça entre duas guerrilhas de diferente sexo. (n. 41, 23/2/36)

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Constituição: A melhor é aquela que se observa. § Chapéu de sol dos Corcundas, que eles abrem quando chove, e que fecham quando faz bom tempo. (n. 40, 22/2/36)

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Comunidade: Certo número de Pessoas, que se ajuntam sem se conhecerem, vivem sem se amarem, e morrem sem se condoerem. (n. 35, 15/2/36)

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Comenda: Fruta como a Avelã, que dá muito óleo, porém a maior parte delas não tem nada dentro, e são pura aparência. (n. 35, 15/2/36)

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Colônia: Espécie de Gatinho, que custa a criar, e depois arranha. (n. 35, 15/2/36)

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Clemente: Nome que ficou para alcunha de alguns Papas. (n. 28, 6/2/36)

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Clássico: Adjetivo, que muda de sítio de cem em cem anos. (n. 28, 6/2/36)

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Censura: Arte de esmagar os ovos no ninho, a fim de não produzir pintos. (n. 27, 5/2/36)

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Cemitério: República de verdadeira igualdade. (n. 27, 5/2/36)

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Celibatário: Homem, que não sustenta mulher, nem filhos. (n. 27, 5/2/36)

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Cavalo: Animal que poupa aos pobres o levar às costas os ricos, e poderosos, e puxar pelas carruagens. (n. 27, 5/2/36)

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Casar: O mesmo que = Lá o vereis. (n. 26, 4/2/36)

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Candidato: O que pretende alguma cousa; e por esta regra todos no mundo somos candidatos. § Homem que hoje se curva, para se empertigar amanhã. (n. 25, 3/2/36)

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Canalha: Aqueles que trabalham! [no sentido “da canalha”, massa popular] (n. 23, 30/1/36)

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Cabana: Habitação rústica, que os Poetas, e os Filósofos gabam muito, porém nunca por ela deixam as Cidades. (n. 23, 30/1/36)

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Brasil: É um filho que sendo maior de 25 anos, casando, tendo descendência, e bens de seu, se viu obrigado a ir viver debaixo de outro teto, e fundar outra família. (n. 16, 21/1/36)

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Bonachão: Sobrenome dos Reis de quem nada se pode dizer. (n. 16, 21/1/36)

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Biblioteca: Fruta como a alcachofra: muita folha inútil, e pouco que aproveitar. (n. 16, 21/1/36)

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Baioneta: Argumento sem réplica. § Punhal com graduação, e patente militar. (n. 15, 20/1/36)

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Bárbaros: Nome que damos aos Povos, que desejamos conquistar, e que eles também nos aplicam. (n. 15, 20/1/36)

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Banco: Espécie d’Alquimia, que muda tiras de papel em ouro”.  (n. 15, 20/1/36)

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Ásia: País onde se tem levado a enterrar todo o ouro, e prata, que se tem desenterrado das Américas. (n. 11, 15/1/36)

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Axioma: Cada um chama assim a sua Opinião. (n. 11, 15/1/36)

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Avós: Utensílios de aparato para muitos indivíduos. § Gabar-se de seus Avós, é ir buscar nas raízes o fruto, que deve estar nos ramos da árvore. § É o orgulho de quem não tem outra coisa. (n. 11, 15/1/36)

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Aventureiro: Homem louvável, quando é feliz, e punível, quando é infeliz. (n. 11, 15/1/36)

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Autor: Nome que se dá a quem arremeda uma Obra com retalhos velhos: aliás não haveria tantos autores, visto que não aparece cousa nova. (n. 11, 15/1/36)

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Aposentadoria: Para narrar tudo o que se compreendia, antes da Constituição, nesta palavrinha só, era necessário um volume. (n. 10, 14/1/36)

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Antecâmara: Purgatório dos Pretendentes. (n. 9, 13/1/36)

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Ambiguidade: Ciência de Diplomacia. § O mais necessário ingrediente dos Tratados entre as Nações – das Leis do Poder absoluto – das Notas Diplomáticas – dos Processos – das Sentenças dos Juízes, etc, etc. (n. 9, 13/1/36).

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Amazona: Mulher, que não cuida em cozinhar, nem coser, nem remendar a roupa do Marido, e mais dos filhos. (n. 8, 12/1/36).

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Algodão: General Americano, que ganhou a famosa batalha da Indústria, contra o General Linho Europeu. (n. 8, 12/1/36).

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Aleijar: na Literatura, vale o mesmo que = traduzir. (n. 8, 12/1/36).

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Absurdo: é tudo aquilo que os nossos Antagonistas avançam contra a nossa opinião, ou além da nossa compreensão. (n. 7, 11/1/36)

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Abortar: no idioma das Imprensas, vale o mesmo que produzir (n. 7, 11/1/36).

O ARTILHEIRO
(publicado na cidade do Porto em 1836)
DICIONÁRIO DE VERDADES VERDADEIRAS

No n. 7, de 11/1/1836, o periódico anunciava:
O Artilheiro “Lê, e guarda quanto escolhe como mais útil. No livro do célebre Compadre, de que os seus leitores já têm acreditado conhecimento, encontra-se um Dicionário que ele intitulou de Verdades verdadeiras, o qual encerra objetos de jovial e decente entretenimento. O Artilheiro agenciou algumas Obras em que no mesmo estilo se encontram finíssimos pensamentos, e como Edição correta e acrescentada, o vai apresentar à vergonha do mundo!
Dicionário de verdades verdadeiras por um Compadre do Artilheiro.”

Atribui-se a autoria dos periódicos Braz TizanaO Artilheiro, e ao dicionário publicado neste último, ao jornalista, José de Sousa Bandeira, que usava o pseudónimo Braz Tisana (1789-1861).

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