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Teixeira de Pascoaes por Pedro Sinde

Teixeira de Pascoaes por Pedro Sinde

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Matosinhos, 9 de Janeiro de 2015

Meu caro Paulo

Desta vez nem vou, se não se importar, tentar explicar a demora da minha resposta, dado o novelo de situações… Aceite, por favor, isso sim, as minhas desculpas renovadas.

Para ir à sua carta directamente, antes de mais, gostava de dizer que nestes assuntos, tão importantes e complexos, é preferível um pouco de névoa a um excesso de claridade, que, por excesso justamente, nos pode ofuscar e impedir, assim, a visão. Digo isto, para defender Pascoaes de algum egoísmo extremo que pode decorrer (não digo, repare, que ‘decorre’) das suas palavras; creio que eu mesmo não terei dado a explicação completa, porque o seu raciocínio é inatacável.

As palavras de Cristo podem iluminar o assunto: “ama o outro como a ti próprio”. O amor conjugal pode ser, de certa forma, a imagem perfeita da frase de Cristo. O Paulo refere a expressão ‘alma gémea’, muito corrente nos nossos dias, mas receio que possa ser equívoca! Uma coisa é amar o outro em tal medida que faço por ele o mesmo que faria por mim, outra, bem diferente, é ver no outro como que um espelho. A ideia de complementaridade pode levar-nos talvez mais longe; diz Leonardo Coimbra, a propósito do amor entre o homem e a mulher, que um dá a volta a uma parte do globo e o outro à outra parte do globo, e ambos se encontram no cimo, no final. Esta belíssima metáfora ilumina bem aquilo que Pascoaes parece ter sentido: o radicalmente outro e o radicalmente mesmo; como um símbolo. Como sabe, um símbolo é uma metade de uma medalha que apenas se completa pela outra metade e só por ela. A inglesinha aparece assim como o complemento perfeito da alma de Pascoaes; a tal ponto que a revela, a mostra, a expõe fora de si.

*

Quanto à sua segunda pergunta, sobre se o Poeta é percursor de algum movimento em voga no final do século XIX, eu diria que dada a verdadeira demanda que Pascoaes empreende, ao ir descobrindo a natureza da alma portuguesa, isso decorre de um certo Romantismo, movimento a que o melhor de Portugal, de forma sui generis, nunca deixou de sentir ligado. Neste sentido, podemos apenas pensar nele como, não tanto um percursor, mas antes um difusor do saudosismo.

Em relação aos autores que podem ter marcado Pascoaes, continuo pensando como lhe disse que, mesmo no período que refere, são Sampaio Bruno e Guerra Junqueiro e, genericamente, como referi, o movimento do Romantismo.

Espero ter respondido ao que pretendia.

A ver se encarreiramos agora com regularidade esta nossa epistolografia!

Um renovado abraço e os votos de um Santo 2015!

Pedro Sinde

§

Vila Nova de Gaia, 24 de agosto de 2014

Meu caro Pedro

A última carta foi muito esclarecedora quanto à minha questão: Isso sucedeu com o Poeta (apaixonar-se) e, em caso afirmativo, quais as repercussões que teve na sua vida pessoal e literária?

Por um lado, ficamos a saber que o Poeta quando viu Leonor Dagge teve positivamente a impressão nítida de que encarara com a sua própria alma, misteriosamente transformada em corpo, perante si.

Por outro, a de que o feminino é como a porta do sagrado, como a revelação do divino: a mulher deixando entrever a Deusa.

Sendo assim, podemos concluir que o Mestre se amava na figura daquela mulher. Aquele ser acabaria por ser (desculpe a repetição) um pretexto, como que a revelação do seu próprio ser.

Nós, no senso comum, referimo-nos à nossa alma gémea (aceitamos a sua individualidade), o Mestre, por sua vez, falava na sua própria alma. Está visto que o amor conjugal nunca seria concretizável.

Creio que em traços simplistas resumi o teor da sua última carta Se a interpretação que fiz corresponde, no essencial, ao que o Pedro me quis transmitir podemos considerar como respondida aquela primeira questão.

Será assim?

Em caso afirmativo, resta o Pedro responder à segunda questão: E paixões literárias? Com tanto tempo para se dedicar à leitura seria inevitável (lá estou eu outra vez com o determinismo!) que se tenha identificado com algum autor ou obra publicada à época (1895-1901).

O Poeta é percursor de algum movimento em voga no final do século XIX? Se existiram, quem foram os mestres do Mestre?

Um grande abraço,

Paulo

§

Matosinhos, 16 de Maio de 2014

Meu caro Paulo

Peço-lhe desculpa pela demora na resposta, mas estive bastante tempo ausente e agora estou a tentar reorganizar-me.

Queria começar por responder à primeira pergunta da sua carta, citando um excerto de um livro meu, em que justamente refiro esse aspecto (A Montanha Mística/Cartas da Prisão, pp. 56-58):

“Nas cartas que escreve à sua irmã Maria da Glória, o Poeta descreve a forma como encarou pela primeira vez a inglesa Leonor Dagge, por quem imediatamente se apaixonou. E é aí que podemos entrever a génese deste poema [Maranos], a que Pascoaes muito significativamente se refere como “romance em verso”.

Numa dessas cartas à irmã descreve por este modo a experiência fulgurante do primeiro encontro:

“Quando a vi pela primeira vez, eu tive, eu tive positivamente a impressão nítida de que encarara com a minha própria alma, mysteriosamente transformada em corpo, perante mim!” (António Cândido Franco, Eleonor na Serra de Pascoaes)

Esta frase é fundamental para entrevermos não só a formação do poema, mas também toda a tónica especial que aí se encontrará e que tanto o aproximará dos persas de Corbin e, sobretudo, dos fiéis d’amor.

Ficámos já a saber que o poema não é, no seu conteúdo, o resultado da sublimação de um amor frustrado, porque ele nos aparece logo aqui sinteticamente formulado no primeiro momento do encontro entre Pascoaes e Leonor. O que fez nascer o poema, então, foi precisamente este primeiro “choque” patente na reacção de Pascoaes e não o desenrolar desse amor condenado à separação. A causa profunda do poema não é, pois, a desilusão, mas, pelo contrário, a experiência ígnea que atingiu o Poeta logo naquele primeiro encontro em que ainda tudo era possível.

Repare-se nos termos que Pascoaes utiliza para descrever a situação; repare-se no cuidado com que ele diz “eu tive positivamente a impressão nítida”, os termos que coloquei em itálico revelam que o Poeta quer deixar patente a vivência profunda da experiência; não se tratou de uma sugestão, tratou-se de uma vivência positiva e nítida, ele o diz e destaca. É aqui que está a origem do Maranos, porque ali está dado o mote retomado no início do poema, que depois será glosado até ao encontro final. Estamos perante um daqueles casos em que a beleza feminina é a porta do sagrado: por um lado manifestando o sagrado através da mais bela das formas e, por outro, conduzindo aquele que a contempla ao mesmo sagrado e, sobretudo, revelando o sagrado no próprio indivíduo.

É por esta razão que o poema tem início no encontro de Maranos com Eleonor, que diz ao primeiro: “Eu sou a tua alma aparecida” – exactamente a expressão que Pascoaes usara na carta à irmã. Se, já de seguida, recordarmos as palavras de Henry Corbin (Avicena), teremos formado o silogismo que ilumina a compreensão da direcção do poema: “O que a alma de repente visualiza é a sua própria Imagem arquetípica, aquela cuja marca traz em si mesmo e, simultaneamente, projecta e reconhece fora de si própria.” Não sei se o leitor acompanhou com um sobressalto íntimo o movimento de que se trata aqui; é que ninguém é profeta na sua terra e, por isso, acreditamos que estas coisas tenham tido lugar na Pérsia remota, com Dante ou Novalis, mas com um português de S. João de Gatão…

No livro autobiográfico Uma Fábula: o advogado e o poeta, Pascoaes descreve assim o encontro:

“Foi numa tarde de Outubro, numa dessas tardes de sobrenatural melancolia, em que os nervos se nos afinam até à percepção das almas e dos espectros, num eléctrico, sentada em frente a mim, a Eleonor do Maranos [sic], já pressentida na Minha Alma e na Elegia do Amor. Era Ela, em presença humana (…). / Deixo-me sempre levar não sei por quem, nem para onde. Derivo à flor dum sentimento inominado, sem margens e sem fundo, que será talvez o meu próprio ser antes do seu nascimento e já depois da sua morte (…); pois a morte é a morte da fantasia. O mais da nossa pessoa não morre, porque nunca viveu.”

Esta descrição, escrita mais de quarenta anos depois, mantém o sabor fresco da impressão original. Leonor é que é a figura feminina tutelar de toda a sua poesia, a tal ponto que o Poeta chega a dizer que ela já inspirava poemas anteriores ao seu encontro. O encontro no Maranos dá-se, tal como o encontro na Foz, no Outono e ao entardecer. Leonor apareceu imediatamente no papel de Eleonor, representando, deixa entrever o Poeta, aquela parte de si que não morre porque nunca nasceu, aquela parte que nunca encarnou, o seu anjo. Continuando a descrever essas primeiras fortes impressões, diz Pascoaes que na “sua aparência humana, transluzia não sei que divina aparição.” “E assim ela me aparecia duplamente, ou como fêmea e donzela, a que cheira a mulher, e a que rescende, não a flores, mas a Flora, a Deusa das deusas, a Deusa Mãe…”

Eis o feminino como porta do sagrado, como revelação do divino: a mulher deixando entrever a Deusa. E Pascoaes comenta depois, não sem um tom de humor irónico voltado para si próprio: “E quem se atreve a declarar-se a uma Deusa?”

Passámos de Leonor a Eleonor, subimos uma oitava, para me expressar nos termos de Corbin. Esta mudança de nome é muito significativa, tanto pelo que mostra como pelo que esconde: mostra que ali há um parentesco entre Leonor e Eleonor, mas esconde que algo as distingue e separa, isto é, que não se confundem uma com a outra, precisamente como um acorde tocado em duas oitavas.

Esta mudança de nome pela introdução do prefixo –el, em Eleonor, é muito significativa; o que aqui aparece como prefixo é o habitual sufixo presente nos nomes hebraicos dados, por exemplo, aos seres angélicos: Miguel, Rafael, Gabriel ou Uriel. É o nome do divino e deixa patente a orientação que Pascoaes quer conferir à “personagem espiritual” Eleonor, como ele mesmo lhe chama, e, assim, a todo o poema ou “romance em verso”.

Nesta mudança de nome está patente a ideia da natureza angélica – prefigurada precisamente nesse prefixo – sobrepondo-se à natureza humana, restabelecendo por esse modo a hierarquia primordial e que virá a realizar-se plenamente quando, no final do poema, a natureza humana – Maranos – se reintegrar na natureza angélica – Eleonor.”

Desculpe a passagem longa, mas não tinha outra forma de expressar a profundidade deste evento na vida de Pascoaes.

Até breve.

Votos cordiais de que tudo lhe corra bem,

Pedro Sinde

§

Ericeira, 14 de abril de 2014

Meu caro Pedro

Do que me conta, dito por si e por interpostas pessoas, umas vezes transcrevendo as palavras do próprio Poeta e outras da irmã, podemos concluir que da paisagem de Coimbra aquele sentiu uma lágrima nos olhos que era doce. Nada mais. Por isso não vou insistir mais no assunto.

Sobre a consciencialização do mundo e da sua personalidade é natural que aquelas se tenham intensificado durante a estadia em Coimbra (esteve muito tempo isolado), o que coincidiu com a passagem da adolescência à idade adulta (24 anos).

Também é natural, digo eu, que durante aquele período, em especial na adolescência, se tenha apaixonado. Aliás, a irmã alude a uma primeira grande paixão do Poeta.

Isso sucedeu com o Poeta (apaixonar-se) e, em caso afirmativo, quais as repercussões que teve na sua vida pessoal e literária?

É que, pelo que o mesmo relata, quanto ao convívio com os colegas (poetas e outros), parece que nada se lhe entranhou (o termo escolhido é muito sugestivo).

E paixões literárias? Com tanto tempo para se dedicar à leitura seria inevitável (lá estou eu outra vez com o determinismo!) que se tenha identificado com algum autor ou obra publicada à época (1895-1901).

O Poeta é percursor de algum movimento em voga no final do século XIX? Se existiram, quem foram os mestres do Mestre?

Sei que são muitas perguntas para uma só carta, mas estou em crer (é mais um ato de fé) que todas são pertinentes e, além disso, não corro o risco de as deixar para outra oportunidade e depois esquecer-me delas. Aceito, por isso, que o Pedro as possa responder faseadamente.

Um grande abraço,

Paulo

§

Matosinhos, 22 de Março de 2014

Meu caro Paulo

Grato por mais esta sua missiva. Vou procurar, de novo, dar a palavra ao Poeta a propósito da sua passagem por Coimbra: “neste meio académico e ruidoso, eu era um ser inverosímil. Não sabia as lições, nem traçar a capa, nem trilhar as ruas da vila. O estudante meteu-se em mim, como um intruso. Nunca me conformei com ele, com essa capa e batina talhadas para outro corpo. Olhava-me desconfiado e tratava-me por senhor”. Assim nos diz no Livro de Memórias. Em Coimbra, Pascoaes sente nascer em si o mundo da artificialidade social: “É o momento em que nos separamos da Natureza e nos adaptamos à sociedade. Essa transição do natural para o artificial, é uma tragédia em certos temperamentos enraizados no âmago da terra. É uma tragédia que vai até à morte./ Somos originariamente uma criação da nossa fantasia, como os demónios e os deuses e depois começamos a ser um produto do meio.” Reparou, naturalmente, como o Poeta utiliza o termo ‘criação’ para se referir ao natural e o termo ‘produto’ para se referir ao artificial social…

Assim, aquilo que parece mais ter marcado este período, foi o contraste, o aparecimento do ‘outro’ em si mesmo, ou do doutor no poeta. Como uma queda da verdadeira identidade na alteridade. Pascoaes refere-se a esse momento como ao aparecimento de um novo personagem em si: “Jamais esquecerei o momento em que um novo personagem quer substituir-se à nossa pessoa verdadeira. É o momento em que nos separamos da Natureza e nos adaptamos à sociedade.”

É verdade que Pascoaes conviveu com os poetas na sua estada em Coimbra e refere-se-lhes, mas apenas, como nas memórias de infância, com quem assiste a um desfile de cenas; nada que se lhe tenha entranhado.

Onde podemos encontrar uma marca na sua alma é na paisagem, que lhe dá uma certa doçura que ele desconhecia, porque a paisagem que traz consigo é agreste e escura, é o Marão: “Senti uma lágrima nos olhos que era doce. Esta lágrima é tudo o que te devo, Coimbra!” Foi da paisagem que lhe veio esta lágrima.

Podemo-nos perguntar que outra marca de Coimbra, para além da paisagem, ficou gravada na sua alma. Creio que um ponto importante foi o contraste, que referi acima, entre a ruralidade ou naturalidade e a urbanidade ou artificialidade, que mais parece ter acentuado na sua alma o efeito da Saudade, no que tem de desejo de regresso à origem. Assim, o afastamento da sua terra parece ter sido a experiência ou vivência em si do que significa a Saudade.

Em Olhando para trás vejo Pascoaes, diz-nos a sua irmã que foi aí que nasceu a sua obra Sempre: “Em Coimbra, Pascoaes, emocionado pela sua primeira grande paixão, escreveu o Sempre; a primeira obra que lhe deu nome.” No entanto, esse foi o efeito dessa primeira paixão, não de Coimbra.

Assim, novamente, nesta outra fase da sua vida, encontramos a mesma coerência na alma do Poeta, que procura livrar-se deste novo personagem artificial que se queria colar a si: “Entre o poeta natural e o bacharel à força, ia começar um duelo que durou dez anos, tanto como o cerco de Troia e a formatura de João de Deus.” O poeta natural havia de ganhar o duelo e o advogado artificial acabaria por desaparecer para sempre.

Creio que o Poeta soube responder às suas várias perguntas. Dir-me-á o que acha, pois, em nova carta.

Fique com o abraço do

Pedro Sinde

§

Fátima, 9 de Março de 2014

Meu caro Pedro

Às minhas quatro questões:

Que teorias filosóficas e literárias predominavam nos anos que antecederam o nascimento de Teixeira de Pascoaes (1877) e quem eram os seus mentores?

Em que medida as habilitações literárias, sensibilidades e afinidades culturais dos pais de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, o predispuseram para estremecer perante aquela paisagem?

Será que sofreu influências de outros familiares, mestres-escola, padres ou catequistas?

Ou será que a saúde (física ou mental) da criança poderá ter contribuído para aquela fragilidade (não sei se o termo é o mais adequado?)?

o Pedro respondeu-me que aquilo que predispôs o Mestre a ‘estremecer’ perante a paisagem, foi a sensibilidade que consigo mesmo trazia e que despertou ao abrir os olhos para o Marão (será o seu segundo nascimento).

(Neste particular poderíamos falar de Immanuel Kant e das suas categorias a priori. Será oportuno ou deixamos para outra ocasião?)

Do que me conta, usando, inclusive, palavras do visado, podemos concluir que o menino e o rapaz que vemos crescer em Gatão, distingue-se dos demais pela sua superioridade, cuja dimensão os seus contemporâneos (1877-1887) ainda não conseguiam abarcar, pelo seu silêncio e pela sua vivência nos montes (de acordo com o próprio, seria a sua verdadeira vida).

Segundo pude apurar, o convívio com aquela natureza (o Marão e as redondezas) foi intercalado, durante o período da sua formação superior (a juventude), com a vida urbana e académica de Coimbra.

A pergunta que lhe coloco, desta vez, é limitada temporalmente:

Que efeitos provocou, em Teixeira de Pascoaes, a sua passagem por Coimbra entre 1895 e 1901, entendida aquela na sua vertente geográfica (nova paisagem, no caso, urbana), social (convívio com novas gentes, em especial os colegas e professores) e académica (leitura de obras do curso de direito e de outras temáticas)?

Um grande abraço,

Paulo

§

Matosinhos, 25 de Fevereiro de 2014

Meu caro Paulo

Queria convidá-lo a ‘ouvir’ comigo a irmã do Poeta, Maria da Glória. Em Olhando para trás vejo Pascoaes, conta-nos que eram “seis irmãos, nascidos e criados no mesmo ambiente e todos tão diferentes!”. Minimiza, pois, as influências exteriores, e, como verá, acentua as diferenças interiores; ora veja: “Pascoaes foi sempre um homem, nunca foi criança, tanto a falar como a brincar. Tinha um ar grave, diferente de todos nós, que se impunha; talvez fosse por isso que nunca o tratámos por tu, mas sim por você.” É impressionante, não acha? Mas continua: “Apercebia nele uma superioridade da qual não atingia a dimensão. Na sua frente estava sempre calada e atenta.” E caracteriza-o, dizendo: “Foi sempre contemplativo. Não era triste, era um silencioso. Eu tive, mesmo depois de crescida, um respeito enorme pelo seu silêncio. Nunca o quebrava; esperava sempre que ele me interrogasse.”

E agora ouçamos o Pascoaes no seu Livro de Memórias: “Tinha sete anos. Entre mim e os outros não havia distância. Eu era tudo e todos. A Lucrécia, o António, o velho lódum, irrompiam do meu ser, tocados de uma luz amanhecente.” Aqui o Poeta ilustra o modo como se relacionava com o outro – seja uma árvore ou uma pessoa: tudo parecia irromper do seu ser: “Entre mim e as coisas mediavam íntimos e fraternos sentimentos, que eram elas continuando-se no meu ser”. “Vivia nos montes e nos campos de Gatão e em outros campos e montes de quimera… Nestes montes é que eu vivia na verdade”. É o Pascoaes a responder ao Paulo! Isto, creio, é o essencial.

Se ler, no seu Livro de Memórias, o modo como desfia, como as contas de um rosário, a recordação das pessoas com quem conviveu, verá que não se encontram marcas profundas nele. O Poeta, como deixa entrever a sua irmã, trazia consigo aquilo que era; como se o exterior, para ele, fosse apenas um pretexto. Não podemos subvalorizar as impressionantes palavras da irmã.

Mas, por ventura, quero eu dizer que os pais não o influenciaram ou que não houve outro tipo de influência? Claro que não, mas aquilo que o predispôs a ‘estremecer’, como bem diz o Paulo, perante a paisagem, foi a sensibilidade que consigo mesmo trazia e que despertou ao abrir os olhos para o Marão (Os Poetas Lusíadas): “Não sei o que se passou comigo, nesse instante imobilizado e empedernido na ondulação dos anos fugidios, a marcar a data do meu segundo nascimento… Porque eu renasci nessa hora, não em carne e osso, mas em sombra e melancolia.”

Sim, é verdade, de novo ouço o Paulo a lamentar-se de mim! Creia, no entanto, que lhe respondo com a mais profunda sinceridade!

Aceite os meus cordiais cumprimentos,

Pedro Sinde

§

Vila Nova de Gaia, 16 de Fevereiro de 2014

Meu caro Pedro Sinde

É verdade. Logo que li a sua introdução em que diz que foge da consulta da história da literatura ou da filosofia como o diabo da cruz, apercebi-me que iria fugir à minha pergunta: Que teorias filosóficas e literárias predominavam nos anos que antecederam o nascimento de Teixeira de Pascoaes (1877) e quem eram os seus mentores?

Mas, enfim, vamos dar tempo ao tempo e, quem sabe, os dois iremos contextualizar o Mestre no seu tempo. É que continuo a acreditar que a suscetibilidade daquele para estremecer diante da paisagem, vista e sentida há milhares de anos por tantos seres humanos e não constando que alguém tenha reagido da mesma forma, deveria tentar ser percebida. Nestas questões sou muito teimoso, diria até obcecado.

Assim, aceitando que aquele possa escapar ao crivo da história da literatura ou da filosofia que o precedeu, creio que o Pedro nos poderia ajudar a enquadrar melhor o Mestre através da descrição das influências familiares, locais ou outras.

Por isso, aproximo-me mais do momento do nascimento do Mestre (1877) e pergunto-lhe:

Em que medida as habilitações literárias, sensibilidades e afinidades culturais dos pais de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos, o predispuseram para estremecer perante aquela paisagem?

Será que sofreu influências de outros familiares, mestres-escola, padres ou catequistas?

Ou será que a saúde (física ou mental) da criança poderá ter contribuído para aquela fragilidade (não sei se o termo é o mais adequado?)?

Um grande abraço,

Paulo Lopes

§

Matosinhos, 8 de Fevereiro de 2014

Meu caro Paulo Lopes

Agradeço desde já a sua carta, que me dá vontade de começar a minha resposta como quando se escreviam cartas e havia tempo e espaço entre elas: Espero que esta o encontre bem, a si e aos seus…

Da sua carta gostaria de destacar a mesma palavra que o meu amigo destaca – Montanha – e, com ela, fugir à sua pergunta para não ter de consultar nenhuma história da literatura ou da filosofia, de que fujo como o diabo da cruz!

Assim, como creio que a sua pergunta visa começar a entrever as influências que terá sofrido Pascoaes, essa ave metafísica, como lhe chamou Sant’Anna Dionísio, penso poder dizer-lhe que, de certa forma, o Poeta sofreu apenas duas influências na sua infância, que marcaram a sua alma para sempre: os camponeses e a montanha. É ele a dizê-lo no seu Livro de Memórias: “eu crescia da terra e das almas, nestes outeiros solitários”. Eis as duas substâncias que foram o seu substrato: a terra é o seu Marão e as almas são os camponeses.

Do primeiro dirá: “Houve um momento, na minha vida, em que eu estremeci, diante da paisagem, como se ela própria houvesse estremecido. E dos lábios soltaram-me estas palavras: Ó Natureza, qualquer coisa existe / De íntimo entre o meu peito e a tua essência! (…) Houve um instante em que as pedras e os montes me falaram. E fiquei a ser esse instante. Aquele relâmpago fixou-se no meu espírito.” (O Homem Universal).

Sobre os camponeses, diz: “Eu, por exemplo, sinto perfeitamente que, se alguma coisa há de português na minha obra poética, foi o ter vivido os primeiros anos da minha infância no meio de camponeses.” (A Era Lusíada)

É que a sua alma era genial ou inspirada por um génio e, por isso, nenhuma influência substancial o poderia marcar, porque um génio vem para moldar a substância em que trabalha, como o oleiro o barro. As influências, para os génios, são modos de expressão, só modos, porque o que têm de dizer, dir-se-á necessariamente: só o modo de dizer pode mudar. Pascoaes era um espírito selvagem, não caberia em fôrma de régua e esquadro! Eu gosto de o pensar assim, caminhando pela montanha, em estado de alta tensão, ígneo mesmo, um bardo, um vate, um dervixe.

Sim, ouço já o Paulo a lamentar-se que eu fugi à sua pergunta. Tem toda a razão e aqui me penitencio, mas que hei-de fazer?, se continuo a pensar que o Pascoaes é um iniciado em estado selvagem? Um iniciado que passou pelo seu segundo nascimento, como ele diz, quando na sua infância viu a paisagem. Nesse dia, nasceu em si a saudade. Ainda nada sabia de filosofia ou literatura.

Aceite o abraço do

Pedro Sinde

§

Vila Nova de Gaia, 2 de Fevereiro de 2014

Meu caro Pedro Sinde

Hoje despertei encandeado pelos raios de Sol que, aproveitando um pequena fresta existente entre o estore e a umbreira da portada, devassavam o quarto. Não posso garantir quem é que me acordou: se foi o meu relógio biológico ou se foi o relógio do sol. Algo sucedeu que a minha consciência não alcança. O que é certo é que desde muito cedo estou acordado e a disponibilidade para lhe escrever sempre apareceu.

Ando a ler, pela quarta vez, a Vindima, de Miguel Torga. Desta feita, decidi agarrar num pequeno lápis (tem o tamanho do meu dedo médio e o carvão é muito macio) e sublinhar as fantasias do autor, que vão desde as singelas comparações, às metáforas telúricas. E para não me perder no emaranhado das figuras de estilo, venho-as enumerando.

Hoje encontro-me na página 178, por referência à 5.ª edição de autor (1994). Revendo as minhas notas, contei oito vezes a palavra MONTANHA (uma ou outra vez é escrita em maiúsculas). Eu sabia, pelo menos desde a secundária (7.º ano), que Torga encara aquele acidente geográfico como um ser, como uma entidade que possui alma e vontade. Mas a releitura do texto trouxe à tona aquela evidência.

Entretanto, nos últimos tempos, numa das minhas escapadelas à livraria, descobri no livro de Eugénio de Andrade, Os Afluentes do Silêncio, dois textos sobre Teixeira de Pascoaes. E nas minhas deambulações pela net, encontrei recentemente uma entrevista a Mário de Cesariny em que contava que um familiar do Mestre o tinha visto a sair do escritório com a cabeça em chamas por causa das trovoadas do Marão.

Como pode ver, o meu pensamento tem andado à volta da MONTANHA e do VELHO DA MONTANHA.

Para concluir este encadeamento, falta falar agora de si.

Pois bem, soube, por causa da entrevista ao Correio do Porto, que escreveu uma obra com o título: O Velho da Montanha – A Doutrina Iniciática de Teixeira de Pascoaes (Hugin, 2000).

Ora, é notório que ambos temos um fascínio muito grande pela figura do Mestre, pelo que poderíamos partilhar esta afinidade intelectual de acordo com as nossas capacidades. Eu colocaria as questões de modo a saciar a minha curiosidade, enquanto o Pedro revia o estudo já realizado e depois respondia-me de volta.

Pode ser?

Caso o desafio seja aceite, aqui vai a primeira pergunta:

Que teorias filosóficas e literárias predominavam nos anos que antecederam o nascimento de Teixeira de Pascoaes (1877) e quem eram os seus mentores?

Um grande abraço,

Paulo Lopes

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