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Animais elétricos e outros que tais

Animais elétricos e outros que tais

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Além dos animais domésticos, existem ainda os animais elétricos.

Enquanto os animais domésticos comem de tudo, inclusive de ração, os animais elétricos alimentam-se apenas de eletricidade.

Os animais elétricos vendem-se em todo o lado, até na internet.

Vêm embrulhados em cartão e esferovite, para não se magoarem.

Desembrulhá-los é muito emocionante, porque nunca se sabe se são iguais aos do catálogo.

Felizmente, trazem consigo um manual de instruções, para os compreendermos melhor.

Os animais elétricos vivem connosco há muitos anos e estão espalhados pela casa.

Num canto da cozinha está o maior animal elétrico que se conhece — o urso polar.

Muito branquinho, hiberna connosco desde que viemos morar para cá.

Só tem um defeito: quando não aguenta o frio, faz xixi pelas pernas abaixo.

A meio do balcão temos quatro dragões, que lançam chamas para aquecermos tachos e panelas.

É preciso ter muito cuidado com os dragões, para não nos queimarmos.

Por cima dos dragões, uma borboleta abana as asas para levar o fumo para o exterior.

Sobre o balcão temos ainda uma ostra, que abre a boca e nos dá uma sanduíche bem tostada.

Noutro canto da cozinha, sobre um móvel, está uma coruja que dorme durante o dia e só acorda para nos servir um café cremoso e quentinho.

No mesmo móvel instalámos um pinguim que nos aquece água para fazer chá e cevada.

É muito curioso, pois abana o rabo quando está a ferver.

Na lavandaria pusemos uma vaca que nos rumina a roupa durante horas e horas.

Quando torce a roupa, a vaca dá uns saltinhos em direção à cozinha.

É uma vaca muito engraçada.

Ao lado da vaca está uma piranha que nos come o lixo.

Para engomar as camisas e as calças, comprámos um rato.

Temos de ter muito cuidado com o rato, porque nos pode queimar a mão.

Este rato não se confunde com o outro, mais pequenino, que nos guia no ecrã do computador.

É um rato de outra raça.

Para iluminar a casa, comprámos pirilampos.

Os pirilampos tanto podem estar encastrados no teto como enroscados nos candeeiros.

E, para iluminar o terraço, embutimos olhos de boi nos muros.

No outro dia, um olho de boi fundiu e tivemos de o ir trocar à drogaria — perdão, à vacaria.

Uma vez por semana, tiramos o papa-formigas da despensa para aspirar o chão.

O papa-formigas aspira o pó com tanta intensidade que há quem diga que consegue sugar as ideias dos vizinhos do andar de baixo.

Quem quiser falar connosco não precisa de bater à porta: basta carregar no besouro que temos à entrada, que ele começa a zoar.

Para além dos animais elétricos, temos ainda outros animais a viver connosco.

São os outros que tais.

As cobras, por exemplo, rastejam por toda a casa.

Enrolam-se nas paredes para aquecer os quartos e a sala.

Esticam-se no terraço para regar os vasos e enfiam-se nas presilhas das calças, para não caírem ao chão.

Quando precisamos de medir alguma coisa, vamos à despensa buscar o camaleão.

O camaleão captura as medidas, por ter uma língua muito comprida.

Pendurado na parede da sala, temos um cuco.

O cuco cucula as horas, para não chegarmos atrasados ao trabalho e à escola.

Dentro da lareira temos um cavalo com um pescoço até à chaminé.

O cavalo alimenta-se de toros de madeira e, em dias de muito frio, pode ser visto a sobrevoar os telhados com uma crina de fumo branco.

Para limpar a casa de banho, comprámos um pato que mete o bico em qualquer buraco.

No tempo em que tomávamos banho de imersão, o ralo cantava ao sugar a água da banheira.

Agora, no fim do banho de chuveiro, canta baixinho quando lhe tiramos os cabelos da boca.

Na pia da cozinha e nos lavatórios, optámos por ter uns gansos para nos regurgitar água.

Os gansos dobram o pescoço para a água cair direitinha na pia.

Para jogar damas e xadrez, pousamos os tabuleiros sobre a crista de um galo que está na sala.

Enquanto não há jogos, serve para pôr lá as fotografias da família.

Como gostamos muito de viajar, comprámos 150 cavalos alemães que nos levam a todo o lado.

Apesar de a garagem ser pequena, conseguem caber todos lá dentro.

Se um pneu furar, temos um macaco para o substituir.

Os cavalos gostam muito de beber gasolina.

Já os cavalos do nosso vizinho gostam de sugar eletricidade — são os mais recentes animais elétricos.

Para além de cavalos elétricos, os nossos vizinhos têm um lama elétrico com o qual o filho vai para a escola.

Já o avisámos para levar capacete, mas ele às vezes esquece-se.

Dizem que no prédio em frente vive um homem com uma baleia que se alimenta de criptomoedas.

Dizem, porque nunca a vimos.

Ontem fomos à drogaria comprar um estendal.

Entre um condor de alumínio e um Ícaro de inox, escolhemos o condor, por ser mais sossegado.

O Ícaro é muito rebelde e podia aproximar-se demasiado do sol e derreter.

E pronto, são estes os animais elétricos e outros que tais que vivem connosco.

PML

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