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Inicio Do Porto Linha 94

Linha 94

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1.
Por ela circularam centenas de autocarros
conduzidos por dezenas de motoristas e cobradores

Com a introdução das máquinas de validação de bilhetes
passou a haver apenas um agente

O motorista passou a agente único
a conduzir e a cobrar bilhetes

Nas horas de ponta os autocarros circulavam cheios
e só começavam a esvaziar-se a partir de S. Roque
ou da Fonte da Senhora consoante o sentido da viagem

Nalgumas horas o motorista seguia sozinho mas por pouco tempo

Dentro do autocarro ocorriam furtos empurrões
inícios de amizade

Aproveitava-se o tempo para rever matéria antes dos testes
ler um livro ou quando o cansaço era grande dormir

Fora do autocarro a vida continuava

Via-se casas a serem demolidas outras a serem construídas
fábricas a abrir e a fechar

Quando havia obras na estrada faziam-se desvios

Se o autocarro avariava fazia-se transbordo
e os passageiros passavam a conhecer melhor os locais
que antes apenas viam pela janela

No fim do percurso o autocarro era recolhido num parque junto à Circunvalação

Quem o via parado e vazio nem o reconhecia

2.
Este autocarro leva-me e traz-me quase todos os dias desde que vim estudar para o Porto. Durante a viagem penso em muitas coisas: nas aulas que já tive, nas que vou ter e no que poderei vir a ser no futuro. Às vezes dou por mim a pensar no que pensarei de mim daqui a muitos anos.

Como agora, por exemplo: estou a pensar que, um dia, me vou lembrar deste momento em que já pensava que, no futuro, o iria recordar.

3.
À ESPERA DO 94 NA RUA ALEXANDRE BRAGA

Um vento frio sopra sobre a cidade
No cimo da rua ouvem-se travões a chiar
Uma fila com vinte ou mais pessoas
volta-se de repente para ver o autocarro chegar

PML

*

CHOVE MUITO, CHOVE EXCESSIVAMENTE…

Chove muito, chove excessivamente…

Chove e de vez em quando faz um vento frio…
Estou triste, muito triste, corno se o dia fosse eu.
Num dia no meu futuro em que chova assim também
e eu, à janela de repente me lembre do dia de hoje,
pensarei eu «ah nesse tempo eu era mais feliz»
ou pensarei «ah, que tempo triste foi aquele»!
Ah, meu Deus, eu que pensarei deste dia nesse dia
e o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?…
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste
e há uma grande dúvida de chumbo no meu coração…
20-11-1914
Álvaro de Campos – Livro de Versos . Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993.
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